A SUSTENTABILIDADE HUMANA

Nas últimas décadas do século XX e nesses primeiros anos do século XXI, o ser humano tem se preocupado sempre mais com a ecologia e a defesa do Planeta Terra e, por isso, expressões como desenvolvimento sustentável, conversão ecológica e casa comum fazem parte do dia a dia de muitos noticiários e das nossas conversas com as pessoas próximas, evidenciando a consciência de que, por meio do desenvolvimento sustentável, o homem deve satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas necessidades básicas, pois, como sabemos, “a perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação, mas também para a cura de doenças e vários serviços. As diferentes espécies contêm genes que podem ser recursos-chaves para resolver, no futuro, alguma necessidade humana ou regular algum problema ambiental”. (Papa Francisco, Encíclica Laudato Si, nº 32).

Hoje, com a plena certeza de que tudo está interligado na natureza, nós queremos muito mais do que um mero desenvolvimento sustentável. Queremos, em primeiro lugar, alcançar o ideal da sustentabilidade humana, um processo contínuo que implica o bem-estar humano e espiritual. É muito mais do que o bom êxito do desenvolvimento econômico e social e só pode ser alcançado quando o homem passa a ser mais importante do que os bens materiais, as posses e o dinheiro.  Podemos afirmar que a sustentabilidade humana possui quatro alicerces: a correspondência ao amor de Deus, a participação na vida da graça, o serviço missionário da misericórdia e a prática das atitudes samaritanas de ver, sentir compaixão e cuidar.

Neste sentido, o caminho da conquista da sustentabilidade humana é também um itinerário de fé, de justiça e de reconciliação: requer sabedoria, sagacidade, humildade, perseverança e paciência, mas, sobretudo, requer fundamentar-se na rocha firme da fé, de pôr as asas da esperança e se deixar levar pela força da caridade.

Deste modo, não haverá verdadeira sustentabilidade humana se não forem curadas as raízes dos conflitos e dos desentendimentos com o nosso próximo, se os nossos corações não forem regenerados. Essa regeneração passa, necessariamente, pela participação no Sacramento da Confissão, pois somente quando temos certeza do perdão de Deus, obtemos as condições para perdoar e acolher a quem nos ofendeu.

A sustentabilidade humana implica o exercício contínuo da caridade, do acolhimento, da correção fraterna e da justiça. Todo ser humano que busca a sua sustentabilidade em termos humanos concretiza ao mesmo tempo as condições necessárias para a sustentabilidade do seu próximo. É um ser social que pertence a uma comunidade, exercita o serviço desinteressado e é feliz simplesmente por ver o próximo feliz e realizado. É uma pessoa que consegue superar os apelos do individualismo e do indiferentismo, pois vive a vida de forma plena, por meio da perseverança na vida da graça, e tem ideais claros para alcançar os seus contemporâneos que ainda não deslumbraram o caminho fecundo da paz e da felicidade.

A sustentabilidade humana não é uma utopia, uma quimera, uma realidade desconectada da vida concreta ou um sonho irrealizável. É, sim, um ousado projeto de vida que pode e é alcançado pelos discípulos missionários de Jesus que creem e professam que há um vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e nossa atuação como membros de um corpo social. A sustentabilidade humana – sustentada pela fé e pela esperança – é a consequência, a atitude exterior e interior daqueles que fundamentam a própria vida em Deus, nos Sacramentos, na Sua Palavra e na confiança plena no Altíssimo.

Insisto; a sustentabilidade humana é possível. Para alcançarmos esse ideal, nós temos que redescobrir a beleza das bem-aventuranças, das Sagradas Escrituras e dos Mandamentos. Nesse serviço da fé, todos nós, batizados, somos convocados a manifestar nossa pertença a Deus e à Igreja com renovado entusiasmo. Agindo assim, naturalmente, estaremos contribuindo para a melhoria da estabilidade humana que permanece em nossas vidas como um meio para um fim, um instrumento de conversão e de evangelização. Movidos por esse ideal, abraçamos as necessidades e o bem do próximo e cantamos, com convicção, o refrão de uma bela música: “Chegou um novo tempo de se doar à messe. Ser povo forte, acolhedor. Fazer discípulos do Amor. Nossa esperança é Cristo, Homem do novo homem. Vida gerando salvação, a nova civilização”.

A sustentabilidade humana é alcançada quando percebemos que, de alguma forma, estamos contribuindo para a expansão da fé e para o conhecimento do único e autêntico Deus. Agindo assim, estamos preservando para as gerações futuras o precioso depósito da fé, pois não basta preservar o Planeta Terra, é preciso muito mais. É preciso apresentar às novas gerações o fator determinante da nossa esperança e das benéficas transformações. Esse fator determinante tem nome: Jesus Cristo, nosso Deus adorado e amado, a Pessoa que abrasa o nosso coração com a Sua presença renovadora. Em Cristo e por Cristo, aprendemos a respeitar a natureza, o meio ambiente, o nosso próximo e, acima de tudo, o ser humano em sua integralidade. Em Cristo e por Cristo, nós aprendemos a superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, indiferentes, agressivos e consumistas desenfreados.

Em união com Jesus Cristo, nós estamos em pleno equilíbrio com nós mesmos e com os nossos semelhantes. Junto d’Ele, nós percorremos a caminhada da nossa história, neste misterioso universo da fé, para sermos mais capazes de servir, de rezar, de sermos testemunhas da Verdade, que é bela, que é decisiva, pois é o amor sem reservas que constrói o futuro mediante o exercício zeloso da fé, tesouro precioso que nem a traça e nem a ferrugem são capazes de destruir.

Em sintonia com o Cristo, nós percebemos que “ é necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente”. (Papa Francisco, Encíclica Laudato Si, nº 229).

Que Deus, nosso Senhor, nos ensine a cuidar da natureza e dos seres humanos, principalmente pelo exercício fecundo da caridade e pelo testemunho da fé, motivando-nos sempre a trabalhar, com generosidade e ternura, para proteger este mundo que Ele nos confiou, preservando o meio ambiente e, acima de tudo, o tesouro incalculável da fé para as futuras gerações.

Aloísio Parreiras

2020-07-06T11:34:52-03:0006/07/2020|