BENTO XVI: APÓS UM SINGULAR PONTIFICADO, UMA VIDA CONSAGRADA À ORAÇÃO

Após o sofrimento e a morte do nosso saudoso e amado Papa João Paulo II, o Espírito Santo de Deus escolheu o Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger, o Papa Bento XVI, um corajoso e humilde servidor da vinha do Senhor, para conduzir a Igreja Católica Apostólica Romana, nos primeiros anos do Terceiro Milênio.

Nos oito anos de seu pontificado, 24 de maio de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI uniu em si de um modo admirável o papel de Pastor e de Mestre, pois, com renovado empenho e santidade, por meio de sua voz, com o exemplo e com os seus escritos, ele revelou-nos o caminho seguro da identificação com a Pessoa de Jesus Cristo. Por ser um genuíno cooperador da verdade e para fazer brotarem, aflorarem em nós as fontes da sabedoria cristã, o Papa Bento XVI presenteou-nos com três encíclicas – Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), Spe salvi (30 de novembro de 2007) e Caritas in veritaris (29 de junho de 2009) – e quatro exortações apostólicas – Sacramentum Caritatis (22 de fevereiro de 2007), Verbum Domini (30 de setembro de 2010), Africae munus (19 de novembro de 2011) e Ecclesia in Medio Oriente (14 de setembro de 2014). Ele também nos presenteou com uma belíssima obra sobre Jesus de Nazaré, lançada em três volumes, que permanecerá como uma das obras fundamentais da fé cristã para sucessivas gerações de sacerdotes e leigos.

Por meio de suas publicações, das audiências, dos ângelus e das homilias, nós percebemos que Bento XVI foi um Papa bem preparado, sobretudo em termos teológicos, pois ele foi imensamente capaz de fazer com que a Palavra de Deus penetrasse em nossos corações. Apesar da idade já avançada, Bento XVI fez um grande esforço para ser cada vez mais próximo de todos nós. Para alcançar esse objetivo, ele realizou oito viagens apostólicas fora da Itália; dentre elas, destacamos a viagem a Colônia, na Alemanha, em agosto de 2005; a viagem a Valência, na Espanha, em junho de 2006; e a viagem ao nosso país, de 09 a 14 de maio de 2007, por ocasião da V Conferência Episcopal Latino Americana e do Caribe.

Sentir, ver e ouvir o Papa em nosso próprio país foi uma graça imerecida, um especial afago que Deus nos concedeu. Que grato privilégio foi para todos nós ter o principal representante de Cristo na terra presidindo a celebração de canonização de Santo Antônio de Santana Galvão, o primeiro santo brasileiro! Que especial bênção foi podermos rezar o rosário unidos ao Vigário de Cristo, no Santuário Nacional de Aparecida. Em seu discurso de despedida desta nossa terra de Santa Cruz, carinhosamente ele nos disse: “Ao deixar esta terra abençoada do Brasil, eleva-se na minha alma um hino de ação de graças ao Altíssimo, que me permitiu viver aqui horas intensas e inesquecíveis”.

Intensos e inesquecíveis foram, certamente, estes oito anos do Pontificado do Papa Bento XVI que, com a humildade de um trabalhador da vinha do Senhor e com a ousadia de um destemido cooperador da verdade, soube, como ninguém, calar as críticas dos meios de comunicação que o apresentaram como um homem frio e distante. No calor da fé que nos une, professamos, com entusiasmo, que o Papa Bento XVI, impulsionado pelo fogo impetuoso de um novo Pentecostes, no início do Terceiro Milênio, soube governar a Igreja com sabedoria, sempre nos revelando a face misericordiosa de nosso Senhor Jesus Cristo.

No dia 11 de fevereiro de 2013, dia de Nossa Senhora de Lourdes, dois dias antes da Quarta-Feira de Cinzas e do início dos Exercícios Espirituais da Quaresma para a Cúria romana, em uma surpreendente e histórica decisão, o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia ao pontificado. Antes de manifestar sua resolução, ele disse aos presentes que tomaria uma decisão importantíssima para a vida da Igreja. Naquela ocasião, ele justificou esse ato devido à idade avançada (completaria 86 anos), e, por isso, já não tinha forças para exercer adequadamente o ministério petrino. Naquele dia, ele informou que a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a Sé de Pedro ficaria vacante.

Após o Papa Bento XVI expressar sua renúncia, o Cardeal Angelo Sodano, na época Secretário de Estado do Vaticano, disse: “Estamos incrédulos ante suas palavras. Em nome de todos os cardeais, estamos próximos ao senhor neste momento como o estivemos nestes oito luminosos anos de pontificado”.

No final do anúncio de sua decisão, o Papa Bento XVI afirmou: “Agora, confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus”. Alguns dias depois, em seu último Ângelus, no dia 24 de fevereiro de 2013, o Papa Bento disse: “O Senhor me chama a ‘subir a montanha’ para me dedicar ainda mais à oração”.

No dia 28 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI passou a ser um Papa emérito e, para poder servir a Igreja, por meio da oração, ele se mudou para o Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano. Hoje, temos conhecimento de que, após a eleição de Mario Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, Bento disse a ele: “Santidade, a partir deste momento, prometo minha total obediência e minha oração”.

Logo depois, nós verificamos que os inimigos da unidade da Igreja começaram a levantar rumores, afirmando que a figura de um Papa emérito iria atrapalhar o pontificado do Papa Francisco. Apesar desses rumores, o Papa emérito Bento XVI se manteve fiel à Igreja e ao Papa Francisco, mantendo sempre uma singular humildade, sabedoria e fortaleza. Nas vezes em que quebrou o silêncio, ele o fez para reafirmar sua fidelidade, coerência e discrição.

Na Semana da Páscoa de 2017, o Papa emérito Bento XVI escreveu o prefácio do livro “A força do silêncio”, do cardeal africano Robert Sarah. Neste prefácio, ele nos demonstra o quanto esses anos no mosteiro têm sido fecundos. Ao se referir ao silêncio, ele nos diz: “Quem realmente possui a palavra de Jesus pode ouvir também o seu silêncio, de modo a ser perfeito, de modo a agir por sua palavra e ser conhecido por sua permanência no silêncio”.

Em outubro de 2019, em função dos trabalhos do Sínodo da Amazônia, que constituiu um momento de discussão no seio da Igreja, em que o futuro do sacerdócio católico foi abordado de inúmeras formas, o Papa emérito Bento XVI e o Cardeal Robert Sarah trocaram textos, pensamentos e propostas. O resultado desses diálogos é o livro “Do profundo do nosso coração”, onde nós encontramos uma grande explicação teológica sobre o sacerdócio católico. Entre outros ensinamentos, Bento nos ensina: “No fundamento da situação grave na qual hoje o sacerdócio se encontra, há um defeito metodológico na recepção da Escritura como Palavra de Deus”.

Hoje, dia 16 de abril, o Papa emérito Bento XVI está completando 93 anos de vida e, por isso, hoje é um dia propício de elevarmos nossas orações a Deus em agradecimento pelo pontificado, lições e ensinamentos aprendidos com o Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger. Hoje é um dia especial para agradecermos ao Senhor o testemunho de humildade, de oração e de esperança vivenciados por Bento XVI. Além de nossos votos de parabéns, que devem ser manifestados mediante a oração, hoje, de um modo especial, utilizando as palavras do Papa Francisco, nós podemos afirmar: “Antes de ser um grandíssimo teólogo e mestre da fé, Bento XVI é um homem que realmente acredita e reza; um homem que personifica a santidade; um homem de paz; um homem de Deus! ”.

 

Aloísio Parreiras