A VIDA E A MORTE

Nesta noite escura, nesta tempestade que estamos atravessando, muitas pessoas temem a morte, pois a consideram como um fim, a pior coisa que pode acontecer ao ser humano. E por não crerem numa vida eterna, muitos vivem como se a nossa existência terminasse definitivamente entre as quatro paredes de um caixão. “Diante da morte, o enigma da condição humana atinge seu ponto alto. O homem não se aflige somente com a dor e a progressiva dissolução do corpo, mas também, e muito mais, com o temor da destruição perpétua.” (Gaudium et spes nº 250).

A morte é uma realidade que todos teremos que atravessar, seja de forma repentina e inesperada ou após um longo período de sofrimento. Diante da realidade da morte todos nós podemos afirmar: “Estou certo de que daqui a pouco terei de sair desta minha tenda”. (2 Pd 1,14). Nestes nossos dias, nunca se falou tanto da morte. Isso porque instalou-se, de uma hora para outra, a pandemia do novo coronavírus. Deste modo, diariamente, a morte que era pouco contabilizada, e sequer divulgada, se tornou um boletim público, pois todos os dias a imprensa divulga o número de mortos, seja na nossa cidade, no estado, no Brasil e no mundo.

Neste contexto, a morte passou a ser discussão coletiva onde os fiéis cristãos também são chamados a participar, anunciando: “Não faça da morte uma tragédia, porque não o é. Só aos filhos desamorados é que não entusiasma o encontro com seus pais.” (São Josemaría Escrivá). Nós, cristãos, “sabemos que, se a tenda terrestre em que vivemos se desfaz, recebemos de Deus a hospedagem de uma eterna moradia no céu, não construída por mãos humanas.” (1 Cor 5,1-2). Somos membros da Igreja militante e estamos no mundo de passagem, peregrinando em direção ao céu; portanto, o ideal básico de toda nossa vida deve ser cada vez mais contemplar a face de Cristo e, assim, viver eternamente junto d’Ele.

Essa constante união com nosso Redentor se concretiza por meio da morte. Sendo assim, a morte é um novo nascimento. Cada dia que passa é uma antecipação desse momento sublime, pois estamos sempre dando um passo a mais em direção à eternidade.  Em termos humanos, sabemos que é difícil aceitar a realidade da morte, pois ela nos afasta das pessoas a quem tanto amamos e deixa uma saudade que não passa.

Por revelação de Deus, nós sabemos que a morte não estava em seus planos e que ela entrou no mundo e em nossas vidas pela desobediência de Adão e Eva. A realidade da morte produz dor e sofrimento, mas esses são passageiros e abarcam um breve período. Quando crescemos na senda da fé, passamos a aceitar a realidade da morte do mesmo modo que São Paulo, professando: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro.” (Fl 1,21)

É por meio da morte que penetramos na Igreja Triunfante, desde que tenhamos sido fiéis a graça de Cristo. Por isso, devemos participar, já aqui na terra, da melhor maneira possível da vida divina. Durante todos os dias da nossa vida, devemos manter a união com Jesus Cristo, participando da comunhão eucarística, do sacramento da reconciliação e dos demais sacramentos, realizando fecundos apostolados, rezando intensamente, enfim, fortalecendo nosso caminhar rumo à Pátria celeste.

Para nós, cristãos, a morte não é o fim, mas é, sim, o coroamento de toda uma vida de coerência e autenticidade. Cada findar de dia deve nos trazer a lembrança de que o nosso momento se aproxima. Por outro lado, cada resplandecer do sol deve fortalecer em nós a fé, a doação e a nossa união com Jesus Cristo. O decorrer dos dias, das semanas, dos meses e dos anos deve nos levar a uma maior maturidade espiritual e ao desapego dos bens terrenos, pois, como nos ensina o Papa Francisco: “Nunca se ouviu dizer que o caminhão de mudanças acompanha o percurso do carro da funerária”.

Os bens materiais que são passageiros não nos devem afastar de Deus. O povo simples, munido de sabedoria, gosta de recordar o ditado que nos diz: “Caixão não tem gavetas.” De nada nos valerá o dinheiro, a fortuna e os bens materiais se não soubermos administrá-los de acordo com a vontade de Deus.

Nos Evangelhos, Jesus não se cansa de nos chamar à vigilância: “Vigiai porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Compreendei isto: Se o dono da casa soubesse em que vigília viria o ladrão, vigiaria e não permitiria que sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós, ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais.” (Mt 24, 42-44).

Vigiar é uma manifestação de amor, de prudência, de cuidado e de zelo e, por isso, a virtude da vigilância deve ser concretizada por todos nós, principalmente, mediante o desapego material, pois quando carregamos coisas em excesso se torna difícil caminhar. “Tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só.” (Lc 10, 41-42).  Vigiar é escutar o conselho de Cristo que nos diz: “Acumulai riquezas no céu, onde não roem traça nem caruncho, onde ladrões não arrombam nem roubam.” (Mt 6, 20).  Vivendo a vigilância, cada novo dia será uma ocasião para crescermos espiritualmente, multiplicando os dons e os talentos que administramos por concessão do Cristo.

Em todas as Santas Missas, nós rezamos pelos fiéis defuntos, e em especial, no mês de novembro, dedicamos um dia a eles. No dia 02 de novembro, comemoramos o dia dos finados, mas em todos os dias, somos convidados a rezar pelos fiéis defuntos, como também avivar a certeza de que contamos com a ajuda e a intercessão de inúmeros santos, membros da Igreja Triunfante que intercedem por nós.

A morte não é e não pode ser encarada como um fim. Ela é um começo, o começo de uma vida eterna. O começo de uma vida plena em Deus. A maior felicidade possível é ressuscitar e viver eternamente junto de Deus, de Maria Santíssima, dos Anjos e de todos os santos. Como nos ensina o prefácio dos defuntos do Missal Romano: “Para os que creem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna.”

No céu, nós seremos tudo em Deus e contemplaremos a doce face da Virgem Santa Maria, viveremos o supremo Amor, junto com outros irmãos que “combateram o bom combate e guardaram a fé.” (2 Cor 4, 7).

Vale a pena lutarmos pelo ideal de vivermos eternamente ao lado do nosso Deus adorado e amado.  Lembrem-se: estar com Deus e viver com Ele é a finalidade básica de toda a nossa existência. E quando a morte vier, Cristo nos receberá de braços abertos e nos acolherá em seu seio, dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!” (Mt 25, 23).

 

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-11-25T10:35:03-03:0025/11/2020|