Artigo: “Recorda-te de Jesus Cristo! ” (2Tm 2,8)

Por meio da recordação de um fato, de um evento vivenciado com familiares e amigos ou de acontecimentos significativos da vida, nós atualizamos a nossa memória, incendiamos o nosso coração e assim revivemos momentos marcantes da nossa existência. De algum modo, nós podemos afirmar que as recordações são combustíveis para o rejuvenescimento, um passeio ao nosso passado, são um impulso determinante para as decisões futuras.

Nas Sagradas Escrituras, nós podemos perceber que foi a recordação do amor do Pai que levou o filho pródigo a voltar para casa, para o aconchego do lar. Foi a recordação dos gestos de misericórdia de Cristo para com o cobrador de impostos, Mateus, que levou o publicano Zaqueu a subir em uma árvore para contemplar a presença de Deus em sua vida, suplicando perdão pelos erros cometidos. Foi a recordação dos gestos e das palavras de Jesus que levaram os discípulos de Emaús a reconhecer no peregrino desconhecido o Cristo vivo e ressuscitado que caminhava com eles e foi, certamente, a recordação dos gestos acolhedores de Cristo que levou o bom ladrão a conquistar no último e decisivo momento de sua vida o tão almejado paraíso.

Em suas cartas pastorais, o Apóstolo Paulo, em alguns momentos, suplicou aos seus seguidores que não perdessem as boas recordações. Em uma de suas cartas, quando estava próximo da sua partida, ele escreveu a Timóteo, seu companheiro de ministério. Naquela situação, ele tanto percebia que a sua partida estava próxima, como também enxergava os problemas que atingiam a Igreja em Éfeso, onde Timóteo estava e, por isso, ele o orientou, dizendo: “Recorda-te de Jesus Cristo! ”. (2 Tm 2,8). Em outras palavras: Mesmo diante das tribulações não se esqueça de que Cristo está presente em nosso meio.  Não se esqueça de que Ele se debruça sobre quantos são frágeis, pobres, doentes e pecadores e está sempre pronto a acolher, compreender e perdoar.

As palavras de Paulo não perderam a sua atualidade e, por isso, quando atravessamos uma espécie de exílio, quando a solidão, o sofrimento, a doença e a morte nos fazem pensar que fomos abandonados por Deus, nós devemos alimentar, imediatamente, a nossa convivência com o Cristo, atualizando a certeza de que o Seu amor é sempre renovador. No meio das adversidades, a fé nos recorda que “Deus é o nosso refúgio e nossa força; mostrou-se nosso amparo nas tribulações. Por isso, a terra pode até tremer, não tememos nada! ”. (Sl 46, 2-3).

Pela atualização de nossa memória, nós percebemos que a nossa conversão teve início na catequese, na preparação para a Primeira Comunhão ou na participação de um curso promovido por um Movimento da Igreja ou mesmo diante da perda de um amigo ou familiar. Aquele momento, aquele dia, foi o início de uma amizade com Cristo tão marcante e significativa que transformou a nossa existência. Permanecemos com o Cristo, passamos a ser discípulos do Mestre e em pouco tempo, passamos a ser também missionários que envolvem o próximo no anúncio feliz e comovedor da Pessoa de Jesus.

A recordação do amor e da misericórdia de Cristo no cotidiano de nossas histórias é um bom antídoto contra as tendências desordenadas da nossa carne e os gestos de desamor e egoísmo que somos tentados a cometer. Quando em meio ao pecado, nós pensamos que não temos mais jeito, é sempre bom recordar que “em Cristo, pelo Seu Sangue temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da Sua graça, que Ele derramou abundantemente sobre nós”. (Ef 1, 7-8).

Em nosso aprendizado da fé, nós devemos recordar que não temos um deus morto, mas sim um Deus vivo, presente e atuante. Devemos nos lembrar que Ele é todo poderoso e está sempre disposto a nos socorrer nas nossas dificuldades. Ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação. Ele está sentado à direita do Pai e é o Senhor de nossas vidas e, sem Ele, a nossa vida perde o seu referencial, o seu propósito.  Com Ele, podemos alcançar grandes conquistas. Sem Ele, ficamos perdidos, infelizes, incompletos e depressivos.

Quando avançamos na trajetória da vida, as recordações, alegres ou tristes, nos fazem recordar os fatos que marcaram a nossa vida como indivíduos, como família e como comunidade. Essas recordações são parte constituinte do nosso memorial de batizados, momentos emocionantes da nossa vivência da fé, do nosso serviço à Igreja, sacrifícios e renúncias, erros e acertos, avanços e retrocessos que carregamos em nosso coração. Este é um aspecto bonito: podemos passear na paisagem das recordações e assim fortalecermos a certeza de que Deus sempre está conosco. Junto d’Ele, nós aprendemos que boas recordações da vida alimentam o nosso coração e boas recordações da fé renovam a nossa alma, revelam a nossa identidade cristã, abrem-nos aos outros e nos proporcionam a cultura da comunhão e do encontro.

As nossas recordações, as nossas memórias nos permitem voltar atrás para contemplarmos os sucessos, as vitórias que alcançamos com a graça de Cristo e nos impulsionam como uma grande mola rumo a um breve e esperado futuro. Neste sentido, a memória cristã é sempre um encontro com o nosso Redentor, é uma luz que ilumina o nosso presente, clarificando as possibilidades de futuro. Sem memória não podemos avançar, progredir ou renovar os ideais, pois é na recordação de todas as coisas que o Senhor fez por nós que se fundamenta a nossa história pessoal de salvação. Desse modo, recordar é essencial para o nosso crescimento na fé e, por isso, recordamos os Mandamentos, as bem-aventuranças, o Evangelho, as orações de ontem e de hoje, a Doutrina Social da Igreja e os pontos centrais do Catecismo.

Na busca pela atualização da nossa memória, na recordação da presença, do amor, da misericórdia e do perdão de Deus em nossas vidas e em nossa história, nós sentimos a necessidade de silêncio. Silêncio para recordar, para renovar a fé, impulsionar a caridade e aquecer a esperança. Memória e esperança caminham juntas: a memória conduz a esperança e a esperança reaviva a memória. Memória e esperança são realidades complementares que nos ajudam a manter o nosso coração abrasado e nos levam a professar: “Eu sei em Quem acreditei! ”. (2 Tm 1, 12).  Quando a nossa memória e a nossa esperança estão interligadas, nós recordamos todo o caminho que o Senhor, nosso Deus, nos fez percorrer, atualizamos a nossa pertença a Ele e à Igreja e renovamos sempre mais o nosso desejo de participarmos da Eucaristia, o Sublime Sacramento da memória que nos recorda, de forma real, presente, viva e tangível, a história do amor de Deus para conosco.

Por Aloísio Parreiras
Escritor e membro do Movimento de Emaús

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