A BONDOSA MÃE E SENHORA APARECIDA

Na segunda quinzena do mês de outubro de 1717, há exatos trezentos e três anos, três pescadores – Filipe Pedroso, Domingos Garcia e João Alves – estavam buscando peixes para a mesa do governador da capitania de São Paulo e Minas Gerais. Eles lançaram suas redes para pescar nas águas turvas do Rio Paraíba do Sul e recolheram a pequenina imagem de Nossa Senhora da Conceição, a quem o povo aclamou e acolheu como Aparecida.

Assim que foi retirada das águas – primeiro o corpo, depois a cabeça – a pequena imagem de Nossa Senhora começou a operar milagres. Os peixes que estavam escassos naquele dia tornaram-se abundantes, evidenciando que aquela imagem era um bem concedido por Deus ao povo simples e humilde, um sinal eficaz da misericórdia divina. Podemos também perceber no sinal dos peixes, símbolo do cristianismo primitivo, na época das grandes perseguições do Império Romano, o sublime sinal revelado da Eucaristia, Corpo e Sangue do Cristo que percorre conosco o cotidiano de nossa história.

Percebendo naquela pequena imagem a força da mediação da Virgem Santa Maria, os três pescadores levaram-na para a casa de Filipe Pedroso, onde permaneceu por seis anos. Começava ali a se difundir a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, pois, naquela humilde casa, as famílias dos três pescadores se reuniam junto aos vizinhos para rezar o terço. Em pouco tempo, a temporada de milagres teve início: o milagre das velas, a cura da menina cega, a libertação do escravo Zacarias e tantos outros.  Diante desses milagres, uma certeza pairava no ar: Deus nunca nos deixa sozinhos, Ele não se esquece de nós.  Pairava também a consciência de que, assim como em Caná, a Virgem Maria intercede por nós. Ela nos ajuda a mergulhar no oceano das grandezas de Deus e nos faz perceber as maravilhas da graça divina, clareando as nossas inteligências por meio da solidez da fé.

          Em pouco tempo, com o desenvolvimento da devoção a Nossa Senhora Aparecida, fez-se necessária a construção de uma capela para abrigar a frágil imagem, pois, quando é acolhida em nossas famílias, a Virgem Maria nos faz perceber que, juntos, na vivência cotidiana da fé, nós somos comunidade, igreja, membros do Corpo Místico de Cristo e, por isso, compartilhamos com o nosso próximo os tesouros que recebemos do Altíssimo.

Um dos grandes tesouros que recebemos do Cristo é a devoção à Virgem Santa Maria. No nosso país, a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida começou em uma singela casa, continuou em uma modesta capela e se consolidou no maior santuário mariano do mundo. “Das mãos de Deus ao rio as mãos de um pescador. Das mãos da Igreja as casas todas do nosso país!”

Desde o dia em que foi recolhida na rede dos três pescadores no Rio Paraíba do Sul, a Virgem Maria tem se revelado para os brasileiros como a bondosa Mãe que está atenta às nossas necessidades. Ela é a Mãe do belo amor que, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, entra em nossa casa e a transforma num lar, entra em nossa família e a transforma em uma Igreja doméstica, entra em nossos sonhos e os transforma em realidade e, acima de tudo, entra em nossos corações e os transforma em sacrários vivos de Deus e nos faz perceber que precisamos mergulhar nas águas profundas dos mistérios da fé para conseguirmos entender o plano de Cristo em nossas vidas.

          Quando mergulhamos, com inteligência e sabedoria, nos mistérios da Virgem Maria, Ela se torna para nós Aparecida e revela-nos o alcance do amor e da misericórdia de Jesus. Quando pescamos e não obtemos sucesso, nós nos cansamos com facilidade. Nesses momentos, nós imaginamos que Deus se esqueceu de nós. Nessa situação, a Virgem Maria vem ao nosso encontro e fortalece a nossa esperança e nos ajuda a recobrar o ânimo, o entusiasmo, o zelo e o espírito de oração.

Os sinais de oração se fazem presentes no rosto, nos olhos e nas mãos da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, revelando-nos o valor da oração e a necessidade de dialogarmos frequentemente com Cristo. Aparecida carrega consigo uma mensagem profunda de oração e nos faz vislumbrar a certeza de que, pelo exercício da oração, o impossível se torna possível, a noite se transforma em luz, o cansaço é superado com a graça e a incredulidade é eliminada pela Verdade e, por isso, sempre que encontrarmos em nosso caminho pessoas que titubeiam na fé, devemos dizer a elas: recorram a Nossa Senhora Aparecida. Peçam a Ela aquilo que está lhes faltando. Se for necessário, peçam milagres e acreditem que a Mãe está intercedendo por todos nós.

Nesses trezentos e três anos de memória do evento de Aparecida, nesses três séculos de romaria, todos nós somos convidados a contemplar as maravilhas que Cristo operou e tem operado em nosso país por meio da intercessão da Virgem Maria. Somos também convidados a aprofundar o nosso caminho pessoal da fé e encontrar Cristo e Sua Mãe Maria de um modo transformador, novo, singular e totalmente decisivo. Queremos, sempre que possível, visitar o Santuário de Aparecida e, em especial, a Sala de Milagres, para agradecermos à Virgem Mãe todas as graças que recebemos por sua poderosa intercessão.

No Santuário de Aparecida, na Catedral de Brasília e em todas as Paróquias e Capelas dedicadas a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, continuemos, hoje, amanhã e sempre a vivência da devoção mariana e o crescimento na fé e na santidade. Doce Mãe Aparecida, bondosa portadora de Cristo, no cotidiano da história e no aprendizado da caridade, nós queremos vislumbrar o amor de Cristo e, de algum modo, Sua contínua presença em nosso meio.

Como um romeiro a mais, nossa Mãe e Senhora Aparecida, nós queremos lhe agradecer por sua contínua mediação e queremos reafirmar nossa disposição em continuar lançando nossas redes ao mundo, para que possamos aproximar da luz da fé os nossos contemporâneos que estão submersos no esquecimento do relativismo e do niilismo. Virgem Mãe e Senhora Aparecida, nós te amamos e, por isso, a cada novo dia de nossas vidas, continuaremos, em união contigo, doce Mãe, buscando sempre mais uma maior intimidade com Cristo, nosso Deus adorado e amado.

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-10-12T21:44:09-03:0012/10/2020|