A EUCARISTIA NAS SAGRADAS ESCRITURAS

Há uma estreita relação entre a Sagrada Escritura e a Eucaristia. Pela virtude da fé, somos chamados a reconhecer que as Sagradas Escrituras, ao desvendarem aos nossos olhos a História da Salvação, desvendam também a construção do sacramento da Eucaristia, pois a Eucaristia está inserida na História da Salvação. “A Eucaristia é paralela à História da Salvação: toda a História da Salvação está presente na Eucaristia; e a Eucaristia está presente em toda a História da Salvação. Na Eucaristia se espelha o arco inteiro da História da Salvação”. (Fr. Raniero Cantalamessa).

Nesse contexto, “toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para persuadir, para corrigir e formar na justiça”. (2Tm 3,16). Tendo como ponto de apoio a Sagrada Escritura, devemos notar que a Palavra de Deus nos ensina como participar retamente da Eucaristia; persuade-nos a viver em comunhão com o próximo; corrige-nos nos possíveis erros e forma-nos na concretização da santidade.

Desde o Antigo Testamento, devemos reconhecer que a Eucaristia foi prefigurada por Deus em inúmeros momentos, inicialmente no sacrifício de Melquisedec (Gn 14,18). Posteriormente, no cordeiro pascal (Ex 12. 3-11) e no maná (Ex 16, 11-21). Ancorados nessas passagens, percebemos que a Eucaristia é sacrifício e é, também, alimento. Essas duas realidades da Eucaristia foram confirmadas na Quinta e Sexta-feira santas quando o próprio Cristo instituiu a Eucaristia e sofreu Sua Paixão dolorosa.

No Novo Testamento, Cristo preparou a instituição da Eucaristia com total esmero e dedicação. Em diversos gestos, Ele esculpiu a Eucaristia. Esse sacramento, obra de arte do amor incondicional de Jesus Cristo, foi sendo traçado e, aos poucos, se tornando uma realidade, quando nosso Redentor  multiplicou os pães e os peixes (Mt 14, 13-21 e Mt 15, 32-39); fez um célebre discurso na Sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,22-58); lavou os pés de seus apóstolos, na cerimônia do lava-pés (Jo 13, 1-20); e, sobretudo, quando Ele   realizou  a Última Ceia, na presença de Seus apóstolos (Lc 22, 7-20).

Após Sua ressurreição, Cristo se manifestou aos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) e lhes explicou as Escrituras. Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam “que se lhes abrasavam os corações”. (Lc 24,32). Assim continua a ser ainda hoje para todo aquele que medita a Palavra de Deus, pois, por meio da leitura orante das Escrituras, notamos a veracidade da afirmação de São Jerônimo, que nos ensina: “A ignorância das Escrituras é ignorância do próprio Cristo”. Parafraseando-o, podemos afirmar que desconhecer as Escrituras é não reconhecer o valor sagrado da Eucaristia; afinal, “a Eucaristia é luz, antes de mais nada, porque, em cada Missa, a Liturgia da Palavra precede a Liturgia Eucarística, na unidade das duas mesas – a da Palavra e a do Pão”. (Papa João Paulo II, Mane Nobiscum Domine, 12).

Se formos dóceis, o Espírito Santo nos mostrará que a Liturgia da Palavra na Santa Missa pode ser uma fecunda fonte de contemplação eucarística; por isso, “a palavra de Deus deve ser bem lida, em voz alta, e depois ser bem interpretada e explicada (…). Temos de voltar a aprender que a Bíblia diz alguma coisa a cada um e que é oferecida precisamente aos simples”. (Cardeal Joseph Ratzinger, “O Sal da Terra”). Devemos também aprender que “a Liturgia da Palavra ilumina a Eucaristia, ajuda a penetrar nas profundidades inexauríveis do mistério que é celebrado”. (Fr. Raniero Cantalamessa).

Que imensos panoramas se abrem à nossa contemplação quando, por meio da leitura orante das Escrituras, abrimos nossos corações a essas palavras: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” (Mc 14, 33). “Olharão para aquele que traspassaram!” (Jo 19, 37). “Meus olhos viram tua salvação, que preparaste em face de todos os povos!” (Lc 2,30-31). “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim!” (Jo 13,1). A escuta da Palavra nos conduz à meditação silenciosa, ao ardor missionário e à adoração pessoal ao Sublime Sacramento. A escuta da Palavra nos propicia uma maior intimidade com as Palavras e os gestos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Sabemos que “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar, toma da mesa tanto da palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo, o Pão da vida, e o distribui aos fiéis. Sempre as teve e tem, juntamente com a Tradição, como suprema regra de sua fé”. (Dei Verbum, 21).

É pelos relatos dos Evangelhos que temos conhecimento de que Jesus Cristo sempre quer fazer refeição conosco, pois Ele sempre demostrou um grande apreço pelo ato de se sentar à mesa. Ele sentou-se à mesa com Mateus (Mt 9, 10-13), com Zaqueu (Lc 19, 1-10), com Simão (Lc 7, 36-43) e com os discípulos de Emaús (Lc 24, 28-32). Hoje, do mesmo modo, Cristo quer se sentar à mesa conosco. Ele prepara a Ceia com os devidos cuidados e com todos os detalhes. Em tudo, Ele prepara a nossa acolhida. Com ardor no coração, a cada novo dia, redescubramos a maravilha de estarmos diante da Mesa Eucarística e agradeçamos a graça de podermos dar pousada a Cristo em nossas almas. Diante da Mesa Eucarística, devemos bradar que “é a Palavra de Deus que congrega as pessoas e cria comunidade”. (Cardeal Joseph Ratzinger, “Compreender a Igreja hoje”).

Todo ser eucarístico “prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura, exorta com bondade e doutrina”. (2 Tim 4,2). Todo ser eucarístico tem a convicção de que, na Santa Missa, a profecia de Amós se cumpre: “Eis que vêm os dias em que enviarei uma fome sobre a terra, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a Palavra de Deus!” (Am 8,11). A cada celebração do mistério da Santa Missa, essa fome e sede de ouvir a Palavra de Deus são saciadas de um modo novo e pleno.

Concluindo, podemos afirmar que na leitura orante das Sagradas Escrituras, “o sentido mais profundo da história encontra-se para além da história e tem a sua plena explicação em Cristo, Deus-Homem. A humanidade é chamada a prosseguir para além das fronteiras da morte, na verdade para além da própria sucessão dos séculos, até o abrigo definitivo da eternidade, junto de Cristo glorioso na comunhão trinitária”. (Papa João Paulo II, “Memória e Identidade”). Somente em união com o Cristo Eucarístico é que podemos professar que “cremos em tudo o que disse o Filho de Deus; nada mais verdadeiro que esta Palavra de verdade!”. Eucaristia e Sagradas Escrituras. Sagradas Escrituras e Eucaristia. Duas realidades que se complementam e nos robustecem. A Sagrada Escritura é lâmpada para os nossos pés e a Eucaristia é a luz que resplandece no céu da História, iluminando o nosso caminho na fé e na santidade.

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-09-24T11:31:29-03:0024/09/2020|