AS CHAGAS ABERTAS PELO SOFRIMENTO

Nesses dias em que estamos atravessando uma pandemia, o sofrimento passou a ser visível aos nossos olhos, pois a morte, a dor e a fragilidade do ser humano passaram a ocupar os noticiários do dia a dia.

Antes dessa pandemia, parecia que, de algum modo, tínhamos esquecido uma realidade que sempre acompanhou a espécie humana, ou seja, somos seres limitados e, por isso, nós iremos enfrentar dores e dificuldades no decorrer da nossa existência.

Em algum momento de nossas vidas, nós seremos chamados a encarar em termos humanos e, principalmente, em termos espirituais, a realidade do sofrimento. Queiramos ou não, mais cedo ou mais tarde o sofrimento baterá à nossa porta e mesmo sem pedir permissão invadirá as nossas vidas.

Uma coisa é certa: pelo sofrimento, nós vivenciamos a experiência de nossa humanidade e, no dia a dia, o sofrimento nos revela que somos fracos e limitados. Diante do sofrimento, temos apenas duas opções: ou o santificamos, transformando-o em um testemunho de fé, ou reclamamos de Deus, de tudo e de todos, julgando-nos os seres humanos mais injustiçados da terra.

Percorrer o caminho do sofrimento, atravessar a rotina das dificuldades provenientes de uma doença é uma realidade humana que precisa ser santificada. No contato inicial com o sofrimento, parece que não conseguimos respirar. Por alguns momentos, o ar se torna rarefeito. A impressão que temos é a de que as batidas aceleradas do coração estão impedindo o perfeito funcionamento dos nossos pulmões.

Por meio do sofrimento, há uma exposição das nossas chagas. Com as chagas abertas, notamos que o mais simples gesto ou a mais simples atitude não podem ser realizados por nós sem a preciosa ajuda do nosso próximo e, por isso, o sofrimento nunca é algo individual.

O sofrimento é coletivo; consequentemente, quando alguém de nossa família adoece, nós adoecemos com ele, abraçando juntos as possibilidades de cura, de aceitação e de santificação das dores. Quando acompanhamos o sofrimento de um parente ou de um amigo, em plena união com o Cristo, é-nos revelado que o sofrimento é um caminho de amadurecimento na fé, um caminho de identificação com o nosso Redentor que não se cansa de derramar sobre cada um de nós a Sua infinita misericórdia, para que possamos crescer na prática da caridade e no aprendizado da fé.

Com as chagas abertas e expostas pelo sofrimento, somos convocados a professar os sinais luminosos da esperança. Um sinal luminoso de esperança é poder vislumbrar que, em nossos lares, o doente nunca está sozinho, pois o espírito de serviço, de sacrifício e de renúncia já faz parte do nosso cotidiano.

Os cuidados especiais que temos com os doentes acamados, virando-os de lado para que não tenham feridas ou escaras, são por si mesmos um grande gesto de amor. Ocupar-se nos cuidados e na contínua atenção requeridos por quem está sofrendo é um sinal de valorização da dignidade humana. Quando proporcionamos alívio e solidariedade ao enfermo, somos misericordiosos, pois, como nos ensina Santo Agostinho: “São misericordiosos os que usam de delicadeza e humanidade quando proporcionam aos outros o necessário para resistirem aos males e às dores”. (Sobre os costumes da Igreja Católica, 1, 28, 56).

Todos os cuidados especiais exigidos por quem sofre não podem e não devem ser executados unicamente pelos enfermeiros ou pelos médicos, especialistas em Enfermagem e em Medicina, mas devem ser realizados também pelos familiares e amigos, especialistas em carinho, em apreço e em gestos de ternura, desde que não haja risco de contágio de alguma doença grave.

Com o passar do tempo, com o apoio e a presença do nosso próximo, mesmo que ainda estejamos com as chagas abertas pelo sofrimento, nas pequenas e nas grandes vitórias alcançadas em prol do restabelecimento da saúde, aprendemos a bradar que somente santificando a cruz do sofrimento, somente superando o egoísmo e a soberba, nós poderemos superar as trevas das dores da Sexta-feira Santa, a fim de que possamos cantar, com incontida alegria, a boa nova da ressurreição.

Superar as limitações advindas de um sofrimento é sinal de ressurreição. Vencer o medo da morte, com a plena confiança de que, nos momentos de sofrimento, Cristo nos carrega no colo é sinal de ressurreição. Crer que quando abraçamos a cruz nunca estamos sós, pois contamos com a ajuda de inúmeros Cireneus e, de um modo especial, contamos com a poderosa intercessão de Maria, Saúde dos enfermos, é sinal de ressurreição.

Mesmo com as chagas abertas pelo sofrimento, como membros do Corpo Místico de Cristo, temos que testemunhar que, pelo sofrimento, nos identificamos com Jesus Cristo. De um certo modo, o nosso sofrimento é transformado em oração, em uma poderosa alavanca que é utilizada como uma singular oferenda pela conversão dos pecadores e pela nossa própria purificação interior.

Se um dia qualquer, o vento impetuoso do sofrimento soprar nas janelas e nos telhados de sua vida, não permita que ele abale as sólidas raízes da fé e da esperança.  Permita, sim, que este vento impetuoso seja transformado em uma brisa leve, pois quando permitimos que o orvalho da amizade, o calor do sol dos laços familiares e o agradável cheiro das rosas da caridade cubram todas as superfícies das chagas que foram abertas pelo sofrimento, aprendemos a afirmar, junto com o Pe. Fábio de Melo, que “o sofrimento parece conferir um selo de qualidade à vida, porque tem o dom de revesti-la de sacralidade, de retirá-la do comum e elevá-la à condição de sacrifício”.

Com as chagas abertas pela dor e santificadas pelo amor, notamos que aos pés da nossa cruz está a Virgem Santa Maria, o Auxílio dos cristãos. Com o auxílio e a mediação de Nossa Senhora, o sofrimento é aliviado e as nossas forças são revigoradas, para que possamos realizar a vontade divina.

Na escola de Maria, aprendemos que sofrer não é somente padecer, mas é, sim, uma oportunidade de amadurecer na fé, na justiça e na humildade. Mãe e Senhora nossa, Saúde dos enfermos, mesmo com as chagas expostas e abertas pelo sofrimento, ensinai-nos a esperar, a confiar e amar convosco! Mãe, abrandai o nosso sofrimento e alcançai de Deus para nós o dom da cura das doenças e o fim das pandemias que assolam o nosso mundo causando tantas dores aos nossos coetâneos! Mãe da esperança, fazei brilhar diante de nossos olhos uma nova alvorada que nos conduza à terra firme da saúde, da fraternidade e da paz!

 

Aloísio Parreiras
2020-07-24T11:37:29-03:0024/07/2020|