Artigo: Santa Dulce dos Pobres

Santa Dulce dos Pobres: é assim que Irmã Dulce, o Anjo Bom da Bahia, passou a ser chamada desde a Missa de sua canonização, presidida pelo Papa Francisco, no dia 13 de outubro de 2019. Irmã Dulce, que recebeu o nome de batismo de Maria Rita Lopes de Souza Brito, nasceu em 26 de maio de 1914 e faleceu em 1992, aos 77 anos, na Bahia. Seus pais tiveram quatro filhos. Ela era a única menina. Sua mãe faleceu quando ela tinha apenas sete anos de idade.

Irmã Dulce foi santa em vida e, por isso, hoje ela está elevada às honras dos altares, podendo ser venerada pelos fiéis do mundo inteiro. Desde a sua adolescência, aos treze anos, ela começou a acolher os doentes e mendigos que encontrava pelas ruas de Salvador, na Bahia. Nas periferias de Salvador e, principalmente, na favela dos Alagados, a pequena Maria Rita demonstrava a fortaleza que provém de Deus, exercendo a caridade sem reservas, fazendo-se oferta para o outro, contemplando nos doentes e nos pobres a presença do Cristo Ressuscitado.

De algum modo, Irmã Dulce tinha cheiro de pobre, cheiro de povo, ou seja, jeito de acolher aos pobres, de valorizar aqueles que eram esquecidos pela sociedade, anunciando que a vocação religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Por tudo isso, Irmã Dulce realizou os serviços de uma comunidade eclesial missionária, as obras de uma Igreja em saída, que era porta de entrada para acolher a todos que precisavam de ajuda. Era também uma porta de saída para buscar soluções para as carências dos marginalizados e dos excluídos, sendo assim uma das pioneiras da Pastoral das Pessoas em situação de rua em nosso país. Ao ser perguntada porque insistia em servir aos pobres, ela respondia: “Para mim, o pobre, o doente, aquele que sofre, o abandonado, é a imagem de Cristo”.

Seu itinerário de santidade, no qual a Igreja reconhece as suas virtudes heroicas, foi um caminho marcado, humana e naturalmente, por incompreensões de tantos, mas que, sobrenaturalmente, foi capaz de tocar os corações endurecidos. Irmã Dulce era pequena na estatura física, mas grande na tomada de decisões em benefícios dos pobres e, por isso, a sua Paróquia eram as favelas e as periferias onde ela derrubava os muros da indiferença e clamava a favor da superação das desigualdades.

A caminhada de fé da Irmã Dulce foi marcada por grandes desafios, imensos obstáculos, mas nada disso a enfraqueceu. A fragilidade da sua saúde era um sinal evidente de que Cristo capacita os mais fracos. Irmã Dulce foi para os pobres da Bahia, em pleno século XX, a personificação do Evangelho, a Boa Nova da vida que vence a morte. O carinho do povo baiano para com Irmã Dulce se expressava no pedido de benção, nos abraços e sorrisos que iluminavam o caminho da religiosa. Ao sentir o amor do povo e dos doentes, Irmã Dulce gostava de afirmar: “Sempre que puder, fale de amor, com amor, para alguém. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e à alma de quem fala”.

Ao proclamar Irmã Dulce uma santa, a Igreja reconheceu oficialmente aquilo que os baianos que a encontraram nas ruas sempre souberam: Maria Rita, a Irmã Dulce, nasceu com uma missão, uma vocação especial de acolher os marginalizados, os indefesos, os esquecidos, os pobres e os famintos.

Graças à fidelidade à sua missão, aos serviços e à ação social prestados ao povo baiano, Irmã Dulce edificou o hospital Santo Antônio, obra grandiosa que começou onde antes era o galinheiro do Convento Santo Antônio. Esse hospital é hoje o maior hospital público da Bahia. Por conta do alcance de suas obras de caridade, o então presidente da República, José Sarney, indicou o nome de Irmã Dulce para o Prêmio Nobel da Paz de 1988. Infelizmente, ela não foi escolhida, mas isso não diminuiu em nada o fervor, a entrega e a grandeza daquela que fazia das periferias e do hospital o seu ambiente religioso e vida de oração.

Pela sua correspondência aos planos de Deus, pelo seu amor irrestrito pelos doentes e os pobres, Santa Dulce dos Pobres é um modelo, um exemplo para todos os que veem a dor do próximo, sentem compaixão e cuidam com carinho e cuidado samaritanos. Nos cuidados com os excluídos, Santa Dulce dos Pobres nos demonstra que o que parece impossível se torna possível quando confiamos plenamente na misericórdia de Deus e, por isso, “ela deixou atrás de si um prodigioso rasto de caridade ao serviço dos últimos, levando o Brasil inteiro a ver nela a mãe dos desamparados”. (Papa Bento XVI, Regina Caeli  em 22 de maio de 2011).

Hoje e sempre, saibamos recorrer a Santa Dulce dos Pobres, suplicando sua poderosa intercessão pelo nosso mundo, pelo Brasil e por todos nós. “Senhor nosso Deus, lembrados de vossa filha, a santa Dulce dos Pobres, cujo coração ardia de amor por vós e pelos irmãos, particularmente os pobres e excluídos, nós vos pedimos: dai-nos idêntico amor pelos necessitados; renovai nossa fé e nossa esperança e concedei-nos, a exemplo dessa vossa filha, viver como irmãos, buscando diariamente a santidade, para sermos autênticos discípulos missionário de vosso Filho Jesus. Amém! ” Santa Dulce dos Pobres, rogai por nós!

Por Aloísio Parreiras

 

 

2020-03-24T18:36:20+00:0024/03/2020|