Abandonastes o teu primeiro amor!

Desde o dia do nosso nascimento, nós nos deparamos com muitos perigos. Há o perigo de contrairmos doenças, de sermos assaltados, de perdermos o emprego, de sofrermos acidentes e muitos outros. Estamos cercados de perigos reais que conhecemos e aprendemos a superar, com sabedoria e prudência, nas diversas fases da vida, lutando para não sermos aprisionados por nenhuma síndrome do pânico.

Os perigos não são uma realidade exclusiva da vida natural, pois, na vida espiritual, nós também estamos sujeitos a inúmeras intempéries que podem, se não cuidarmos, diminuir, esfriar, ou até mesmo desmotivar a nossa correspondência ao amor de Deus. Portanto, não podemos esquecer que, desde o dia feliz do nosso batismo, nós somos capacitados para crescermos na vida sobrenatural da graça, pois nascemos com o destino de sermos filhos de Deus, de sermos amigos de Deus, com a tarefa de servir, de construir e de edificar.

Buscar a santidade, almejar a identificação com o Cristo deve ser o objetivo principal de todos os dias da nossa existência. Mas, se nos acomodamos na vivência da fé, corremos o sério risco de esquecermos que o processo da nossa conversão abrange todas as fases da vida, ou seja, temos que permanecer firmes no aprendizado da santidade com a consciência de que “O Senhor é rico em amor e fidelidade”. (Ex 34, 6). “Ele é o Deus da lealdade” (Dt 3,4) e “a Sua fidelidade permanece para sempre”. (Sl 116, 1).

O nosso caminho na santidade pode ser comparado ao caminho do povo eleito no deserto, ou seja, é um caminho de esforços, de acomodações, de cansaços, de alegrias, de tristezas, de avanços, de retrocessos, de paradas e de partidas. No caminho da vida, quando nos acomodamos na vivência da santidade, o Senhor Jesus nos adverte: “Conheço tuas obras, teu trabalho e tua paciência… Tens perseverança, sofreste pelo Meu Nome e não desanimaste. Todavia, há uma coisa que Eu reprovo: abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste! Converte-te e volta à tua prática inicial”. (Ap 2, 2-5)

Com estas palavras do Apocalipse, nosso Deus adorado e amado bate à porta dos nossos corações, incentivando-nos a perseverar na justiça, confirmando-nos no bem e, ao mesmo tempo, despertando-nos para uma nova conversão. Ele evidencia que na vida há quedas, pois todos somos pecadores, podemos cair e já caímos inúmeras vezes. Se ouvirmos os ensinamentos do Senhor, nós aprenderemos que não podemos ser fogos de artifícios que brilham somente por um curto período, mas devemos, sim, sermos faróis de luz mesmo em meio às tempestades.

Nenhum amor é autêntico se não atravessa, com maestria, as renúncias e os sacrifícios que a vida apresenta. Por conseguinte, todas as coisas essenciais que devemos cultivar neste mundo exigem de nós as virtudes da perseverança e da fortaleza.  Levar até o fim a correspondência ao amor de Deus, a prática das virtudes humanas e cristãs, a fidelidade aos Mandamentos e a luta contra o egoísmo, o pecado e o mal são coisas difíceis, mas extremamente gratificantes na vivência cotidiana do amor.

Nos pequenos e grandes detalhes que constroem a nossa vida espiritual não basta a empolgação do início ou o entusiasmo que manifestamos no dia em que fizemos a Primeira Comunhão e a Crisma, pois precisamos manter viva a chama do Espírito Santo em nossas almas, pois é o Divino Paráclito quem nos santifica, ensinando-nos que precisamos de uma fidelidade sempre nova, um entusiasmo sempre vivo e dinâmico e um ardor sempre renovado que não nos deixe à mercê dos sentimentos, nem das circunstâncias e nem das facilidades.

Quando somos dóceis ao Espírito Santo, Ele nos ensina que abandonar o Primeiro Amor é viver a graça divina friamente em nossas vidas, é se acomodar aos pecados veniais, é recusar a se abrir às novas possibilidades de crescimento na fé e na santidade. Ele também nos ensina que abandonamos o Primeiro Amor quando vamos à Igreja só para cumprirmos um preceito, uma obrigação, mas sem vivermos o zelo e o amor pela Graça. Em outras palavras, Deus Espírito Santo nos faz perceber que abandonar o Primeiro Amor é esfriar o fervor, a entrega e o nosso sim, passando a aceitar a ser morno, professando a fé sem vivê-la. Abandonar o Primeiro amor é deixar-se levar pela tibieza espiritual, se conformar com a falta de frutos, passando a ter complacência com a preguiça, a acomodação e a ociosidade. Abandonar o Primeiro Amor é não se dispor ao serviço, é ajudar, reclamando, é sacrificar, relutando, é se acomodar em ser escravo do corpo quando podemos ser senhores, é preferir caminhar em direção à morte quando podemos trilhar o caminho da plena vida.

Para fazer contraponto à tibieza, nós temos que, diuturnamente, renovar a memória do Primeiro Amor, ou seja, devemos manter acesa a lareira da nossa vida espiritual com o fogo vivo do entusiasmo do primeiro encontro com o nosso Redentor, professando que o amor está no cumprimento dos Mandamentos, na vivência das Bem-aventuranças e nosso aprendizado da misericórdia. É o Espírito Santo quem nos ajuda a perseverar no serviço da caridade. É Ele quem nos faz perceber que, mesmo que venhamos a sofrer escorregões, tropeços e quedas, em Deus somos convidados a uma nova conversão com a certeza de que iremos amar e lutar até o último suspiro e, por isso, jamais podemos dizer basta, desistir e jogar a toalha ou abandonar o bom combate da fé.

Na correspondência ao Primeiro Amor, devemos sempre nos questionar: Ainda tenho reservas que me impedem de me lançar no Sagrado Coração de Jesus? Minha alma está totalmente aberta à ação de Deus? Tenho a consciência de que “no ocaso da vida, seremos julgados no Amor?” No silêncio, com o auxílio de Deus, respondendo a esses questionamentos, iremos verificar que, para permanecermos na fidelidade ao Primeiro Amor, precisamos de doutrina, de piedade e de santidade.

Por meio do estudo da doutrina, por meio de uma formação contínua, nós alicerçamos a nossa vida espiritual na sabedoria, na piedade e na santidade. Agindo assim, ficamos mais fortes e conscientes, pois percebemos que o egoísmo, o amor voltado para si, é poderoso, mas a caridade, o amor voltado para Deus e o próximo, é invencível, é essencial e determinante. Portanto, somente na vivência da caridade, poderemos testemunhar que o processo da nossa conversão perpassa toda a nossa existência, evidenciando, nas pequenas e grandes coisas, “uma esperança cheia de imortalidade”. (Sb 3,4).

Peçamos à Virgem Santa Maria, a Mãe do Belo Amor, a graça de mantermos sempre acesa a chama do Primeiro Amor em nossas almas para que possamos ser, hoje, amanhã e sempre, testemunhas da fé, da esperança e da caridade, no bom combate em prol do Reino de Deus, a fim de que nada e nem ninguém nos roube as certezas, as revelações e os sinais dos encontros que nosso Senhor Jesus Cristo semeou no terreno de nossos corações. Unidos à Virgem Maria, nós podemos cantar as maravilhas que Deus realizou em nossa História, salmodiando: “Meu coração exulta porque me salvais. Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez!”. (Sl 12,6).

 Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)
2020-11-16T12:12:04-03:0016/11/2020|