AS DEMORAS DE DEUS

Perseverar na fé e na santidade é um desafio cotidiano, pois há momentos em nossas vidas em que somos tentados a desistir de tudo. O trabalho não está bem e a ameaça de ser despedido é visível, o esforço para passar em um concurso nunca dá certo, o empenho para mudarmos de vida nunca é valorizado e as orações em prol da conversão de um filho ou um familiar parece que nunca são atendidas. Quando estamos inseridos nessas situações, é comum pensarmos que não vale a pena crer em Deus e em Suas promessas, pois não conseguimos vislumbrar nem mesmo a sombra de dias melhores vindouros e, por isso, o cansaço, a infidelidade, a desesperança e, até mesmo, a revolta contra Deus, encontram morada em nosso interior e nos levam a dizer: “O Senhor me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim! ”. (Is 49, 14).

Esperar no Senhor é um ato de fé que precisa ser renovado a cada dia. Esperar é um exercício de paciência, pois esperar não é fácil e nem cômodo. Quando esperamos em Deus, quando submetemos as nossas vontades ao ritmo estipulado pelo Senhor, nós aprendemos a dominar a pressa e a impaciência, e aos poucos, vamos percebendo que Deus faz tudo no tempo certo e as Suas demoras são sempre oportunas.

Imediatismo não é uma palavra que combina com constância na fé porque o tempo de Deus não é o nosso tempo. Desse modo, as demoras de Deus são o tempo, o momento que Ele nos concede para que possamos crescer no exercício da humildade e no aprendizado da fortaleza, pois, se ainda não alcançamos o bem que pedimos, será necessário caminhar mais um pouco. Por conseguinte, mesmo quem vive sozinho, quem se encontra à margem da sociedade, quem tem fome ou quem já perdeu toda a esperança pode experimentar a ternura e a presença do Senhor e vislumbrar, no tempo oportuno, as graças solicitadas que superam as expectativas humanas.

No decorrer da caminhada na vida, quando sofremos as demoras de Deus, nós precisamos nos questionar: será que já estamos configurados, compatíveis com o que o Senhor tem para nós? Ele sabe mais e, se pedimos e não recebemos, é porque esse não é o momento tão esperado da graça. Esse é, sim, o tempo de meditarmos sobre os conselhos do Livro do Eclesiastes que nos diz: “Sofre as demoras de Deus, dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça”. (Eclo 2,3).

Quem espera, pacientemente, no Senhor, professa que nunca fica desapontado quem se entrega a Deus; afinal, as promessas do Senhor são sempre melhores do que aquilo que pedimos. Muitas vezes, nós pedimos um emprego ao Senhor e Ele nos dá um trabalho digno e valorizado. Outras vezes, nós pedimos um amigo e Ele nos concede um irmão. Em outros momentos, nós pedimos sorte para ganharmos na loteria e Ele nos concede saúde e determinação para lutarmos pelos nossos objetivos. Em momentos de doença, nós pedimos a cura do corpo e Ele nos concede a cura da alma. Pedimos pouco e recebemos muito, pedimos bens materiais e recebemos bens espirituais, pedimos ilusões e luxo e recebemos graças e bênçãos.

Ter dificuldades faz parte da vida. O que não é normal é imaginarmos que existem problemas sem solução ou ficarmos impotentes ante as tempestades cotidianas, mesmo as mais simples. As tempestades são momentos que Deus nos permite para o nosso bem. Em todo tempo e lugar, Ele não se esquece de nós. Ele sabe exatamente do que precisamos. Ele sabe até que ponto podemos chegar na senda das noites escuras, pois conhece as nossas limitações e fraquezas. É claro que a espera provoca sofrimentos e dificuldades e, por isso, muitas vezes nós choramos e questionamos: Deus, onde estás? Mas, se pararmos de reclamar, e passarmos a santificar as tribulações, nós veremos que o próprio Deus está enxugando as lágrimas dos nossos olhos, consolando-nos com a Sua ternura.

Quem espera no Senhor aprende a traduzir na prática os ensinamentos do Evangelho e consegue testemunhar, corajosamente, o alcance da fé no meio da sociedade da qual faz parte. Quem espera no Senhor é um profeta da esperança e, por isso, ele sabe comunicar entusiasmo ao próximo, evidenciando a certeza de que não imaginamos a dimensão da graça que há nas promessas de Deus.

Nas Sagradas Escrituras, nós encontramos exemplos de pessoas que foram provadas e recompensadas pela fidelidade ao tempo estipulado por Deus. O velho Simeão esperou no Senhor e alcançou a graça de contemplar o Menino Jesus no templo de Jerusalém. Zacarias e Isabel esperaram no Senhor e receberam a graça de um filho na velhice. Esses e outros exemplos de pessoas que esperaram no Senhor são a feliz comprovação de que vale a pena esperar sem medo e sem depressão.

Não podemos esquecer que jamais poderemos vislumbrar, com os olhos humanos, a proporção das maravilhas que Deus opera em uma alma que se deixa moldar por Seu amor e misericórdia. Nestes dias da pandemia da Covid-19, tudo parece assustador, projetando a ideia de que Deus se retirou do mundo e se esqueceu de nós. Nestes dias, como é difícil salmodiar sem emoção: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Rezamos, fazemos jejum e penitência e não enxergamos, de imediato, a cura dessa doença. Mas não podemos esquecer que para Deus nada é impossível. Ele é um Deus pleno de amor e de bondade e suas intervenções são sempre no tempo propício e, por isso, “a graça do Senhor não nos faltará nunca”. (Is 59,1).

Aproveitemos essa demora atual, que hoje Ele nos concede, a fim de cooperarmos na comunhão dos santos, na unidade da Igreja, no aprendizado da oração, no testemunho da caridade, no serviço do Evangelho e no exercício da confiança que não decepciona. Sim, apesar das sombras atuais, vale a pena esperar, vale a pena confiar no Senhor, pois Ele continua fazendo milagres em prol do Seu povo. Vale a pena esperar no Senhor, meditando o conselho do Apóstolo que nos diz: “Lançai sobre Ele toda a Vossa preocupação, pois é Ele quem cuida de vós”. (1Pd 5, 7).

Senhor, nós confiamos em Vós e, por isso, nós Vos pedimos: Vinde, Senhor, em nosso auxílio, livrai-nos do mal e suscitai em nossos corações a perseverança na fé diante das dificuldades atuais. Fazei, Senhor, que essa demora seja para todos nós um tempo de graça e de bênçãos, um tempo de descoberta de novos sinais da Vossa presença em nosso meio.

Aloísio Parreiras