COM CRISTO EUCARÍSTICO EM TODO TEMPO E LUGAR

Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o sacramento da Eucaristia na Quinta-Feira Santa, na véspera da Sua Paixão e Morte, em um período de grande insegurança, provações e tribulações para Ele e os Seus discípulos, a fim de que, por meio desse grandioso Sacramento, Ele pudesse permanecer conosco até o fim dos tempos, fazendo presente a força transformadora do Seu amor. Após a ressurreição de Jesus e de Sua ascensão aos céus, a Igreja continuou sofrendo perseguições, dias de noites escuras, onde a virtude da fé foi provada e comprovada. Diante desse cenário, foi no Sublime Sacramento do Altar que os primeiros cristãos encontraram a sabedoria e a fortaleza necessárias para transformarem as dificuldades cotidianas, a fim de perseverarem na comunhão.

Na Didaquê, o catecismo dos primeiros cristãos, nós encontramos a seguinte orientação: “Reúna-se no dia do Senhor para partir o Pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro… Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: ‘Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro porque sou um grande Rei e o Meu Nome é admirável entre as nações”. Essa orientação acerca da celebração da Santa Missa evidencia, diante de nossos olhos, a importância da Eucaristia nas primeiras comunidades cristãs que, mesmo sofrendo perseguições, mesmo tendo que se esconder nas catacumbas, não deixaram de celebrar a Sagrada Comunhão, pois reconheciam a presença real de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas.

Nos primeiros anos da era cristã, no século IV, no ano de 304, na Abitínia, atual Tunísia, o imperador Diocleciano proibiu os cristãos de celebrarem a Eucaristia. Um grupo de cristãos, que se tornaram mártires, se levantou contra essa determinação e responderam aos soldados que os impediam de celebrar a Santa Missa: “Foi sem qualquer temor que celebramos a Ceia do Senhor, porque não se pode deixá-la; é a nossa lei. Não podemos viver sem a Ceia do Senhor, não podemos viver sem o Domingo”. O testemunho desses mártires nos demonstra o valor do mistério Eucarístico, deixando claro que não podemos renunciar à Presença de Cristo entre nós e em nós.

Para celebrar a Eucaristia, a comunidade cristã nunca procurou o isolamento e nunca fez da Igreja uma cidade de portas fechadas e, por isso, a construção das catedrais na Idade Média era um sinal visível da certeza de que Deus é o centro de todas as coisas e, na Santa Missa, Ele está no meio de nós. Mas, antes de edificar as suntuosas catedrais, os fiéis do período medieval tiveram que enfrentar heresias que negavam a presença de Cristo na Sagrada Eucaristia.

No século XI, Berengário de Tours se opusera abertamente ao Mistério do Altar. Segundo ele, a Eucaristia não passava de um pão bento. No século XII, o heresiarca Tanquelmo afirmava que os sacramentos e, sobretudo, a Eucaristia, não possuíam valor algum.  No empenho da defesa da fé, no século XIII, em 1264, o Papa Urbano IV instituiu a Solenidade de Corpus Christi, a fim de espalhar luzes sobre os tempos futuros da Igreja, clareando, ao mesmo tempo, a verdade acerca do Sublime Sacramento do Altar.  Posteriormente, no século XVI, o Sacramento da unidade passou a ser fonte de divisões com o surgimento dos protestantes, que negavam a Presença real de Cristo na Eucaristia. Tempos de novas perseguições e de celeumas na vida da Igreja.

Em todos os períodos da História, na semeadura ou na colheita, a cada novo período histórico, a Sagrada Eucaristia foi sempre o segredo da vida dos cristãos, o Alimento dos fiéis, o Pão da esperança, a Fonte da caridade, a sublime manifestação do infinito amor de Deus para conosco. Diante dessa realidade, podemos afirmar que a força transformadora da Eucaristia atravessa toda a nossa História, os milênios, os séculos e os anos revelando-nos que o cristão não pode servir a Cristo sem estar em comunhão com Cristo, em unidade profunda com o Corpo Místico de Cristo, atualizando a História da Salvação a cada novo momento da História da humanidade.

Contemplando os tempos históricos, podemos até nos questionar: “Que lugar ocupa a Eucaristia em nossa História?” Movidos pela fé eucarística, adquirimos a consciência de que a Eucaristia ocupa a nossa História por inteiro, revelando-nos que não estamos sozinhos nessa caminhada em direção à vida eterna, pois, a cada nova celebração da Santa Missa, a Eucaristia atualiza o Mistério Pascal do Senhor.

Neste tempo contemporâneo da nossa História, mesmo inseridos em uma pandemia, temos que bradar a certeza de que a Eucaristia é o centro da vida dos fiéis, o centro da vida da Igreja, o Coração pulsante do Povo de Deus que faz a Igreja mediante a consagração, a comunhão, a contemplação e a imitação, fazendo-nos perceber que precisamos passar da indiferença para a sensibilidade, do barulho para o silêncio, do temor para a confiança, da pressa para a calma e do egoísmo para a solidariedade.

Graças às gerações dos cristãos que nos precederam, hoje, amanhã e sempre, podemos professar que, no Sacramento da Eucaristia, são irradiados alegrias e tristezas, trabalhos e sonhos, força, determinação e esperança, sinais de festa, de louvor e de ação de graças.

Mesmo separados das primeiras gerações dos cristãos por mais de vinte e um séculos, nós permanecemos unidos na celebração da Santa Missa que, de alguma forma, nos faz voltar ao Cenáculo, no dia da celebração da Última Ceia, abrasando o nosso coração com as Palavras, os gestos e o próprio Corpo de Cristo que merece todo o nosso louvor, zelo, respeito, glorificação, amor e adoração.

Mesmo separados dos cristãos do período medieval por mais de setecentos e cinquenta e sete anos, nós permanecemos unidos no testemunho de que a Festa de Corpus Christi é a Festa do Santíssimo Sacramento, a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo que nos convida a voltar o nosso olhar para o mistério da Eucaristia, o Sublime Sacramento, o Sinal permanente da Presença de Nosso Salvador conosco nos sinais do pão e do vinho consagrados, quer durante a celebração da Santa Missa, quer fora dela.

Corpus Christi é uma convocação urgente para que nos prostremos diante do Cristo, humilde e caminhante, que passa cotidianamente diante de nós, convidando-nos a viver a Eucaristia não como milagre nem como mistério, mas, acima de tudo, como um lugar de encontro com o próprio Deus, a Igreja, o nosso próximo e conosco mesmos.

Corpus Christi é o testemunho público de que “a Eucaristia nos traz o amor fiel do Pai, que cura a nossa orfandade, dá-nos o amor de Jesus, que transformou o sepulcro de ponto de chegada em ponto de partida e da mesma maneira pode inverter as nossas vidas. Infunde-nos o amor do Espírito Santo, que consola, porque nunca nos deixa sozinhos e cura as feridas”. (Papa Francisco, Homilia em 14 de junho de 2020).

Corpus Christi é a feliz comprovação de que, quando participamos da História unidos a Jesus Eucarístico, nós somos promotores de mudanças, de movimentos constantes, de oportunas renovações. Enfim, somos construtores de um mundo novo por meio do anúncio da alegria do Evangelho e pelo aprendizado diuturno da misericórdia.

Que o Corpo e Sangue de Cristo, a Santíssima Eucaristia, o excelso Sacramento da caridade, adorado e dignamente recebido por nós, nos confirme na fé e nos fortaleça na esperança, na fidelidade a Deus e no amor à Igreja. Na Eucaristia, fica conosco Senhor!

Aloísio Parreiras  

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)      

2021-06-02T21:09:59-03:0002/06/2021|