2020: UM ANO PERDIDO?

Para muitos historiadores, o ano de 1968 é considerado um ano que não acabou, pois os acontecimentos que ocorreram naquele ano foram decisivos para a realização de significativas mudanças políticas e sociais nos mais diversos continentes do mundo. Por outro lado, o ano de 2020, que está acabando, é considerado por muitas pessoas como um ano perdido ou que deveria ser esquecido, pois, em função da pandemia da Covid-19, cancelamos viagens, férias, olimpíadas, casamentos, festa de debutantes, encontros sociais com os amigos e os familiares e passamos a viver isolados, em quarentena, realizando sacrifícios, renúncias, enfrentando medos e temores e  aprendendo a ressignificar as nossas vidas. Em outras palavras, a sensação de muitas pessoas é a de que neste ano a nossa vida ficou paralisada.

Indiscutivelmente, o ano de 2020 está sendo atípico em muitos aspectos. Por um lado, tivemos avanços determinantes no que tange à adoção maciça da tecnologia por diversas pessoas que passaram a trabalhar, a estudar ou a assistir a Santa Missa em suas casas, em função do isolamento social. Lives, meet e outras palavras passaram a ocupar o nosso cotidiano. No outro extremo, tivemos perdas consideráveis em inúmeras áreas: aumento do desemprego, da pobreza e da crise social, dos casos de depressão e de ansiedade e, de alguma forma, a perda da noção de tempo, pois o dia 11 de março, dia em que a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia do novo Coronavírus, parece que foi ontem, mas já estamos no mês de novembro, o penúltimo mês do ano.

Nos primeiros meses de enfrentamento da pandemia da Covid-19, por estarmos afastados fisicamente das nossas comunidades, em termos espirituais, tivemos a impressão de que as solenidades da Páscoa, de Corpus Christi, do Sagrado Coração de Jesus e outras datas solenes foram comemoradas parcialmente, pois sentimos muita falta da Sagrada Comunhão Eucarística. Claro é que buscamos suprir essa falta com a prática da comunhão espiritual, pois somos seres eucarísticos, ou seja, não podemos viver sem a participação na Eucaristia.

Uma importante lição que estamos aprendendo com as dificuldades da pandemia da Covid-19 é a consciência de que não podemos ficar debruçados sobre nós mesmos, lamentando as nossas limitações e, por isso, devemos tirar do olhar o foco egoísta, a fim de que possamos alargá-lo com a percepção das necessidades do nosso próximo. Agindo assim, aprendemos a “manter os olhos fixos em Jesus, Autor e Consumador da nossa fé”. (Hb 12, 1).

Se cuidamos da oração, da leitura e da meditação das Sagradas Escrituras e se reservamos tempos e momentos para o nosso crescimento na fé e na santidade, este ano de 2020 deixará marcas indeléveis em nossa história e em nossas vidas, pois essas atitudes nos ajudaram a deixar de ser espectadores das sombras da morte e nos transformaram em protagonistas da esperança, arautos do otimismo, profetas de novas possibilidades missionárias. Nessa empreitada, lutando contra a acomodação no medo, nós refletimos que “o tempo é um tesouro que se vai, que escapa, que escorre por nossas mãos como água pelos penhascos. O ontem passou, e o hoje está passando. O amanhã logo será outro ontem. A duração da vida é muito curta. Mas quanto se pode realizar, por amor a Deus, neste pequeno espaço”. (São Josemaría Escrivá).

Em termos humanos, não podemos esquecer que a pandemia continua a causar feridas profundas, evidenciando nossas fraquezas e desmascarando as nossas limitações, pois a vacina contra o coronavírus ainda não está disponível. Desse modo, o uso de máscaras e a higienização das mãos, com álcool em gel, permanecem como cuidados paliativos. Não obstante essas dificuldades humanas, a vivência da fé deve fazer a diferença em nosso dia a dia, reforçando a certeza de que Deus não se esqueceu de nós; afinal, “os caminhos dos homens, se vividos na fé, podem tornar-se um espaço de trânsito para a salvação de Deus, por meio da Palavra da fé, que é um fermento ativo na história, capaz de transformar situações e abrir caminhos sempre novos”. (Papa Francisco, Audiência em 15 de janeiro de 2020).

Transformando situações difíceis em terreno propício para a semeadura do Evangelho, professamos ao nosso próximo: “Meus irmãos, quando deveis passar por diversas provações, considerai isso motivo de grande alegria, por saberdes que a comprovação da fé produz em vós a perseverança. Mas é preciso que a perseverança gere uma obra de perfeição, para que vos torneis perfeitos e íntegros, sem falta ou deficiência alguma”. (Tg 1, 2-4).

A busca da perfeição, o empenho constante da edificação da santidade, deve ser o nosso objetivo central nesses dias de noites escuras para fazermos contraponto na luta contra a angústia, a dor, o vazio e a depressão. Todos esses sentimentos podem e devem ser vencidos com a correspondência sem reservas ao amor de Cristo. Nessa peleja de fé, “nas intenções, seja Jesus o nosso fim; nos afetos, o nosso Amor; na palavra, o nosso assunto; nas ações, o nosso modelo”. (São Josemaría Escrivá, Caminho nº 271).

Do mesmo modo que uma forte tempestade passa, deixando estragos pelo seu caminho, essa pandemia também vai passar deixando rastros de aprendizagens, de esforços caritativos e de serviço misericordioso nas sendas de nossas vidas e, por isso, quando voltarmos ao normal, iremos perceber que “todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus!” (Rm 8,28). Com essa convicção, poderemos bradar que “nesta vida só há uma tristeza, é a de não ser santo!”.

Com certeza, este ano de 2020 não será um ano perdido, pois apesar de estar sendo um ano de  austeridade, de desânimo e de receios, este ano está sendo também um ano de desafios, de grande crescimento espiritual, de exercício de virtudes humanas e cristãs e de significativas vitórias e, por isso, enquanto aguardamos, com serenidade e confiança, a alvorada que irá anunciar o fim dessa pandemia e o nascimento de um novo dia, continuemos suplicando à Virgem Santa Maria a cura dessa doença e de todos os males que assolam o nosso tempo, a fim de que possamos edificar, em sintonia com o Espírito Santo, um novo tempo de encontros, de fraternidade e de solidariedade. Continuemos unidos ao Senhor na Palavra e no Pão, na oração e nos sacramentos, salmodiando com esperança, mesmo em meio a essa noite escura: “Protegei-me, ó meu Deus, em Vós eu me refugio!”. (Sl 15).

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-11-11T08:41:07-03:0011/11/2020|