A CRUZ DE CRISTO

O Cristianismo tem na Cruz o seu símbolo principal. Onde quer que o Evangelho tenha conquistado espaço e raízes, a Cruz se faz presente, indicando a presença dos cristãos. Nas Igrejas e nas casas, nos hospitais e nos tribunais, nas escolas e em tantos outros lugares, a Cruz tornou-se o sinal, por excelência, de uma cultura de vida que extrai do Evangelho de Cristo verdade e liberdade, confiança e esperança.

Na Cruz de Cristo está todo o amor de Deus, está a Sua infinita misericórdia, pois foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, entregou-Se a nós como Fonte de água viva.  A Cruz é o sinal do triunfo da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio; é sinal da árvore da vida, sinal de esperança; é sinal de fortaleza e encorajamento e, por isso, a Cruz é um estandarte de vitória.

São Paulo, em sua Carta aos Coríntios, nos ensina que a Cruz é “escândalo para os judeus, loucura para os gentios e sabedoria de Deus para os chamados, escolhidos e eleitos”. (1 Cor 1, 23). Só em Cristo, morto e ressuscitado, nós encontramos a salvação e a redenção. Com Ele, o mal, o sofrimento e a morte não têm a última palavra, porque Ele nos dá a esperança e a vida. Graças à Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, a Cruz deixou de ser um instrumento de derrota, de ódio e de morte, para ser um fecundo sinal de amor, de vida, de vitória e de triunfo.

A Cruz se faz presente em toda a história da salvação. Ela se encontra presente no Antigo Testamento em figura; presente no Novo Testamento como fato; e no tempo da Igreja, como sacramento ou mistério. Pelos relatos do Antigo Testamento, nós percebemos que, em inúmeras ocasiões, o Povo eleito de Deus se deparou com a Cruz. No Novo Testamento, Cristo revolucionou o sentido da Cruz e a transformou em instrumento de salvação. Como nos diz o Concílio de Trento: “Pela Sua santíssima Paixão no madeiro da Cruz, Ele mereceu-nos a justificação”. Nos Atos dos Apóstolos, nas primeiras comunidades cristãs, nos lugares de martírios, e no decorrer da História da Igreja, nós podemos perceber que, nas dificuldades, nas perseguições, nos encontros determinantes com a Cruz, os sinais da morte se transformaram em gestos de alegria por permitir, de algum modo, testemunhar a pertença a Cristo e à Igreja.

Desde o momento em que Cristo fez da Cruz o instrumento da salvação universal, a Cruz já não é sinônimo de maldição, mas, ao contrário, de bênção. Ao ser humano atormentado pela dúvida e pelo pecado, a Cruz revela que “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3, 16). Numa palavra, a Cruz é o símbolo supremo do amor, da entrega, da compaixão e da misericórdia.

Por meio da Cruz, nós percebemos que o caminho de Cristo para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão, um caminho de oblação que continua nos nossos dias. Por ser misericordioso, Ele continua caminhando e sofrendo em tantos rostos que padecem a indiferença anestesiante da nossa sociedade, uma sociedade marcada pela cultura da indiferença que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.

A Cruz pode se apresentar, em nossas vidas, sob a forma de uma doença, uma perda econômica, o sofrimento e a morte de um familiar, no desemprego ou em meio a uma pandemia. Nestas situações, temos que aprender a santificar as dificuldades, com a consciência de que a Cruz é sempre transformadora e sempre nos modifica. Nestes momentos, nós também não estamos sozinhos, pois Deus sempre nos manda novos Sireneus para abrandar o peso de nossa Cruz.

Quando somos tocados pela Cruz de Cristo, nós adentramos o terreno da fé. Quando nós tocamos a Cruz do Senhor, nós contemplamos os sinais da vida e da esperança. Deste modo, “ninguém pode tocar a Cruz de Jesus sem deixar algo de si mesmo nela e sem trazer algo da Cruz de Jesus para sua própria vida… O que vocês terão deixado na Cruz? E o que terá deixado a Cruz de Jesus em cada um de vocês? E, finalmente, o que esta Cruz ensina para a nossa vida? Olhem! Jesus, com a Sua Cruz, atravessa os nossos caminhos e carrega os nossos medos, os nossos problemas, os nossos sofrimentos, mesmo os mais profundos”. (Papa Francisco, Via-Sacra com os jovens na JMJ em 26 de julho de 2013).

Aos pés da Cruz de Cristo, nós encontramos a Virgem Santa Maria, perfeitamente unida ao Filho, sofrendo no coração todo o sofrimento físico de Jesus, compartilhando, de maneira singular, a profundidade do Seu amor e do Seu sacrifício. Ninguém melhor do que Ela para nos ensinar a amar e santificar a Cruz. Confiamos à Virgem das Dores as nações, o nosso mundo, toda a humanidade e o nosso pedido de cura do coronavírus. De um modo especial, nós a invocamos em favor dos médicos, dos profissionais de saúde, dos doentes, das vítimas inocentes da violência e das injustiças, dos cristãos perseguidos por causa da fé.

Mãe amada, que a Cruz de Cristo seja sempre para nós penhor de esperança, de resgate e de paz. Ajudai-nos a ter coragem e a carregar as nossas cruzes de braços abertos, com a consciência de que o Cristo que vence a morte, o mal e as trevas, está conosco concedendo-nos fortaleza, paz, serenidade e vida.

Mãe amada, “esta árvore é para mim salvação eterna. Dela me nutro, dela me apascento. Por suas raízes mergulho minhas raízes, por seus ramos me expando, com o seu orvalho me inebrio. Por seu Espírito, sua aura deliciosa, sou fecundado. Esta árvore é o alimento da minha fome, manancial da minha sede, manto da minha nudez! ”. (Antiga Homilia Pascal, nº 51).

Aloísio Parreiras
2020-03-27T10:15:04-03:0027/03/2020|