COMUNIDADES ECLESIAIS MISSIONÁRIAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

A Igreja no Brasil, por meio das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2019-2023, nos convida a “evangelizar no Brasil cada vez mais urbano, pelo anúncio da Palavra de Deus, formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo, em Comunidades Eclesiais Missionárias, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude”.

Evangelizar é a missão principal da Igreja, pois a Igreja, o sinal visível do Cristo invisível, existe para evangelizar, ou seja, comunicar a Boa Nova da Salvação, testemunhando os sinais da misericórdia de Cristo. A imagem da casa, lugar de acolhimento, de vínculos fraternos, de chegada e de envio, é muito utilizada pelas Novas Diretrizes para exemplificar o serviço da Igreja que deve sempre ser alicerçado nos pilares da Palavra, do Pão, da Caridade e da Ação Missionária.

Diante dessa pandemia mundial ocasionada pelo Covid 19, nós podemos nos questionar: como realizar essa evangelização diante deste panorama do Coronavírus? Como vivenciar os quatro pilares solicitados pela Igreja no confinamento de nossos lares? Primeiramente, devemos reconhecer que é o Espírito Santo quem comanda a Igreja. Ele continua nos inspirando a sermos testemunhas do Evangelho para suscitar a curiosidade em quantos não creem, e assim continuar conquistando novas almas para Deus. É o Divino Espírito quem nos faz perceber que “nossas comunidades precisam ser oásis de misericórdia, no deserto da história, casas de oração profunda, de mergulho no sagrado mistério revelado pelo Amor do Pai”. (Documento 109 da CNBB, nº 132).

Em nossas casas, no calor acolhedor do lar, nós devemos continuar realizando os necessários meios para a perseverança na fé e, por isso, devemos criar novos espaços para a oração em família, como também momentos de leitura das Sagradas Escrituras, mantendo sempre a serenidade e a confiança em Cristo. Creio que o primeiro passo para vencermos a Covid 19, nesses nossos dias, é aprendermos a obedecer. A obediência nesses dias, “fiquem em casa”, é um convite para que todos sigam as disposições e indicações das autoridades civis, sobretudo, a Organização Mundial da Saúde. Obedecer, nesse momento, é um gesto de caridade, de atenção e de compromisso com o nosso próximo.

Mesmo nos nossos lares, nós podemos e devemos continuar a vivência dos quatro pilares que edificam a Igreja, assim como edificaram as primeiras comunidades cristãs. Em casa, nós podemos reservar tempos para a leitura das Sagradas Escrituras, para a realização da Lectio Divina e para a meditação da Paixão de Cristo. Desse modo, nós vivenciamos o Pilar da Palavra.

Por meio da comunicação on-line, nós e nossas famílias podemos participar de grupos de oração, das celebrações da Santa Missa e de tantas outras iniciativas pastorais. Desse modo, nós vivenciamos o Pilar do Pão que nos ajuda a praticar o perdão, a comunhão e o acolhimento.

Especificamente, por meio do Pilar da Caridade, nós somos encorajados a reforçar, criativamente, os vínculos que nos unem, acompanhando, com solicitude, os que estão ao nosso lado e também os que não estão. Permanecendo muito tempo juntos, vivendo as 24 horas bem próximos uns dos outros, podem surgir momentos de desacordo, mas podemos superá-los com o perdão e com doces palavras curativas, tais como: me desculpe e obrigado. Podemos também, se não pertencemos ao grupo de risco, realizarmos pequenos serviços para os idosos e outras pessoas que podem estar sozinhas em suas casas, tais como irmos ao supermercado ou à farmácia para comprarmos algo que pode estar faltando. Nesse sentido, a caridade não tem limites, desde que seja realizada com os devidos e necessários cuidados. Agindo assim, nós perceberemos que “somente um olhar interessado pelo destino do mundo e do ser humano permitirá experimentar a dor pela situação que rege a história, mas que é superada pelo amor de Deus que a envolve”. (Documento 109 da CNBB, n º 103).

O Pilar da Ação Missionária, inicialmente, parece ser o mais difícil de ser realizado nesse momento. Mas, temos que fazer memória de Santa Teresa de Lisieux, a Santa Padroeira das Missões. Santa Teresinha nunca saiu de Lisieux para realizar grandes obras missionárias, mas, mesmo assim, no recolhimento de sua congregação, ela nunca deixou de realizar ações e orações em prol dos missionários do mundo inteiro. Temos que aprender, com Santa Teresa de Lisieux, que a limitação do espaço físico não é uma barreira para a nossa ação missionária. Esse muro do espaço físico é derrubado quando percebemos que podemos escrever textos e reflexões sobre Deus, a fé e a Igreja e disponibilizarmos na internet. Quem tem o dom de cantar, cante. Quem tem o dom de dançar, dance. Quem tem o dom de cozinhar e preparar deliciosos pratos, cozinhe. Ou seja, exercite os seus talentos. Podemos também ligar para os familiares, amigos e conhecidos e lhes oferecer, em todos os dias, uma palavra de otimismo, de esperança e de fortaleza. Cuidando de tudo aquilo que parece pequeno ou sem importância, nós estaremos edificando a Igreja em sua permanente obra missionária.

Realizando esses pequenos gestos e atitudes, nós concretizaremos, em nossos lares, as Comunidades Eclesiais Missionárias, e perceberemos que, quando somos dóceis à ação do Espírito Santo, Ele é sempre renovador. Unidos ao Divino Espírito, nós somos convidados a viver esse momento com serenidade e esperança, e a vê-lo também como um tempo que nos oferece novas oportunidades de redescobrir o Senhor, o Seu amor e o valor do nosso próximo.

Todos nós somos chamados a viver este período de tempestade com confiança no Pai Nosso que cuida de todos nós. Portanto, é bom intensificarmos a oração pessoal, o jejum e a esmola, a fim de que possamos caminhar na luz do amor de Deus. Agindo assim, no recanto de nossos lares, nós seremos Comunidades Eclesiais Missionárias e iremos testemunhar, em segredo, que “a Igreja é um único grande movimento animado pelo Espírito Santo, um rio que atravessa a história para a irrigar com a graça de Deus e torná-la fecunda de vida, de bondade, de beleza, de justiça e de paz”. (São João Paulo II). Santa Maria, Mãe de Deus e da Igreja, rogai por nós!

Aloísio Parreiras      
2020-03-26T11:23:04+00:0026/03/2020|