CRER OU NÃO CRER

O nosso mundo atravessa hoje uma grande crise de fé, e, por isso, muitas pessoas acreditam unicamente na tecnologia e no avanço da ciência. Nesta era do computador e da internet, passos importantes foram dados no sentido de diminuir as distâncias e facilitar as comunicações, mas, ao mesmo tempo, Deus foi deixado de lado, tornando-se irrelevante na vida de muitos seres humanos que depositam a sua fé em si mesmos, criando assim um novo humanismo que adota como postura de vida o relativismo, o niilismo e o secularismo. Desse modo, essa pós-modernidade, que nós estamos vivendo, tem se mostrado obscura, vazia e imprecisa.

Nestes últimos anos é visível que o orgulho, a autossuficiência e a cultura do indiferentismo e do descarte estão atingindo o seu ápice. O homem atual não aceita ficar em segundo plano, não valoriza – ou até mesmo despreza – o sagrado, não busca a Deus em seu cotidiano e não admite que existam leis que estejam acima dele. De um algum modo, imitando Adão e Eva, ou os anjos decaídos do Apocalipse, a humanidade atual quer ser como Deus e para isso valoriza uma espiritualidade sem Deus, onde apenas o homem estabelece as regras e as condições para a sua felicidade.

Diante desse panorama sombrio, o questionamento de Cristo é bem pertinente: “Quando o Filho do Homem voltar encontrará fé sobre a terra? ”. (Lc 18,8). A fé é a virtude teologal que Deus nos concede para que possamos aderir e corresponder ao Seu amor. No centro da fé, encontra-se a Pessoa de Cristo, Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação divina. A fé é um itinerário de luz e tem princípio no gesto humilde de reconhecermos que precisamos de salvação, precisamos de um encontro pessoal e intransferível com o nosso Redentor que nos chama a segui-Lo pelo caminho da caridade. Por conseguinte, no meio da obscuridade do mundo, crer é tocar a mão de Deus e assim, no silêncio, escutar a Sua voz, sentir o Seu carinho e ternura e vislumbrar os sinais de Sua misericórdia.

Crer é sempre um desafio, uma ousada proposta e, por isso, quando nos lançamos no campo fértil da fé, aprendemos a dizer: “Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e a terra! ”. (Sl 120, 2). Crer é depositar as nossas vidas nas mãos firmes de Cristo, afirmando, “estamos aqui! Confiando na Tua Palavra, e sem temer, lançaremos as redes do Evangelho”. (Lc 5,5).

“A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem”. (Hb 11,1). A fé é um dom de Deus, mas é também um ato profundamente livre e humano. O ato de fé só é possível pela graça e pelas moções e inspirações do Espírito Santo. Não podemos esquecer que a fé é também um ato profundamente humano. A fé não é automática, nem é concedida de uma vez para sempre; ela tem que ser alimentada todos os dias. Fé é vida, entrega, renovação e, acima de tudo, um encontro transformador com o Senhor. A fé possui estágios e níveis de crescimento e, por isso, devemos buscar os meios oportunos para a sua maturação. Se queremos alcançar a maturidade da fé, nós devemos abrir o nosso coração e suplicar ao Espírito Santo que escancare as portas da nossa alma, para que o Cristo possa entrar, a fim de que não só possamos ouvir, mas também receber a Sua mensagem de salvação.

Ter fé é saber escutar e meditar nos ensinamentos do Profeta Isaías, que nos adverte: “Se não acreditardes, não compreendereis”. (Is 7,9). A fé não é um simples assentimento às verdades reveladas por Deus. A fé é um gesto de obediência, um ato de correspondência, por meio dos quais nós confiamos livremente em um Deus que é Pai e que nos ama. Desse modo, “o início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes; sozinhos, afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas más. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida nunca morre”. (Homilia do Papa Francisco na celebração extraordinária de oração pela pandemia da Covid-19, em 27 de março de 2020).

A Igreja, a mãe da nossa fé, nos ensina que “a perda de fé na Presença Real de Jesus na Eucaristia é o epicentro da crise atual na Igreja, especialmente no Ocidente. (…) A crise profunda que a Igreja tem experimentado, em particular no Ocidente, é fruto do esquecimento de Deus. Se nossa primeira preocupação não é Deus, tudo ao nosso redor entra em colapso. Na raiz de todas as crises – antropológica, política, social, cultural, geopolítica – está o esquecimento do primado de Deus.” (Cardeal Robert Sarah, A noite se aproxima e o dia já declinou).

Para fazer contraponto a essa crise atual da fé, nós devemos proclamar a Palavra de Deus e testemunhá-la com fortaleza e esperança. Ao mesmo tempo, este anúncio deve ser realizado em sintonia com os princípios do Evangelho, com pleno respeito e amor para com o nosso próximo. Quando abrimos o nosso coração à fé, nós percebemos que Deus é Aquele que é, conforme Ele próprio revelou a Moisés. Ele é Amor como nos ensinou o Apóstolo São João. O Ser e o Amor de Deus exprimem inefavelmente a mesma essência divina. Deus é Aquele que, habitando uma luz inacessível, está, por Si mesmo, acima de todo nome, de todas as coisas e de todas as inteligências criadas.

Percorrendo a senda da fé, nós notamos que “é impossível agradar a Deus sem a fé. De fato, quem se aproxima de Deus deve acreditar que Ele existe e que recompensa aqueles que O procuram”. (Hb 11, 6). Nos caminhos da fé, nós somos amparados pela Virgem Santa Maria, a Mãe que viveu a obediência da fé sem reservas. Maria é a Mãe da Igreja e a Mãe da nossa fé, e por isso, nós lhe confiamos o nosso crescimento na fé, rezando a oração elaborada pelo Papa Francisco: “Ajudai, ó Mãe, a nossa fé. Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a Sua chamada. Despertai em nós o desejo de seguir os Seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a Sua promessa. Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo Seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé. Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no Seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer. Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado. Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho. Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor. Amém! ”. (Carta Encíclica Lumen Fidei, n º 60).

Aloísio Parreiras
2020-03-30T15:42:54-03:0030/03/2020|