AS PEQUENAS COISAS

As pequenas coisas são essenciais no nosso dia a dia, em nossos gestos e ações,
pois são as pequenas coisas que constroem as grandes realizações, alavancam as
conquistas e fundamentam os objetivos, conscientizando-nos de que os seres vivos
complexos são constituídos a partir de pequenas células simples. Do mesmo modo, uma
maratona de quarenta quilômetros começa com o primeiro passo; o exercício da oração
de mil Ave-Marias começa apenas com uma, e a edificação de um edifício de cinquenta
andares tem início com um pouco de cimento, areia, ferro e alguns tijolos.
No itinerário da fé e da santidade, nada é pequeno aos olhos de Deus. Para
termos essa certeza, basta abrir o Evangelho e escutar os ensinamentos de Jesus Cristo
que nos diz: “Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes.
E quem é injusto nas coisas pequenas o será também nas grandes”. (Lc 16, 10).
No desenvolvimento de Sua vida pública, Cristo valorizou as pequenas coisas ao
perceber que foram realizadas com amor e generosidade, como a esmola da pobre
viúva. Em Seus ensinamentos, Ele enfatizou a importância de ser fiel no pouco. Por
meio da parábola dos talentos, Ele ainda evidenciou este apreço com as seguintes
palavras: “Servo bom e fiel! Como te mostraste fiel na administração de tão pouco, eu te
confiarei muito mais!” (Mt 25, 21).
No anúncio do Reino de Deus, o Cristo nos ensina que “o Reino dos céus é
como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora
ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras
plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus
ramos”. (Mt 13, 35). Desse modo, o nosso Redentor nos faz perceber que as pequenas
coisas podem fazer uma grande diferença nas nossas vidas, pois as grandes coisas não
se fazem por precipitação, mas pela junção de uma série de pequenas coisas.
Em termos espirituais, na vivência da fé, as pequenas coisas são a antessala de
acesso às virtudes, à santidade e à caridade e, por isso, nós precisamos “mudar o mundo
com as pequenas coisas de cada dia, com a generosidade, com o compartilhar,
escutando os outros e criando atitudes de fraternidade”. (Mensagem do Papa Francisco
aos jovens, em 2 de junho de 2017).
Na caminhada cristã, nós não precisamos de coisas espetaculares ou de
contemplar milagres para acreditarmos em Deus e sermos felizes. Quando,
verdadeiramente, queremos descobrir os sinais de Deus em nosso meio, aprendemos a
vislumbrar o ciclo da vida, a beleza da natureza e as fases da lua. Todas essas coisas nos
revelam uma grandeza, uma perfeição, um equilíbrio, uma interligação e a força
operante do Amor que precisa ser amado.
Quando contemplamos a presença de Deus em nossa História, pela visão da fé,
vamos adquirindo a consciência de que o caminho da santidade é gradual, paulatino,
mas com passos firmes, fortes, decisivos e seguros e, por isso, “a perseverança nas
pequenas coisas, por amor, é heroísmo”. (São Josemaría Escrivá, Caminho nº 813).

Desse modo, nós aprendemos que, se queremos ser heróis da resistência, na luta contra
o pecado e o mal, é preciso que estejamos atentos às ocasiões em que somos tentados a
aderir aos pecados veniais, pois eles são os primeiros passos no caminho do pecado
mortal. Ou seja, se aceitamos os pequenos erros, nós estamos permitindo que, a médio
prazo, venhamos a aceitar também os grandes erros, as sombras e o desamor.
Na vida espiritual, as pequenas penitências, as mortificações, os sacrifícios e as
renúncias educam a nossa vontade para as decisões maiores, para os ideais maiores e
para os propósitos maiores. Muitos santos de nossa Igreja, entre eles Santo Agostinho,
São Camilo, São Bento e São Bernardo, travaram longos combates contra as tentações
desordenadas da carne até conseguirem as necessárias virtudes da temperança e da
pureza. Agindo em sintonia com a vontade de Deus, caindo e se levantando, esses
santos nos demonstram que “as almas grandes têm muito em conta as coisas pequenas”.
(São Josemaría Escrivá, Caminho nº 818).
Na vida espiritual, o campo das pequenas coisas é imenso e tão extenso quanto a
própria vida humana, começando pelo cuidado e zelo com tudo aquilo que se refere a
Deus. Dessa maneira, o ato de dobrar os joelhos diante do Santíssimo não é e nunca será
algo trivial, mas, sim, o sinal eficaz de um gesto de adoração, pois “para que haja
virtude, devemos prestar atenção a duas coisas: ao que é feito e ao modo de fazê-lo”.
(São Tomás de Aquino).
Se queremos ser santos, devemos aprender a valorizar as pequenas coisas, pois,
quando estamos unidos ao Cristo, nós percebemos que cinco pães e dois peixes são mais
do que suficientes para alimentar cinco mil homens. Ou seja, Deus realiza maravilhas
em nossas almas quando valorizamos as pequenas coisas, mesmo que seja uma simples
jaculatória, um breve Pai Nosso, um não ao egoísmo e até os cuidados com a beleza e a
simplicidade do Altar. Nada é indiferente aos olhos do Senhor quando estão repletos de
generosidade, de entrega e de oblação.
Se queremos ser santos, não há outro caminho senão a fidelidade às pequenas
coisas, pois nelas habitam a fortaleza, a perseverança e a maturidade da conversão, que
constituem um chamado para prestarmos atenção nos pequenos detalhes e nas ninharias
que precisam ser recolhidas para que nada se perca, comprovando a ação extraordinária
do Cristo no ordinário de nossas vidas.
Dar valor às coisas mais simples, aos pequenos gestos, fazem uma imensa
diferença em termos de espiritualidade, que vai desde fazer o sinal da cruz sem pressa,
rezar um Ângelus sem atropelo, fazer silêncio após a recepção da Sagrada Eucaristia e
não ficar conversando nas proximidades do sacrário. Na fidelidade a essas pequenas
coisas, nós somos desafiados a comprovar que a nossa alma é grande nas virtudes, no
cuidado litúrgico e na correspondência aos dons do Espírito Santo.
Na senda da santificação das pequenas coisas, nós temos que escutar os
conselhos de São Paulo que nos diz: “Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas;
afeiçoai-vos com as coisas modestas”. (Rm 12, 6). Assim, poderemos cantar a certeza
de que “se somos fiéis no pouco, Ele – Deus – nos confiará mais”.

Senhor, ajudai-nos a ser, cada vez mais, generosos e solícitos para Convosco por
meio da fidelidade nas pequenas coisas, a fim de que possamos nos preparar para
realizar as grandes obras, os grandes serviços e os grandes empreendimentos que
reservastes para todos aqueles que testemunham que a perseverança na fé, a conquista
da santidade e a beleza do Evangelho estão alicerçadas nas coisas mais simples.
Senhor, ensinai-nos a sermos grandes, magnânimos, por meio do cuidado das
pequenas coisas, professando sempre que “a erva seca, a flor fenece, mas Deus
permanece eternamente!”. (Is 40,8).

Aloísio Parreiras

2020-07-27T12:01:10-03:0027/07/2020|