A ÚLTIMA CEIA DE JESUS

Nesta Quinta-Feira Santa, o próprio Cristo nos convida a participar da Última Ceia, expressando o alcance infinito do Seu amor. Ele nos diz: “Desejei ardentemente comer essa Páscoa convosco! ” (Lc 22, 15). Quando aceitamos o convite de Jesus e nos sentamos à Mesa, nós percebemos que esse banquete é uma despedida, pois a Sua morte iminente já está bem próxima.

Os detalhes da toalha de mesa, o pão, o vinho da uva e os cuidados com a refeição são sinais que, de algum modo, expressam que estamos diante de um dia significativo para a nossa fé, estamos vivenciando um evento que não se limita ao tempo. Ao contrário, nós estamos diante de um evento que extravasa a Quinta-Feira Santa, antecipando, de forma incruenta, o sacrifício cruento que Cristo operou em prol de nossa salvação na Sexta-Feira Santa.

Sentamo-nos à Mesa imaginando que estamos celebrando a Páscoa judaica, ou seja, a libertação do povo de Israel do Egito. Mas o cenário temporal e emocional deste banquete nos faz perceber que estamos celebrando uma nova Páscoa, a Páscoa definitiva. Estamos em família, pois os irmãos que se unem pela fé constituem uma família, a Igreja de Deus.  Aos poucos, nós vamos percebendo que, graças ao Senhor Jesus, a libertação experimentada no passado e esperada de novo no presente e para o futuro está diante de nossos olhos, anunciando uma nova aurora.

Nesta Ceia memorável, ao lado de Cristo, nós sentimos as ternuras lacerantes do adeus e notamos que todas as Suas palavras expressam carinho e docilidade, atenção e cuidado, caridade e esperança. Em um certo momento, o Cristo nos disse: “Dou-Vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei! ”. (Jo 13, 34). Para exemplificar as Suas palavras e para que não permaneçam dúvidas sobre o alcance do amor, Cristo lava os nossos pés, testemunhando que o amor é serviço operativo, é a generosidade da caridade que se expressa, de maneira particular, na atenção aos pobres e aos excluídos. Ao lavar os nossos pés, Ele nos disse: “Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-Vos o exemplo para que façais a mesma coisa que Eu fiz! ” (Jo 13, 14-15). Com este gesto de serviço, o Cristo nos ensina que, sustentados pelo Mandamento do Amor, devemos anunciar a alegria do Evangelho, preocupando-nos sempre em acompanhar a nossa ação e nossas palavras com o testemunho da caridade. Neste momento, nós entendemos que “a Eucaristia é o Sacramento do Amor, significa amor, produz amor”. (São Tomás de Aquino).

Aos poucos, essa Sagrada Ceia vai revelando o seu imenso alcance e, por isso, nos questionamos: qual é o núcleo desta Ceia? Com esmerada atenção, vamos acompanhando os gestos da fração do Pão, a sua distribuição entre nós e a partilha do cálice de vinho, com as palavras que os acompanham e o contexto da oração. Diante de nós, “o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graça, partiu-o e disse: ‘Isto é o Meu Corpo que é dado por Vós. Fazei isto em memória de Mim’. Do mesmo modo, depois da Ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em Meu Sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em Minha memória! ” (1 Cor 11, 23-25).

Ao contemplar os gestos e as palavras de Jesus, uma certeza paira em nossos corações: estamos presenciando a instituição da Eucaristia, o Sacramento dos sacramentos, o Manancial de todas as graças. Estamos acompanhando a grande oração de Cristo e da Igreja. Deste modo, nós percebemos que o Cristo está oferecendo antecipadamente a vida que lhe será tirada. Agindo assim, instituindo a Eucaristia, Ele transforma a Sua morte violenta num gesto livre de entrega de Si mesmo por todos nós. Ele transformou a violência, que Ele padeceu, em um sacrifício eterno, livre, concreto, decisivo e redentor. Ali, naquela Última Ceia, nós participamos não apenas de uma refeição fraterna, mas de uma Liturgia, de uma ação de graças, de um verdadeiro culto de adoração ao Pai em espírito e verdade.

Esta Última Ceia, esta Nova Aliança, é singular e, por isso, é totalmente diferente de outros banquetes. É a Sagrada Ceia onde o Cristo nos oferece algo de totalmente novo, santo, perfeito e imaculado: Ele mesmo. Desta maneira, Ele celebra a Sua Páscoa, antecipando a Sua Cruz e a Ressurreição. Graças ao dom da Eucaristia, graças à presença viva de Jesus na Eucaristia, hoje nós temos conhecimento de que “o martírio nada é, em comparação com a Missa, porque o martírio é o sacrifício do homem a Deus, mas a Missa é o Sacrifício de Deus pelo homem”. (Santo Cura D’ars).

Nesta Última Ceia, o caminho do Servo sofredor, anunciado por Isaías, é antecipado na oferenda do Pão e do Vinho e, por isso, ali, o Cristo nos ensinou que a Eucaristia é o Alimento dos peregrinos e se torna força e esperança para todos aqueles que se sentem cansados, prostrados, desorientados e confusos.

Neste dia memorável, o Cristo institui para nós dois preciosos sacramentos: a Eucaristia e o Sacerdócio. E assim, Ele evidencia que não existe Eucaristia sem sacerdócio, do mesmo modo que não há sacerdócio sem Eucaristia. Ali, naquela Sagrada Comunhão, Ele reforça o Seu pedido para que participemos sempre mais da Eucaristia e vivamos de modo extraordinário a oração que Ele recitou e continua recitando por todos nós, a fim de que o mal, que todos nós encontramos na vida, não prevaleça, e para que em nós exista sempre a força transformadora da Sua morte e ressurreição. Não percamos mais tempo, pois Ele, o próprio Jesus Eucarístico, quer permanecer conosco na Fração do Pão, aquecendo a nossa esperança, renovando a nossa fé.

Senhor Jesus, na Eucaristia, ficai conosco! Nós precisamos nos alimentar do Vosso Corpo e Sangue, necessitamos nos unir à Vossa prece nesta noite suprema e inesquecível, a fim de que a nossa vida não se perca em meio às nossas debilidades e infidelidades. Senhor, nós cremos e professamos que, por meio da Eucaristia, a nossa vida é renovada, transformada, cristificada. Senhor, com renovada emoção, nós queremos agora Vos dizer: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.  Peço-Vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam”.

Aloísio Parreiras

2020-04-09T12:05:29-03:0009/04/2020|