DEIXA FLORESCER

Em dezembro de 2019, em Wuhan, na China, foi identificada pela primeira vez a
Covid-19, uma doença infecciosa causada pelo novo coronavírus. A quilômetros de
distância da China, não imaginávamos que o vírus chegasse aqui tão cedo. Mas, com
uma rapidez surpreendente, essa doença se espalhou pelo mundo e alcançou o nosso
país no mês de fevereiro deste ano.
Desde então, parece que o mundo parou; passamos a evitar as aglomerações e o
contato social, adotamos o uso das máscaras e do álcool em gel e, de alguma maneira,
parece que perdemos os últimos dias do verão: não vislumbramos, adequadamente, o
outono, e o inverno esfriou ainda mais nessa esperança, congelando o nosso entusiasmo
e criando um iceberg em nossos ideais de futuro.
Para nossa alegria, mesmo diante das dificuldades dessa pandemia, a semente foi
lançada, o solo foi regado, a raiz brotou e se solidificou no bom terreno da fé e, graças a
Deus, a primavera está chegando com uma nova proposta de recomeço e, por isso, é
hora de olhar para dentro de nossos corações e deixar florescer a alegria, o sorriso, a
bondade e tudo o que precisamos para o amor florescer.
Desde o primeiro dia do mês de setembro, a dinâmica do ciclo da vida renovou o
colorido das árvores e das flores e encantou os nossos ouvidos com o belo canto dos
pássaros. Os ipês amarelos, a azálea, o jacarandá, a cerejeira, a dama da noite, a
magnólia e as rosas apresentam um florido singular, belo e novo. Desse modo,
extravasando aromas e cores, as árvores nos brindam com um bônus extra de beleza.
Cada nova flor é a expressão mais viva das plantas, testemunhando que estão adaptadas
ao local e que estarão aptas para se reproduzirem.
A natureza é um dom do Altíssimo, uma graça especial do Senhor e, na estação
da primavera, a natureza é o sinal da presença de Deus em nosso meio. Dessa maneira, a
primavera é a feliz confirmação de que a mensagem de Cristo não é uma mensagem de
morte, mas de vida; não de velhice, mas de novidade; não de tristeza, mas de alegria;
não de desesperança, mas de entusiasmo. Traduzindo: a beleza da primavera nos conduz
ao Criador de toda a beleza e nos faz perceber que devemos viver de Deus e com Deus
sempre, para sermos felizes eternamente junto a Ele.
A pandemia trouxe consigo um novo normal, uma redescoberta da maneira de
viver, quando devemos ter consciência de que estamos cerceados por muitas limitações,
pois a tão esperada vacina ainda não está disponível. Não obstante, a vida continua e
precisamos nos adaptar a essa nova situação.
É claro que sempre haverá o risco de sermos contaminados pelo vírus, mesmo
tomando todos os cuidados possíveis. Então, o que podemos fazer para que a primavera
e a esperança prevaleçam em nossas vidas? Creio que o essencial é cuidarmos da nossa
fé, a fim de que a caridade e a esperança não esmoreçam. Cuidar da fé requer de nós o
esforço contínuo em regar a árvore da vida espiritual com a oração, a meditação das
Sagradas Escrituras e com os sacramentos.

A poesia da estação da primavera é inegável, pois o encanto das flores, dos
pássaros e das abelhas são inspiradores. Por conseguinte, na primavera, todos nós somos
artistas que foram tocados pelos raios de sol que intensificam os diversos matizes com
sua luz dourada que nos incentiva a louvar e glorificar o Senhor pelo alcance de Seu
amor e de Sua misericórdia. Devemos, acima de tudo, adorar o Senhor, em espírito e
verdade, pois o declínio do outono foi superado, a velhice e a esterilidade do inverno
foram vencidas e, neste momento, abre-se diante dos nossos olhos o renascimento, a
juventude e o auge do esplendor da graça.
Se de fato nós queremos que a estação da primavera renove a nossa alma, se de
fato nós queremos ser merecedores da primavera, é fundamental que as raízes da nossa
vida espiritual estejam bem firmes, a fim de que possamos sair de nossos casulos,
despertar do receio e do medo, para que possamos dar mais atenção aos detalhes da
caridade, cultivar solidariedade e companheirismo.
A primavera é a estação da alegria, pois clareia a consciência de que o Senhor
está atento às nossas preces e não nos abandona. A primavera, com suas luzes, cores,
aromas e encantos, é um convite que Deus nos faz, a fim de livrar-nos do pecado,
restituir-nos à Sua amizade, iluminar-nos com a Sua luz e aquecer-nos com o Seu amor,
que é sempre determinante e novo.
Nesta estação do ano, a natureza se torna mais bela do que nunca, vestindo-se de
flores e frutos, de intensos e diversos cheiros e sabores. Diante do esplendor da
primavera, nós somos convidados a refletir na beleza que reina nas almas onde o Cristo
se faz presente. No coração dos seres humanos, onde o Senhor está vivo, existe um belo
jardim onde é cultivado tudo o que há de bom: ternura, humildade, paz, serenidade,
confiança, justiça, sabedoria e amor e, por isso, ali florescem os sonhos, os ideais, os
sorrisos, as esperanças, o zelo e as delicadezas que enfeitam o cotidiano de nossa
História.
O encanto e a sutileza da primavera não serão suficientes para o fim da
pandemia da Covid-19 e não irão nos propiciar o retorno ao normal, mas farão muito
mais do que isso, pois, para aqueles que queiram abrir as portas de suas almas para
acolher os sinais da esperança, a primavera nos convida a adentrar o terreno da fé.
Agindo assim, nós iremos nos encontrar como verdadeiros amigos e irmãos, mesmo que
seja virtualmente, e descobriremos o gosto de comunicar alegrias, boas notícias,
mantendo vivo e espontâneo o nobre desejo do diálogo.
Que a cada novo dia da primavera, ou nesses dias que a antecedem, saibamos
cultivar, regar e cuidar do nosso amor pelo Cristo, para que possamos participar sempre
mais da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua graça e de Suas bênçãos. Dessa
maneira, a primavera desse ano será para todos nós uma merecida parada de
contemplação, a fim de que possamos nos reerguer na certeza de que a tempestade vai
passar, uma nova alvorada vai nascer e a aurora da esperança se transformará em
memória de gratidão ao Senhor que nos carrega em Seus braços, mantendo o nosso
coração em chamas vivas de santidade, onde florescem os lírios da sabedoria e são

declamadas as poesias mais lindas do mundo, expressando por rítmica e rimas que
tocam o fundo da alma a certeza de que, por compaixão, somos salvos pelo Senhor que
nos renova em Seu amor. Primavera, sede bem-vinda e ensinai-nos a florescer nas
searas do Senhor, exalando o ar da atmosfera da graça divina, testemunhando a boa
essência das virtudes e dos valores humanos e cristãos.

Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)