A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

A Festa da Transfiguração do Senhor é celebrada no mundo cristão desde o século V. O significado dessa Festa é, e sempre será, o mesmo que Cristo pretendeu, naquele tempo, ao se transfigurar para os Apóstolos, ou seja, preparar os fiéis cristãos para que, em qualquer circunstância, mesmo em meio às dificuldades e perseguições, permaneçam firmes na fé em Deus e na Igreja.

Segundo os Evangelhos Sinóticos, nos dias próximos de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, Cristo convidou três de Seus Apóstolos, Pedro, Tiago e João, e com eles subiu ao Monte Tabor. Enquanto rezava, Ele se transfigurou e se mostrou glorioso, tendo diante d’Ele Moisés e Elias, que representavam a Lei e os Profetas.

A intenção de nosso Senhor Jesus Cristo era a de fortalecer a fé dos três Apóstolos, a fim de que eles pudessem suportar as provações que seriam vivenciadas no desenvolvimento da Sua Paixão, antecipando-lhes o esplendor e a glória da vida eterna. A Transfiguração foi para os Apóstolos um suporte para a fé, uma ajuda gradual diante do mistério de Jesus até a Páscoa. Essa manifestação de glória foi, de alguma forma, um bálsamo de paz, amor e proteção para que os discípulos vislumbrassem, com mais clareza, o projeto salvífico de Cristo.

O evento da Transfiguração do Senhor é uma epifania, uma teofonia, onde se manifesta a vida divina de Cristo e a presença das três Pessoas da Santíssima Trindade. A voz do Pai declarou Jesus como seu Filho amado; o Filho estava brilhando de luz, símbolo da Sua descida divina, e o Espírito Santo envolveu os Apóstolos à sombra da nuvem, tornando-se o portador da voz que testemunha a identidade de Jesus Cristo.

No evento da Transfiguração do Senhor no Monte Tabor, Deus deixou claro que Cristo, Homem e Deus verdadeiro, é de fato o Messias prometido, o Emanuel que foi enviado para nos resgatar e salvar. Assim como no dia do batismo de Cristo no rio Jordão, a voz de Deus atestou a divindade de nosso Redentor, afirmando: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que Ele diz”. (Mc 9, 7).

No Monte Tabor, Moisés e Elias representavam a Antiga Aliança, e Pedro e os dois filhos de Zedebeu representavam a Nova Aliança, ou seja, todos aqueles que aderem ao amor de Deus por meio de Cristo. Por conseguinte, no Monte Tabor, Cristo concedeu aos Apóstolos uma parada necessária, a permanência, mesmo que rápida, na estação da contemplação, visando sempre um algo a mais para os momentos de dificuldades.

A Transfiguração é um mistério de luz que nos convida a fixar o nosso olhar no Senhor Jesus, pois em Seu rosto transfigurado brilha um raio de luz da divina misericórdia e, por isso, pode ser considerado um prenúncio da ressureição de Cristo, uma antecipação do mistério pascal.

Na Transfiguração, Cristo se mostrou luminoso, claro, resplandecente, e os Apóstolos conseguiram contemplar N’Ele o rosto divino do Homem e o rosto humano de Deus. Em outras palavras:  “O rosto de Cristo é um rosto de luz que rasga a obscuridade da morte: é anúncio e penhor da nossa glória, porque é o rosto do Crucificado Ressuscitado, o único Redentor da humanidade, que continua a resplandecer sobre nós”. (Papa João Paulo II, Homilia em 6 de agosto de 2002).

A Transfiguração é um lampejo de luz do Reino dos Céus e, por isso, nós podemos sentir a essência de Deus, a atmosfera do céu e a claridade do amor que nos convidam a olhar para o rosto do Filho de Deus, a fim de sermos por Ele iluminados. Desse modo, a Transfiguração pode ser comparada a uma janela aberta para o céu, uma porta de acesso para a visão da divindade de Jesus.

Anos depois, ao se recordar do evento da Transfiguração, São Pedro afirmou: “Fomos testemunhas oculares da Sua majestade”. (2 Pd 1, 16). Esse testemunho de Pedro é para nós um desafio, um convite, a fim de que possamos mergulhar nos mistérios de Deus com a plena consciência de que, mesmo em meio às pandemias e às tempestades da História, se faz presente em nosso meio o brilho da glória de Deus que não podemos jamais perder de vista.

O evento da Transfiguração do Senhor é uma lição de fé que expressa a certeza da presença de Deus junto a nós. É também uma lição de esperança que evidencia que após a Sexta-Feira da Paixão sempre há um domingo da ressurreição, ou seja, a tristeza, a depressão, as dificuldades e o sofrimento podem ser transfigurados em Cristo para que possamos ressurgir iluminados e transformados.

A Transfiguração é ainda uma antecipação do que seremos quando formos glorificados na ressurreição, o que seremos quando Jesus transformar nosso corpo mortal e torná-lo semelhante ao Seu Corpo glorioso. Quando adquirimos a noção de que é muito bom permanecer na presença do Senhor, nós passamos horas, sublimes momentos adorando a Cristo em espírito e verdade. Agindo assim, professamos que é um privilégio poder viver em estado de graça, bradando: “Senhor, como é bom estarmos aqui!”. (Mt 17,3).

A atmosfera da Transfiguração do Senhor contém o ar límpido da graça divina que nos ajuda a purificar o ar envenenado deste mundo e, por isso, a Transfiguração é, de algum modo, o espaço aberto por Deus em nossos corações para facilitar a visão do Paraíso. É também a porta aberta da fé, para que possamos vislumbrar dentro da trama incerta e confusa da história uma nova história, uma Nova Aliança, uma nova alvorada que toca, aquece e renova o nosso compromisso com Deus e a Igreja.

Aloísio Parreiras

2020-08-06T11:51:10-03:0006/08/2020|