EM SEGREDO

No início da Sua vida pública, Jesus Cristo propôs aos seus discípulos três atitudes fundamentais que nos ajudam, concretamente, em nosso processo de renovação interior: a oração, o jejum e a esmola, frisando que essas práticas devem ser realizadas em segredo.

Ao se referir à oração, Cristo disse aos Apóstolos: “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo”. (Mt 6,6). Em outras palavras: a nossa oração deve ser precedida pela preparação do ambiente, a fim de que seja um tempo propício para o encontro com o Senhor. Nessa preparação, uma condição essencial é fecharmos as portas para as realidades externas, permitindo que o silêncio reine no ambiente e em nossas almas, pois o silêncio é o oxigênio que mantém vivo o nosso diálogo com Deus. Sem o devido silêncio, corremos o risco de perdermos o tempo com muitas coisas, mas deixando de lado o compromisso da oração, a única coisa necessária.

O primeiro passo que devemos realizar no aprendizado da oração é convidar o Cristo a caminhar conosco, permitindo que Ele entre em nossas vidas e em nossos pensamentos, ensinando-nos a permanecer em silêncio e a escutar.  É no silêncio que aprendemos que a oração é um encontro pessoal e decisivo com Cristo, um passo decisivo na construção da santidade e, por isso, não pode ser visto como algo cansativo ou monótono, pois Deus é sempre novo e desafiador.

Rezar, seguramente, exige de nós algumas atitudes básicas: humildade, confiança, determinação e perseverança, mas quando conseguimos adentrar a atmosfera da oração, crescemos na certeza de que “a oração realizada com todas as nossas forças têm muito poder. Transforma um coração amargurado num doce, um triste num alegre, um pobre num rico, um desanimado num destemido, um fraco num forte, um cego em um que vê, um frio num ardente. Leva o grande Deus ao pequeno coração; eleva a alma sedenta a Deus, a fonte da vida, e une dois entes que se amam: Deus e a alma”. (Santa Gertrudes).

Devemos buscar espaço em nossas vidas para o exercício diário da oração. Rezar não é algo acidental, mas é, sim, algo essencial. Muitas tarefas, pessoas, atividades, barulhos e compromissos podem dificultar ou impedir a realização de nossa oração, pois nesses dias em que utilizamos a tecnologia com grande frequência, mesmo trancados em nossos quartos, muitas vezes não estamos completamente sozinhos, estamos sempre conectados. Desse modo, o celular e a internet podem ser empecilhos para o exercício da oração.  Quando, de fato, fechamos a porta do nosso coração para tudo aquilo que nos afasta de Deus, ao mesmo tempo, nós permitimos que o Senhor esteja conosco, realizando em nossas vidas a experiência do perdão e da libertação.

No aprendizado da oração é comum enfrentarmos a tentação de postergar a oração para outro momento ou para o dia de amanhã. Quando isso acontecer, nós temos que recordar que grandes santos travaram verdadeiras batalhas para zelar e manter sua vida de oração em um nível elevado. Foi também por meio da oração que muitos santos vislumbraram as obras, as fundações e as congregações que Deus confiou a eles no serviço da Igreja. Os santos são as testemunhas de que, apesar de nossas limitações, quando rezamos e somos dóceis ao Espírito Santo, Deus faz maravilhas em nós.

Vivenciando um sublime momento de oração, Santa Teresa de Calcutá, a santa dos mais pobres, escreveu: “O fruto do silêncio é a oração. O fruto da oração é a fé. O fruto da fé é o amor. O fruto do amor é o serviço. O fruto do serviço é a paz”. Assim como Teresa de Calcutá, Santa Teresa de Lisieux, São João da Cruz e vários santos, nós, cotidianamente, vivemos uma luta contínua para transformarmos a oração em um bom hábito que nos ajuda a manter o pensamento, o coração e a nossa vida em sintonia com a vontade de Deus. Desse modo, para rezar, nós precisamos vencer o homem velho, acomodado, cansado e ansioso que existe dentro de nós. Agindo assim, nós iremos permitir que o homem novo, ousado e dinâmico prevaleça em nossas decisões, para que possamos perceber que “os segredos de Deus ninguém os conhece a não ser o Espírito de Deus”. (1 Cor 2, 11).

O Espírito Santo é o promotor da oração, e, por isso, a oração é um dom do Divino Paráclito que nos transforma em homens de esperança que mantêm a porta da fé aberta para o nosso próximo. A oração é um sinal de que Cristo se faz presente em nossa História, clareando o nosso cotidiano. Junto de Jesus, aprendemos que a oração não é apenas um dever, é uma necessidade; não é somente um ato formal da religião, é uma participação no diálogo eterno entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Quando alcançamos maturidade na vida de oração, aprendemos a realizar, a pedido de Cristo, jejuns e esmolas, ou seja, penitência e caridade. Para nós, cristãos, a esmola é muito mais do que um ato de cidadania, uma mera atividade de assistência social ou uma simples filantropia, pois é uma expressão irrenunciável do nosso amor a Deus, um exemplo de caridade, virtude teologal que exige a conversão interior ao amor de Cristo e dos irmãos.

A prática da esmola nos ajuda a vencer a incessante tentação do consumismo, de acumular coisas e mais coisas, educando-nos para irmos ao encontro das necessidades dos excluídos, partilhando com eles tudo aquilo que, por bondade divina, possuímos. Desse modo, a esmola educa para a generosidade do amor que nos ajuda a entender que “a primeira pobreza dos povos é não conhecer Cristo”. (Santa Teresa de Calcutá).

Pelo exercício da esmola, nós somos convocados por Deus a oferecermos muito mais do que roupas e objetos sem serventia para nós. Ele nos incentiva a nos oferecer gratuitamente a nós mesmos, pois o que dá valor à esmola é a caridade, que inspira diversas formas de doação e de serviço. Por conseguinte, “se um dos teus irmãos, que mora em alguma de tuas cidades, na terra que o Senhor teu Deus te vai dar, cair na pobreza, não lhe endureças o teu coração nem lhe feches a mão”. (Dt 5, 7).

No Evangelho, Cristo ressalta uma característica fundamental da esmola cristã: deve ficar escondida. “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo”. (Mt 6, 3-4). Ou seja, todo o serviço da caridade que empreendemos em nome de Cristo é para maior glória de Deus. A esmola deve ser realizada longe dos refletores da sociedade midiática, pois de nada serve dar bens, alimentos ou roupas aos outros se o nosso coração se ensoberbece, se enche de orgulho com isso.

A oração e a esmola são práticas de espiritualidade que devem ser renovadas no cotidiano da nossa fé, pois essas duas práticas de ascese nos aproximam de Cristo e nos fazem ver que, em união com Ele, tudo é novo, atual e determinante. Mas o Cristo nos desafia a sermos melhores e, por isso, Ele nos propõe uma terceira atitude: o jejum, ou seja, a penitência.

As Sagradas Escrituras ensinam que o jejum é uma grande ajuda para evitarmos o pecado, o mal e tudo o que a ele induz. O jejum sempre foi vivenciado e ensinado pelos santos de todas as gerações. São Pedro Crisólogo nos ensina que “o jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer, encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica”.

É no combate da oração que nós percebemos que estamos entorpecidos pelo pecado e suas consequências, ou seja, trazemos em nós as marcas das nossas limitações. Se queremos vencer as tentações, nós precisamos dominar o nosso corpo e suas concupiscências. Nessa batalha, o jejum é um grande aliado. Qual é, verdadeiramente, a utilidade do jejum? Santo Agostinho nos responde, afirmando: “Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da Sua doçura”.

O jejum pode e deve ser realizado não só na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão, mas também em todas as sextas-feiras do ano, pois, quando jejuamos, demonstramos para o nosso corpo quem está no comando. “O jejum rigoroso é penitência agradabilíssima a Deus. Mas, ora por esta, ora por aquela razão, temos feito concessões. Não faz mal, muito pelo contrário, que tu, com a aprovação do teu diretor, o pratiques com frequência”. (São Josemaría Escrivá, Caminho nº 231).

O jejum, a esmola e a oração nos reconduzem às únicas três realidades que não se dissipam. A oração nos une a Deus; a esmola, ao próximo e o jejum, a nós mesmos. A oração nos liberta de uma vida horizontal e nos insere na atmosfera do céu. A esmola nos liberta do apego aos bens materiais e ao dinheiro e nos insere no ambiente da oblação e da entrega, onde saciamos não apenas a fome material dos excluídos, mas, sobretudo, a fome mais profunda que sentimos no nosso íntimo: a fome de Deus.  O jejum nos liberta da busca desenfreada do prazer e nos insere no terreno da sacralidade do corpo.

Peçamos à Virgem Santa Maria que nos ajude a realizar as iniciativas da oração, da esmola e do jejum como meios necessários para a nossa perseverança na fé, pois, por meio dessas práticas, na escola de Maria, ao lado da Mãe de Deus e da Igreja, nós reconhecemos que Deus é “o Pai das misericórdias, o Deus de toda consolação”. (2 Cor 1,3).

Aloísio Parreiras

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