A VOZ QUE CLAMA NO DESERTO

João Batista foi o último dos grandes profetas de Israel. Ele é o elo entre o Antigo e o Novo Testamentos. De acordo com Cristo, ele é o maior homem nascido de uma mulher. O Batista foi o profeta que preparou o povo eleito de Deus, por meio de um batismo de arrependimento, para uma autêntica conversão ao Reino dos Céus e para uma adesão imediata à Boa Nova da Salvação.

Pela força de seu testemunho, o Batista foi identificado com Elias. Seu nascimento precedeu ao nascimento de Jesus Cristo, pois a sua missão era, exatamente, preparar o povo de Israel para a vinda de nosso Redentor. São Clemente de Alexandria nos ensina que “João é um precursor e sua voz é precursora da Palavra de Deus, voz que encoraja e predispõe à salvação, voz que nos exorta a procurar a herança do céu.”

João Batista foi a voz enviada para preparar o caminho para o Messias esperado

João Batista foi a voz enviada para preparar o caminho para o Messias esperado, anunciando os sinais do amor que revelam a presença do Verbo encarnado entre nós. Deste modo, celebrar a Solenidade do seu nascimento significa, na realidade, celebrar Cristo, o cumprimento das promessas de todos os profetas, dos quais o Batista foi o maior. Ele foi a voz que clamou no deserto, conduzindo a todo o povo a conversão de vida e o batismo para o perdão dos pecados, em vista de uma Pessoa maior que ele, nosso Senhor Jesus Cristo.

São João Batista nasceu seis meses antes de Jesus Cristo. Foi o Anjo Gabriel quem revelou seu nome ao seu pai, Zacarias, que havia muitos anos rezava com sua esposa para terem um filho. Dados históricos demonstram que, possivelmente, depois de uma certa idade, João teria participado da vida monástica de uma comunidade à beira do Rio Jordão, onde viveu em profunda oração, humildade e penitência.

Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatros evangelistas, iniciam o relato da vida pública de Cristo com a narração do Seu batismo no Rio Jordão por obra de João. São Marcos nos revela que “de Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio, confessando os próprios pecados.” (Mc 1, 5)

Será o Messias?

Graças ao seu testemunho de santidade, a sua unidade entre o falar e o agir, a fama de João Batista cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Refletindo sobre essa situação, nós percebemos que “a humildade de João constituiu o seu maior mérito; ele poderia enganar os homens, passar-se por Cristo, ser visto como Cristo, tão grandes eram a sua graça e a sua virtude, e, contudo, declara abertamente: Eu não sou o Messias!” (Santo Agostinho)

Visando preparar melhor a sua missão, João Batista retirou-se para o deserto e ali, por meio de uma vida de penitência, ele aprendeu a dominar o corpo a fim de engrandecer a alma. Ao retornar para o Rio Jordão, ambiente diário de sua catequese, ministrou ao povo o batismo de penitência, ao qual Cristo também acorreu, por humildade e em sinal de gratidão ao Batista pela contínua fidelidade à sua missão profética.

Subindo o tom de sua voz, e sem perder a ternura, o Batista bradava: “Arrependei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo. Produzi fruto digno de arrependimento… Eu vos batizo com água, como sinal de arrependimento, mas o que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu não sou digno nem de desamarrar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.” (Mt 3, 2, 8, 11)

Perseverando em sua vocação profética, anunciando o Reino de Deus, João Batista perseverou na santidade porque se conservou humilde e simples no seu coração. Em sua simplicidade, o Batista ofereceu ao Cristo os Seus primeiros discípulos, Pedro, André, Tiago e João.

Purificando a sua voz, um certo dia, João Batista, na presença de seus discípulos, e diante de Cristo, professou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29). A partir daquele dia, muitos dos coetâneos do Batista adquiram a certeza de que “João era uma voz passageira; Cristo é a Palavra eterna desde o princípio!” (Santo Agostinho)

 

A vocação profética

A vocação profética de João Batista recorda-nos que a nossa vida, desde o nascimento até o sepulcro, deve ser vivida em união com o nosso Redentor, acolhendo os Seus ensinamentos e a Sua Palavra, pois Cristo é sempre a Palavra, o Verbo, a Luz, o Esposo e o nosso amado Salvador, do qual devemos ser, sempre mais, amigos, lâmpadas, vozes, discípulos missionários e testemunhas e, por isso, “Ele é que deve crescer, e eu diminuir!” (Jo 3, 30)

Contemplando a missão do Batista, percebemos que a voz do profeta que anuncia também deve denunciar. Desse modo, João deu testemunho da verdade sem condescendências e apontou as transgressões dos mandamentos de Deus e denunciou a prática do adultério, também quando os protagonistas eram os ricos, os políticos e os poderosos.

Por ser um denunciador dos pecados de seu tempo e por vivenciar uma grande firmeza de caráter, João Batista foi preso por não se calar diante das atitudes pecaminosas do rei Herodes e acabou decapitado devido ao ódio de Herodíades, que vivia uma relação de adultério com esse rei.

João Batista foi decapitado, mas a violência e o mal não conseguiram abafar os seus ensinamentos, pois a vida e o testemunho do Batista ainda hoje nos ajudam a viver o seguimento a Cristo, sendo uma voz que clama no deserto, anunciando os caminhos do Senhor no coração, na Igreja, na comunidade, na família e na sociedade.

Em pleno século XXI da era cristã, o testemunho de São João Batista nos desafia a aprofundar sempre mais o nosso caminho de fé e de santidade a partir de Cristo, o Cordeiro cheio de amor e de misericórdia que o Pai nos deu.  Invoquemos a poderosa intercessão de São João Batista, para que também nos nossos dias a Igreja, e todos nós que somos membros do Corpo Místico de Cristo, saibamos manter-nos sempre fiéis a Cristo, testemunhando com coragem a Sua verdade e o Seu amor a todos, anunciando a alegria do Evangelho e denunciando todos os desvios da Casa do Pai. São João Batista, voz que clama no deserto, profeta da esperança e da justiça, rogai por nós!

Aloísio Parreiras   

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)