A TEOLOGIA DA ESPERANÇA EM MEIO ÀS TEMPESTADES

Nos tsunamis, nos maremotos, nos terremotos, nas avalanches, nos furacões, nos desabamentos das casas nas encostas dos morros e em tantas outras catástrofes, muitas vezes nós somos surpreendidos com o resgate de algumas pessoas que estavam sepultadas sob os escombros de uma casa ou, até mesmo, de um edifício. Desde o primeiro momento da catástrofe, sem perder a esperança, essas pessoas travaram uma luta contra a ideia de que a batalha já está perdida e, amparadas por Deus, elas venceram a fome, a sede e o cansaço, mesmo sem as necessárias forças, despertando a atenção das equipes de resgate e dos bombeiros com um grito sufocante, um gemido, um pedido de socorro.

Nestes dias de pandemia, em que ouvimos falar que as pessoas maiores de 60 anos são os mais vulneráveis ao Covid- 19, é motivo de esperança o comunicado de que algumas pessoas de 70, 80, 90, e até mesmo de 101 anos, venceram o novo coronavírus e voltaram ao seio de suas famílias. Com o exemplo dessas pessoas, nós aprendemos que Cristo é o Deus de amor, de benevolência e de misericórdia, que suscita em nosso ser a certeza de que, mesmo quando tudo parece estar perdido, sempre há uma solução, sempre há uma esperança.

Por ser uma virtude teologal que Deus infundiu em nossas almas, a esperança não nos aliena das realidades temporais. Não abandonamos nossas tarefas, nossos esforços e nossa dedicação ao trabalho e ao nosso próximo com a falsa ideia de que Deus fará o que devemos e podemos fazer. Em termos humanos, o nascimento de um filho, a compra de um imóvel, a conclusão de um curso superior e a aprovação em um concurso público são fatos que contribuem para o incremento da nossa esperança. Mas, por outro lado, a virtude da esperança gera em nós uma maior perspectiva de futuro e não apenas um futuro regado com a fartura dos bens materiais e com a posse do poder e das riquezas, mas sim um futuro pleno e decisivo, no qual, após a constante luta contra nossas fraquezas e limitações, nós seremos herdeiros do céu.

Nossa esperança, portanto, está edificada no amor do Pai e na participação dos mistérios pascais de Cristo, que nos faz passar da desesperança para a esperança, da morte para a vida, da tristeza para a alegria. É com esperança que estamos acompanhando as notícias de que os cientistas e médicos dos cinco continentes estão trabalhando na cura do Covid-19, pois acreditamos que Deus continua fazendo milagres, sobretudo quando Ele percebe em nós o ardor da fé e da caridade.

Toda e qualquer forma de esperança não pode ser unicamente uma manifestação de melhoria e progresso voltados apenas para nós mesmos, pois “a esperança que se dirige a Deus não é nunca esperança só para nós; é sempre, ao mesmo tempo, esperança para os outros: não nos abandona, mas nos torna solidários no bem, estimula-nos a educar-nos reciprocamente na verdade e no amor”. (Carta do Papa Bento XVI sobre a tarefa urgente da educação, em janeiro de 2008). Na prática do amor, diante das investidas das obras das trevas, renovamos nossa esperança de que todos os seres humanos possam encontrar a verdade e vivenciá-la como uma fonte inesgotável de vida.

Como arautos da esperança, nós temos que bradar que esse mundo tem jeito, pois a violência, o ódio e as guerras não prevalecerão jamais sobre a harmonia, a justiça, o amor e a paz. Temos que testemunhar às jovens gerações que a virtude da esperança é um notável instrumento de educação nos valores humanos e cristãos. Como arautos da esperança, nós temos que professar, principalmente nestes nossos dias, que “toda crise é um perigo, mas também é uma oportunidade. É a oportunidade de sair do perigo”. (Papa Francisco, Laudato Si, nº 191). Claro é que, neste panorama atual do mundo, no interior de nossas casas, nós estamos percebendo que carregamos coisas em excesso e, por descuido ou acomodação, abrimos mão do essencial, valorizando aquilo que é acidental, ou seja, estamos correndo muito, mas muitas vezes fora do único Caminho que nos conduz à vida plena. Neste cenário, retornar ao caminho da esperança é imprescindível.

Hoje, aqui e agora, sobretudo nos momentos em que o medo parece prevalecer, nós precisamos vivenciar uma confiança sem reservas em Deus, para tornar mais viva e sólida a nossa esperança, e, por isso, necessitamos repetir inúmeras vezes a nós mesmos e ao nosso próximo: “Que o Deus da esperança vos encha da alegria e da paz em vossa vida de fé! ”. (Rm 15,13).  O repetir dessa petição não é um simples exagero, pois, no dia a dia, infelizmente, nós ainda encontramos várias pessoas que nos dizem: “Se desvaneceu nossa esperança, tudo se acabou para nós”. (Ez 37,11).

Por amor ao Senhor Jesus, nós temos que reconduzir essas pessoas até Ele, para que elas possam perceber que “o mundo passa, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece para sempre!” (1 Jo 2,17).  Por amor ao Senhor, temos que ajudar essas pessoas a ouvir a voz do Cristo que lhes diz: “Lázaro, vem para fora! ” (Jo 11, 43). Quando nós rompemos com a surdez provocada pela desesperança, manifestam-se a todos nós os sinais da ressurreição, da vida e do amor, mantendo viva em nossas almas a chama da esperança em meio aos temporais e às adversidades, às pandemias e suas noites escuras.

O simples fato de sermos amados por Deus deve encher-nos de esperança, pois esta é uma das chaves essenciais que nos abre o Reino dos céus. A esperança é uma necessária âncora em que devemos nos apoiar para superarmos as crises, os medos e as inseguranças que nos afligem. Saibamos cultivar o bom propósito de vivenciar a esperança no tempo oportuno e no inoportuno. “Propósito sincero: ter sempre fé em Deus; ter sempre esperança em Deus; amar sempre a Deus que nunca nos abandona, ainda que estejamos podres como Lázaro”. (São Josemaría Escrivá, Forja nº 211).

Em vós, nosso Deus e Senhor, Fonte de caridade e de misericórdia, nós colocamos toda a nossa esperança! A vós, Senhor, levantamos nossos olhos para além das nuvens! Em vós, nós confiamos, Deus infinito! Indicai-nos o caminho para o bem, para a justiça e para a paz! Conduzi-nos, Senhor, em direção à aurora de um novo mundo onde o sol da solidariedade jamais se ponha. Amparados pela virtude da esperança, estamos esperando o dia feliz em que voltaremos a ocupar os ambientes sociais sem medo. Senhor, na espera feliz desse novo dia, alimentamos a nossa fé, cantando com renovada emoção: “Deus é o nosso refúgio e nossa força. Mostrou-se nosso amparo nas tribulações. Por isso a terra pode até tremer; não tememos nada, está conosco o Senhor dos Exércitos! ”.

 

Aloísio Parreiras

2020-04-13T16:38:30-03:0013/04/2020|