63 ANOS À SOMBRA DA CRUZ

No dia 3 de maio de 1957, uma sexta-feira, o Parlamento alemão aprovou uma lei sobre a equiparação de direitos entre homens e mulheres, evidenciando os sinais dos novos tempos. Nesse mesmo dia, o Papa Pio XII lançou a Carta Apostólica “Praeclaros inter Christi”. No Brasil, a Volkswagen lançou a Kombi, um carro com 15 lugares que alcançou um grande sucesso de venda.  Mas para nós, brasilienses, habitantes do Distrito Federal, o dia 3 de maio é um dia de retomada da memória, dia de recordar a celebração da Primeira Missa no Distrito Federal.

Naquela sexta-feira, dia 03 de maio de 1957, três anos antes da inauguração de nossa capital, bem como três anos antes da criação de nossa Arquidiocese, a santa Cruz foi plantada, entronizada na capital do nosso país, como um sinal de renovada esperança para todos os brasileiros e, em especial, para cada um dos candangos que ali estiveram presentes – aproximadamente, quinze mil pessoas – para celebrar a primeira Missa que marcou o nascimento de Brasília. Naquele dia, a Cruz erguida, no alto do Eixo Monumental, expressou a presença dos fiéis cristãos na epopeia da construção da nova capital, evidenciando sinais de fé, de esperança e de fortaleza.

Esse acontecimento religioso promoveu um encontro pessoal e especial dos candangos com Jesus Cristo, por meio da Igreja, o sinal visível do Cristo invisível. Durante a celebração da Santa Missa, que foi presidida pelo Arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, na alma dos fiéis trabalhadores havia uma plena certeza: na imensidão daquele Planalto, naquela nova capital do nosso país, Deus vinha e viria para nos dar vida, e vida em abundância. Naquela ocasião, o então presidente da República, Juscelino Kubistchek, suplicou: “Que a Providência faça desta nova cidade terrestre um reflexo da cidade de Deus; que ela cresça sob o signo da caridade, da justiça e da fé”.

Além do presidente Juscelino Kubistchek, inúmeras autoridades participaram da Primeira Missa no Distrito Federal, entre elas o vice-presidente, João Goulart, Israel Pinheiro, presidente da Novacap – a empresa pública que construiu Brasília – e vários representantes diplomáticos, jornalistas, parlamentares e milhares de trabalhadores, ou seja, os candangos que ouviam frequentemente, nos campos de obra, Israel Pinheiro dizer: “Tudo devia estar pronto ontem”. Com o objetivo de unir, de alguma maneira, essa Primeira Missa na nova capital à Primeira Missa celebrada no Brasil, índios Carajás, da ilha do Bananal, trazidos pela Força Aérea Brasileira, se fizeram presentes, testemunhando o resgate histórico do primeiro evento litúrgico do Brasil.

Hoje, após sessenta e três anos daquela primeira celebração eucarística, podemos professar com entusiasmo que Brasília e nossa Arquidiocese cresceram e se desenvolveram à sombra da Cruz e foram protegidas pelas bênçãos alcançadas pela mediação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil e de Brasília. Nesses sessenta e três anos, por misericórdia de Deus, os candangos e seus descendentes aprenderam a bradar que “sem a fé é impossível agradar a Deus! ” (Hb 11,6). Desde aquela primeira Missa, mesmo entre as dificuldades que eram enfrentadas na edificação da moderna capital, pairava nas consciências dos destemidos candangos a firme convicção de que a Cruz e a Eucaristia seriam importantes marcos da vivência cristã no Planalto Central de nosso país.

No dia 16 de janeiro de 1960, a Arquidiocese de Brasília foi criada pelo Papa João XXIII, pela Bula “Quandoquidem Nullum”, e foi instalada no dia 21 de abril de 1960, mesmo dia em que nossa cidade foi inaugurada. Aos poucos, a vida eclesial foi adquirindo o seu espaço, pois as Paróquias foram surgindo e congregando pessoas das cinco regiões do nosso país que vinham em busca de melhores dias e de melhores oportunidades. Com firme confiança em Deus, à sombra da Cruz, nossas Paróquias foram sendo consagradas, novos templos católicos foram sendo edificados como símbolos da fé que dá sentido à estória pessoal de cada brasiliense e nos permite elevar um solene hino de ação de graças ao Altíssimo, que nos permitiu celebrar a Santa Missa, ininterruptamente, em todos e cada um desses dias que compõem essas seis décadas. Fazendo memória a esse fato histórico, nós “pedimos a Deus que continue a derramar sobre a generosa nação brasileira os seus celestes favores, para que progrida e prospere à luz do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja”. (Mensagem do Papa Pio XII para a primeira Missa de Brasília).

Anos mais tarde, fazendo referência a essa celebração, Dom José Newton de Almeida Baptista, primeiro Arcebispo de Brasília afirmou: “A cidade recebeu o batismo por ocasião da primeira Missa celebrada no lugar onde está plantado um sinal da Cruz, atrás do Memorial JK” Esse batismo de nossa cidade foi um transbordamento de graças e de santidade e, por isso, agradeçamos a nosso Senhor Jesus Cristo que nos tenha concedido tantas graças e inúmeros favores à sombra da Cruz. Agradeçamos-lhe pelo testemunho da fé dos candangos e dos brasilienses, que despertou nova esperança para a Igreja de nosso país. E peçamos-lhe que aumente mais e mais a devoção a Nossa Senhora Aparecida nas diversas cidades e estados do nosso imenso país, para que a Boa Nova que Cristo nos legou continue produzindo novos e fecundos frutos nos corações e nas almas do povo brasileiro.

Desde aquela Primeira Missa no Distrito Federal, permanece sempre viva, no coração e na mente dos habitantes de Brasília, a certeza de que, por meio da Cruz, Cristo libertou a humanidade da morte, do pecado e do mal e, por isso, a Cruz salvífica é o símbolo, o sinal da nossa salvação. A Cruz é também o sinal de que as dificuldades podem e devem ser superadas em plena união com Cristo, e junto d’Ele nós podemos contemplar a beleza de uma nova alvorada.

Graças ao trabalho, à dedicação e ao empenho dos bravos candangos, hoje nós temos a grata obrigação de agradecer ao Cristo Sua contínua presença em meio a nós, professando: “A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem!” (Hb 11,1). Que o Cristo vivo e ressuscitado que caminha conosco pelos caminhos da História e que, nesses últimos sessenta e três anos, nos tomou pela mão, permita que cada um dos brasileiros e, em especial, cada um dos brasilienses, reconheça o quanto é bom fazer parte do Povo de Deus, o quanto é bom poder caminhar em unidade e em comunhão! Obrigado, Senhor, pela entronização da Vossa Cruz no Distrito Federal, em nossos corações e em nossas vidas! Fazei, Senhor, que, por meio do nosso testemunho de fé, a Santa Cruz continue sendo referência e inspiração para novos e ousados serviços missionários da Vossa Igreja e alicerce seguro na edificação dos modernos sonhos e ideais!

 

Aloísio Parreiras
2020-05-02T19:29:47-03:0002/05/2020|