A COMUNHÃO DOS SANTOS

Nesses dias da pandemia da Covid-19, dias de quarentena e de isolamento social, algumas vezes pensamos que estamos sozinhos, reduzidos a uma pequena parcela do nosso grupo familiar. Mas não podemos esquecer que, mesmo que estejamos isolados em nossos lares, nunca estamos sozinhos, pois existe uma comunhão de vida, uma comunicação de bens espirituais, entre todos aqueles que pertencem a Cristo e à Igreja e, por isso, essa noite escura que estamos atravessando é um tempo favorável ao aprofundamento da nossa fé e do estudo do Símbolo dos Apóstolos, o Creio, visando nossa perseverança na santidade, com a consciência de que “nenhum de nós vive para si mesmo; e nenhum de nós morre para si mesmo”. (Rm 14,7).

Por ser o sinal visível do Cristo invisível, a Igreja é também o sinal da comunhão, da intimidade e da familiaridade com Deus, que se prolonga numa comunhão fraterna com o nosso próximo. A Igreja é o imenso povo que Cristo reuniu e congregou por meio do anúncio do Evangelho e que adere a Ele pela adesão à fé, mediante a recepção do sacramento do Batismo. Vivemos a fé de modo individual e, acima de tudo, de modo comunitário, ou seja, precisamos da ajuda dos outros, especialmente nas tempestades da vida. Pelo exercício da fé, nós vivemos a unidade dos fiéis e, dessa maneira, “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele”. (1 Cor 12, 26). Agindo assim, vivemos a comunhão dos santos.

A comunhão dos santos é a doutrina que atravessa a história da Igreja, desde os primeiros séculos.  A comunhão dos santos é um verdadeiro tesouro espiritual que não se limita à dimensão da Igreja militante na qual nós estamos inseridos. Essa comunicação de graças e bens existe entre os fiéis que constituem a Igreja triunfante, padecente e militante. Por conseguinte, quando rezamos “creio na comunhão dos santos”, nós estamos professando que a Igreja, a Assembleia dos santos, é uma realidade que vai além do tempo e do espaço, e, por isso, a sua ação não é limitada por uma pandemia, pois a Igreja é constituída por todos os discípulos do Senhor. Uns peregrinam na terra, outros se purificam no purgatório, enquanto outros já contemplam o rosto misericordioso de Deus no Reino dos Céus. Em outras palavras: “Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, a saber: dos que peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda se purificam e dos que gozam da bem-aventurança do céu, formando todos juntos uma só Igreja. E cremos igualmente que nesta comunhão dispomos do amor misericordioso de Deus e dos seus Santos, que estão sempre atentos para ouvir nossas orações”. (Papa Paulo VI, Credo do Povo de Deus).

Pela comunhão dos santos, nós crescemos em unidade por meio do aprendizado da caridade, pela recepção dos sacramentos e pela fidelidade aos dons e carismas que cada um recebe do Espírito Santo. A comunhão dos santos é uma realidade dinâmica, consoladora e fecunda, imprescindível para a nossa santidade. A melhor maneira de vivermos a comunhão dos santos é pela recepção dos sacramentos. Mas, podemos e devemos contribuir para a comunhão dos santos pelo exercício das orações, sacrifícios e renúncias, obras de misericórdia, fuga das ocasiões de pecado e pela perseverança na vida sobrenatural da graça divina. Podemos, diariamente, rezar pelas almas que estão no purgatório, oferecendo orações e boas ações, a fim de que o quanto antes elas sejam levadas para o céu. Por outro lado, todo o bem que realizamos, todo o serviço que prestamos à Igreja e aos fiéis de todo o mundo e o nosso testemunho samaritano em prol dos necessitados e excluídos são expressões dos auxílios espirituais que alcançam a nós e os cristãos que estão em outros Estados do nosso país e em outros países a milhares de quilômetros de distância.  Desse modo, nos momentos de desânimo ou de cansaço, é sempre bom refletirmos o conselho de São Josemaria Escrivá que nos diz: “Um pensamento que te ajudará nos momentos difíceis: quanto mais aumentar a minha fidelidade, melhor contribuirei para que os outros cresçam nesta virtude. E é tão atraente sentirmo-nos sustentados uns pelos outros”. (Sulco nº 948).

Graças à nossa participação na comunhão dos santos, nós contamos com a intercessão da Virgem Maria, de São José e de todos os santos que já estão na presença de Deus na dimensão triunfante da Igreja. Eles nos auxiliam em nossa debilidade, intercedem por nós diante da Santíssima Trindade e nos incentivam a colocar o nosso olhar no Rumo Certo, na vida eterna e na comunhão definitiva com o Cristo, auxiliando-nos na fidelidade nas pequenas e grandes coisas, amparando-nos na missão de colocarmos os nossos dons a serviço de Deus, da Igreja e do nosso próximo.

Os santos são os nossos amigos do céu que demonstram que vale a pena ser fiel, vale a pena perseverar na fidelidade aos mandamentos e ensinamentos do Senhor, vale a pena testemunhar que somos marcados com o selo do Espírito Santo, que é o promotor da comunhão e da santidade na vida da Igreja.  Vale a pena bradar que “onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e todas as graças; porque o Espírito Santo é verdade” (Santo Irineu, Adversus haereses, III, 24).

Nessa noite escura desses nossos dias, nós estamos afastados, fisicamente, da celebração da Santa Missa, que é a oração por excelência da Igreja. Mas, não podemos esquecer que a Eucaristia continua sendo celebrada, cotidianamente, pelos sacerdotes nos diversos países e recantos do planeta, ou seja, a comunhão dos santos continua sendo edificada e revigorada pelo Sacrifício redentor de Jesus Cristo em prol de nossa salvação. Dessa maneira, “pela Comunhão dos Santos, todos os cristãos recebem as graças de cada Missa, quer se celebre perante milhares de pessoas ou tenha por único assistente um menino, talvez distraído”. (São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, nº 89). Mesmo tendo um único assistente sonolento, a Santa Missa continua unindo o céu e a terra, as dimensões visível e invisível da Igreja, expressando a Presença de Deus em nosso meio.

Claro é que as dificuldades e o medo podem enfraquecer nossa fé, mas, por outro lado, podem também nos levar a perceber que a comunhão dos santos é um dom precioso de quem acredita no amor e na misericórdia de Cristo e, por isso, hoje, nessa pandemia, nós somos convocados a reforçar os laços e os sinais da santidade que nos unem mediante o respeito e a observância das orientações da Organização Mundial da Saúde, pelo exercício das virtudes cardeais e teologais, pelo compromisso com a oração e o jejum e, de um modo especial, pela expressão da caridade em prol dos pobres e dos excluídos.

Eu creio que, nesses dias, a comunhão dos santos está em um nível mais elevado, pois as pessoas estão rezando, cada vez mais, clamando pela cura dessa doença que nos aflige. Estamos recorrendo, mais e melhor, a Deus, suplicando a Sua necessária ajuda e proteção. E, certamente, Ele está nos escutando e nos dará, no tempo oportuno, a graça solicitada. Mas, nesse momento, Ele nos solicita: Perseverem na pregação apostólica, alimentem-se do pão da Palavra, expressem a generosidade do serviço do amor e vivam a comunhão dos santos sem reservas.

Unidos ao Cristo que nos congrega na comunhão e na santidade da Igreja, vamos em frente com fé, determinação, coragem e fortaleza, participando e colaborando com a riqueza infinita da comunhão dos santos, expressando boas obras, orações e ações, a fim de que todos os cristãos permaneçam fiéis, combatendo o bom combate da fé com a consciência de que “aquele que deixa de lutar causa um mal à Igreja, à sua empresa sobrenatural, aos seus irmãos, a todas as almas. Faz exame: Não podes empregar mais vibração de amor a Deus, na tua luta espiritual? Eu rezo por ti e por todos. Faz tu o mesmo”. (São Josemaria Escrivá, Forja, nº 107).

Participemos, com generosidade, da comunhão dos santos e professemos a alegria de sabermos que não estamos sozinhos, pois somos acompanhados pelo Cristo, nossa bondosa Mãe, a Virgem Maria, São José, os santos e todos os irmãos que conosco alicerçam a comunicação de graças divinas entre todos os membros da Igreja. Maria, Mãe de Deus e da Igreja, rogai por nós, e amparai-nos na vivência cotidiana da comunhão dos santos.

Aloísio Parreiras

2020-05-06T18:37:42-03:0006/05/2020|