ARTIGO – QUERIDA AMAZÔNIA

Querida Amazônia é a quinta Exortação Apostólica do pontificado do Papa Francisco. Este documento pós-sinodal é fruto da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que viveu o tema: “Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, ocorrido em Roma, de 6 a 27 de outubro de 2019, depois de um longo processo de preparação.

Esta Exortação Apostólica pós-sinodal é uma carta de amor a toda a Igreja que se faz presente neste território. Logo no início do documento, o Papa esclarece que não pretende, com esta exortação, substituir o Documento Final do Sínodo e anuncia o objetivo que visa com este Documento: “Desejo apenas oferecer um breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazônica uma síntese de algumas grandes preocupações já manifestadas por mim em documentos anteriores, que ajude e oriente para uma recepção harmoniosa, criativa e frutuosa do caminho sinodal”. (Querida Amazônia, nº 2).

Este Documento, sem sombra de dúvidas, possui uma conexão acentuada com a Encíclica Laudato Si, que foi escrita pelo Papa Francisco em maio de 2015. Demonstrando, mais uma vez, que tudo está interligado e que devemos cuidar da nossa casa comum, que se faz presente no território amazônico, o Papa nos convida “a despertar a estima e a solicitude por esta terra que também é nossa, convidando a admirá-la e a reconhecê-la com um mistério sagrado”. (Querida Amazônia, nº 5).

Este Documento demonstra os grandes sonhos do Sumo Pontífice e o seu olhar profundo sobre a região amazônica, indicando caminhos concretos para uma ecologia humana que leve em conta os pobres, para a valorização das culturas e para uma Igreja que seja verdadeiramente missionária e com um rosto amazônico. Este Documento pós-sinodal está articulado em torno destes quatro eixos ou sonhos: sonho social, sonho cultural, sonho ecológico e o sonho eclesial.

No primeiro eixo, o sonho social, o Papa sonha “com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja escutada e que sua dignidade seja promovida”. (Querida Amazônia, nº 7). Neste sonho, o Papa denuncia injustiças e crimes que foram e são cometidos na Amazônia, entre outros, a destruição do ambiente natural e o desenraizamento que vivem os indígenas que são forçados a emigrar para a cidade.

No segundo eixo, o sonho cultural, o Papa sonha “com uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana”. (Querida Amazônia, nº 7). Neste sonho, o Papa nos revela que a cultura do descarte, o indiferentismo, também se fazem presentes na Amazônia, pois “as cidades que deveriam ser lugares de encontro, enriquecimento mútuo e fecundação entre diferentes culturas, tornam-se palcos de um doloroso descarte”.  (Querida Amazônia, nº 30). Neste sentido, o Papa esclarece que promover a Amazônia não significa colonizá-la culturalmente, e nos faz ver que a visão consumista do ser humano tende a homogeneizar as culturas, e isso afeta sobretudo os jovens. A eles, o Papa pede que assumam as raízes e assim recuperem a memória danificada.

Ao sonho ecológico é dedicado o terceiro capítulo da “Querida Amazônia”. Neste eixo, o Papa sonha “com uma Amazônia que guarda zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas”. (Querida Amazônia, nº 7). Neste eixo, o Papa deixa claro que “libertar os outros das suas escravidões implica certamente cuidar do seu meio ambiente e defendê-lo”. (Querida Amazônia, nº 41). Ele ainda nos diz: “Abusar da natureza significa abusar dos antepassados, dos irmãos e irmãs, da criação e do Criador, hipotecando o futuro”. (Querida Amazônia, nº 42). Ou seja, a água, os rios, a terra, as florestas, os peixes, os demais animais, e tudo o que existe na Amazônia, devem ser mantidos em equilíbrio para a boa manutenção da saúde do planeta. Poeticamente, ao se referir aos cuidados com a Amazônia, o Papa Francisco nos diz: “Nós, os fiéis, encontramos na Amazônia um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus se manifesta e chama os seus filhos”.   (Querida Amazônia, nº 57).

No quarto e último eixo, o sonho eclesial, o Papa sonha “com comunidades cristãs capazes de se devotar e de se encarnar na Amazônia, a tal ponto que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos”. (Querida Amazônia, nº 7). Este último capítulo o Papa dedica aos desafios que a Igreja é chamada a enfrentar na Amazônia e deixa claro que a região amazônica é área de missão que precisa ser assumida com coragem e fortaleza. Num breve gesto de elogio, o Papa faz memória, um resgate do trabalho desempenhado pelos leigos, em especial, as mulheres na Amazônia.

Na conclusão desta Exortação Apostólica, o Papa Francisco nos convoca a “avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazônia e libertá-la dos males que a afligem”.   (Querida Amazônia, nº 111). O Papa conclui com uma bela oração à Virgem Maria, onde ele suplica: “Mãe da vida, no vosso seio materno formou-Se Jesus, que é o Senhor de tudo o que existe. Ressuscitado, Ele transformou-Vos com a sua luz e fez-Vos Rainha de toda a criação. Por isso, Vos pedimos que reineis, Maria, no coração palpitante da Amazônia. Mostrai-Vos como mãe de todas as criaturas, na beleza das flores, dos rios, do grande rio que atravessa e de tudo o que vibra nas suas florestas. Protegei, com vosso carinho, aquela explosão de beleza! ”. (Querida Amazônia, nº 111).

Este Documento foi assinado no dia 2 de fevereiro de 2020, na Festa da Apresentação do Senhor, mas, numa coincidência significativa, mas ao mesmo tempo triste e de extremo valor, este Documento foi divulgado no dia 12 de fevereiro, dia em que recordamos o assassinato da Irmã Dorothy Stang, morta em 2005, num assentamento no Pará. Esta consciência nos revela que precisamos sempre mais rezar pela Igreja na Amazônica, buscando sempre a valorização dos povos nativos, promovendo sempre a defesa e a vida do ser humano e de todas as formas de vida que se fazem presentes na Amazônia.

Aloísio Parreiras

2020-04-03T18:18:40-03:0003/04/2020|