A COMUNHÃO ESPIRITUAL

Os desafios que estamos enfrentando nesses nossos dias exigem de nós, fiéis cristãos, uma adaptação à realidade atual e um maior empenho na vivência cotidiana da fé e da esperança, a fim de que o termômetro da nossa fé não sofra quedas, riscos ou diminuições.

Em função da obediência ao isolamento social, que nos é solicitado nesses tempos, estamos acompanhando a celebração da Santa Missa pela internet, pelas redes sociais e pela televisão, ou seja, não estamos presentes fisicamente em nossos templos no domingo, e nem nos dias da semana, para participarmos da Santa Missa. É sempre bom recordar que as celebrações eucarísticas não foram suspensas, ao contrário, foram intensificadas. Os sacerdotes continuam celebrando, cotidianamente, por todos nós e assegurando a comunhão sacramental no corpo de Cristo, atualizando a presença do nosso Redentor em nosso meio.

Em nossos momentos de oração, de meditação e de intimidade com o Senhor, nesse deserto pessoal dessa quarentena, no calor de nossos lares, devemos reforçar nossa pertença a Deus e à Igreja por meio da realização da comunhão espiritual. Esse deserto pessoal é um tempo oportuno para refletirmos nos ensinamentos de São Pio de Pietrelcina que nos diz: “Não te inquietes quando não puderes meditar, quando não puderes comungar e quando não puderes realizar todas as práticas devotas. Procure permanecer unido ao Nosso Senhor de maneira diferente, com uma disposição amorosa, com as orações, jaculatórias e com as comunhões espirituais”.

A comunhão espiritual não é uma novidade desses nossos dias. Esse exercício de comunhão sempre existiu na Igreja desde os primeiros séculos, pois, em função das perseguições à fé, dos inúmeros martírios, muitos cristãos realizavam comunhões espirituais. Vários santos, no decorrer dos séculos, fizeram uso e recomendaram esse exercício de fé eucarística. Entre eles, podemos citar: São Tomás de Aquino, São João Maria Vianney, Santo Afonso de Ligório, Santa Teresa de Lisieux e São João Paulo II.

Segundo a explicação de São Tomás de Aquino, “a realidade do sacramento pode ser obtida antes da recepção ritual do mesmo sacramento, somente pelo fato de se desejar recebê-lo”. (Suma Teológica, III). Ou seja, mesmo não recebendo o Corpo e o Sangue do Senhor sacramentalmente, nós podemos alcançar os mesmos méritos mediante a comunhão espiritual que, quando bem realizada, abrasa a nossa alma no amor de Cristo, une-se a Ele e se dispõe a receber e corresponder às graças sobrenaturais que Deus nos concede.

A comunhão espiritual, segundo Santo Afonso Maria de Ligório, “consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”. No aconchego desse abraço, permitimos que o Cristo faça morada em nossos corações, abrindo o nosso ser à Sua presença transformadora, restaurando nossa saúde espiritual, nossos bons propósitos de ideais de santidade, permitindo que o nosso Bom Pastor socorra e trate, com o azeite da misericórdia, as nossas feridas, tristezas, medos e decepções.

A comunhão espiritual é uma forma excelente de oração que está sempre ao nosso lado, pois não precisamos estar diante do sacrário da Igreja para rezá-la. Não precisamos nem mesmo estar no ambiente físico do templo da Igreja, pois essa oração pode e deve ser rezada em nossas casas, local de trabalho, estudo ou lazer. Se o nosso amor e a nossa fé forem intensos, árduos e apaixonados, poderemos alcançar com essa oração um grande proveito espiritual para a nossa santidade.

Por meio da comunhão espiritual, que pode ser realizada por palavras ou pensamentos interiores, nós podemos nos encontrar com Jesus Eucarístico, escutar os Seus ensinamentos, mantendo a chama dos nossos corações ardentes nas brasas da caridade, preparando, adequadamente, a nossa alma para a próxima comunhão sacramental.

A comunhão espiritual é um valiosíssimo meio de oração, pois, quando permitimos que o Cristo Eucarístico penetre em todos os cantos do nosso ser, reforçamos o nosso desejo de sermos um sacrário vivo de amor. Desse modo, para bem realizarmos a nossa comunhão espiritual, é preciso que professemos, com o coração em brasas, um ato de fé na Eucaristia, um ato de amor a Deus, expressando o nobre desejo de recebê-Lo, suplicando, ao mesmo tempo, que Ele venha espiritualmente ao nosso coração, permaneça conosco, realizando maravilhas em nossas almas e que, acima de tudo, nunca nos abandone ou nos deixe sozinhos no campo minado da desesperança ou da descrença.

Podemos afirmar que a comunhão espiritual é uma graça atual que Deus nos concede nas sendas da Sua bondade. Ao mesmo tempo, Ele nos conforta com a Sua infinita presença e misericórdia. A comunhão espiritual é uma preciosa oração eucarística que nos ajuda a compreender quão benéfica é a Sagrada Comunhão para a alma e, por isso, é sempre bom cultivar o desejo da plena união com Jesus mediante o exercício da comunhão espiritual.

A comunhão espiritual é um tesouro escondido que nós somos chamados a descobrir no cotidiano da fé e da santidade. É também uma pérola preciosa que enriquece nossa amizade eucarística com o Senhor. É uma oração fácil de se fazer e pode ser realizada muitas vezes no decorrer do dia. Como não exige o jejum eucarístico, nem muito tempo, pode ser rezada várias vezes e em diversos momentos. Quando adentramos o terreno fecundo da comunhão espiritual, aprendemos a afirmar juntos com a venerável Joana da Cruz: “Ó meu Deus, que bela maneira de comungar! Sem ser vista, nem notada, sem falar ao meu padre espiritual, e sem depender de nenhum outro senão de Vós, que, na solidão, me nutris a alma e Lhe falais ao coração! ”.

A comunhão espiritual pode ser feita de forma espontânea abrindo espaço para a ação do Espírito Santo em nossos corações. Mas existem também belas e tradicionais fórmulas de comunhões espirituais que foram escritas por vários santos. Gosto muito da comunhão espiritual que foi elaborada por Santo Afonso de Ligório. Rezemos juntos:  “Meu Jesus, eu creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-Vos sobre todas as coisas e minha alma suspira por Vós. Mas como não posso receber-Vos agora no Santíssimo Sacramento, vinde, ao menos espiritualmente, ao meu coração. Abraço-me convosco como se já estivésseis comigo: uno-me inteiramente a Vós. Ah! Não permitais, Senhor, que eu me separe de Vós! Ó, sumo bem e doce amor meu, inflamai o meu coração, a fim de que esteja abrasado em Vosso amor para sempre. Amém!” Ficai conosco, Senhor, aquecei a nossa esperança e fortalecei a nossa fé!

Aloísio Parreiras

2020-05-08T15:19:05-03:0008/05/2020|