EU NÃO TENHO VERGONHA DO EVANGELHO!

         A história do Cristianismo nos demonstra que desde os primeiros séculos, até os dias atuais, é impossível se manter indiferente diante de Jesus Cristo. Temos apenas duas opções: acolhimento ou rejeição. Acolher a Pessoa, o amor e os ensinamentos de Cristo é a melhor opção que podemos fazer na vida, pois Jesus é a verdade dos seres humanos e, por isso, nossa obediência de fé n’Ele deve ser sempre mais o manancial dos valores humanos e cristãos que nos fortalecem no enfrentamento dos problemas que percorrem a nossa existência.

Temos conhecimento de que os Apóstolos e os cristãos da primeira geração tiveram dificuldades em viver a Boa Nova da Salvação, como também a geração dos mártires, a geração dos cruzados, a geração dos europeus (contemporâneos da Revolução Francesa), a geração dos espanhóis da época da Revolução Espanhola e, sobretudo, os cristãos que habitaram os países do bloco socialista, após o término da Segunda Grande Guerra Mundial. A todas essas gerações, as opções propostas eram as mesmas que, hoje, nos são apresentadas: ou assumimos nossa condição de cristãos ou abrimos mão de um compromisso com Jesus Cristo.

Os tempos históricos e suas perseguições foram as mais diversas em suas formas e conteúdo, mas as palavras de São Paulo ao seu discípulo Timóteo sempre foram atuais. Ele nos diz: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria. Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor. Participa comigo no trabalho do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. Ele nos salvou e nos chamou para a santificação”. (2 Tim 1, 79).

Pela leitura e meditação dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, nós percebemos que durante a vida pública de Cristo as perseguições eram frequentes. Pelos relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João, nós notamos que, em muitas situações, “ninguém falava d’Ele abertamente com medo dos judeus”. (Jo 7,13). E o motivo dessa postura era   “que os judeus já haviam combinado que, se alguém reconhecesse a Jesus como o Messias, seria excluído da Sinagoga”. (Jo 9,22). E apesar do medo e das perseguições, “muitos acreditaram n’Ele mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem excluídos da Sinagoga. É que preferiram a glória dos homens à glória de Deus. ” (Jo 12, 42-43).

Com a frequente catequese de Cristo, com o anúncio da Boa Nova da Salvação, os Apóstolos, bem cedo, aprenderam a superar o receio e o medo. Após a Paixão e Ressurreição de Jesus, falar da morte e do poder salvífico de Cristo na cruz era motivo de alegria para os doze apóstolos, mas ao mesmo tempo, era origem e motivo de escândalo para os judeus. E por isso Pedro, João, Tiago, e mesmo Paulo, foram presos inúmeras vezes e pressionados para que não falassem da vitória de Cristo sobre a morte, mas, fiéis à Boa Nova, eles professavam: “Não podemos deixar de dizer o que vimos e ouvimos. ” (At 4,20). E São Paulo, o apóstolo dos gentios, nos deixou esse precioso testemunho: “Eu não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força salvadora de Deus para todo aquele que crê”. (Rm 1,16).

Após vinte e um séculos das perseguições aos apóstolos, o mundo continua criando dificuldades para se acreditar no Amor. Às vezes, parece que tudo é possível, menos se comprometer com a Boa Nova anunciada por Cristo. Fazendo contraponto com as propostas do mundo, Jesus continua nos advertindo: “Quem se envergonhar de Mim e das Minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também dele Se há de envergonhar o Filho do Homem, quando vier na glória de Seu Pai, com os Anjos Santos”. (Mc 8,38). É de suma importância não se esquecer dessa regra de ouro, deixada a nós pelo nosso Redentor: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á”. (Mc 8,35)

Vivemos em um tempo em que parece que tudo deve ser feito para facilitar o prazer, a acomodação e a realização da vontade própria. Nesse contexto, há muitos, até, que falam de um catolicismo cômodo, exigem uma catequese, água de flor de laranja e chegam até ao extremo de criarem um Jesus camarada, chá de rosas bem perfumadas. E se esquecem do principal: não existe um cristianismo sem Cruz. Não existe um Catolicismo sem uma total identificação com o Evangelho de Cristo. Do mesmo modo que não pode haver uma mulher que está grávida pela metade, não existe também um Catolicismo parcial.

Aos jovens solteiros cabe a missão de anunciar:  “Eu vivo um namoro santo porque não me envergonho do Evangelho. É com alegria que eu participo do grupo de jovens da minha Paróquia, dos Movimentos eclesiais e dos serviços da Igreja e não tenho medo de viver e testemunhar a fé aos meus companheiros de juventude, nas múltiplas situações da existência humana, sobretudo nas mais difíceis”.

Aos casais cristãos é incumbida a missão de propagar: “Utilizamos retamente os métodos naturais de contracepção porque não nos envergonhamos do Evangelho e, pela vivência da fé, aprendemos a ser confiantes e corajosos e assim somos capacitados para tomar as iniciativas necessárias para dar um rosto cada vez mais luminoso a nossa terra, a nossa sociedade e a nossa família”.

Aos católicos que são empresários ou possuem cargos de liderança, em empresas públicas ou privadas, é dever de justiça denunciar todas as falcatruas ou corrupções, deixando claro que não nos envergonhamos do Evangelho. Às famílias cristãs cabe o zelo de acolher os anciãos, os doentes, as pessoas com necessidades especiais e todos os filhos enviados por Deus, esclarecendo os reais motivos, ou seja: como membros de uma família católica, nós não nos envergonhamos do Evangelho. É tarefa de todos nós, independentemente de idade, condição social ou econômica, demonstrar com a nossa coerência e testemunho que “nós cremos no Amor que Deus tem por nós! ” (1Jo 4,16).

Viver um catolicismo com as diretrizes traçadas pelo nosso egoísmo é caminhar em direção ao nada, é viver uma vida sem sentido, correndo o sério risco de ouvir do próprio Cristo, no dia do julgamento particular, a seguinte censura: “Nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade”. (Mt 7,23). Por outro lado, quando vivemos em sintonia com a Pessoa de Cristo, abraçando o Evangelho sem reservas e eliminando qualquer manifestação de relativismo, professamos que devemos nos envergonhar do mal, do egoísmo, do pecado, da corrupção e dos atos de desamor, ou seja, devemos nos envergonhar de tudo aquilo que ofende a Deus e ao próximo.

São João Maria Vianney, o Cura D’Ars, nos adverte “que a primeira e principal tentação de todo aquele que se propõe a seguir a Jesus Cristo são os respeitos humanos”. Cedemos aos respeitos humanos quando tememos que os outros nos critiquem, façam chacota de nós ou nos persigam com críticas mordazes porque seguimos o Evangelho de Cristo. Muitos, para evitar essas situações, preferem ficar calados, alheios ou indiferentes aos erros dos outros. E se esquecem de que, todas as vezes em que se calam, o inimigo de Jesus ganha terreno e espalha o joio da discórdia. É preferível ser repudiado pelo mundo do que ser repudiado por Deus. O repúdio do mundo perante a nossa veemente defesa dos valores evangélicos é sinal claro de que estamos sendo fiéis ao projeto de Cristo.

No itinerário da vivência da fé e da santidade, se não cuidamos da formação contínua e da nossa oração, podemos sofrer as tentações do desânimo e da resignação que atingem, principalmente, quem é fraco na fé, quem ainda não sabe diferenciar o mal do bem ou imagina que, diante do mal, nada podemos fazer. No entanto, a história de vida de inúmeros santos é a feliz comprovação de que, quem está solidamente enraizado em Cristo, tem plena confiança em Deus e sabe que o mal, o pecado e o inimigo de Deus já foram vencidos.

Vale a pena relembrar, exaustivamente, que se é difícil viver o Cristianismo, mais difícil ainda é viver sem a presença de Cristo em nossas vidas. E a cada novo ano, ou cada mês, de novo, é necessário se responder aos questionamentos de Santo Agostinho: “Que espécie de amor é o nosso se tememos que Cristo venha? Nós o amamos, e temos medo que venha? Mas, o amamos de verdade? Ou não amamos, por acaso, os nossos pecados mais do que a Cristo? ”.

Que saibamos responder com a voz do coração: Somos cristãos católicos porque somos parte do Corpo Místico de Cristo; somos cristãos católicos porque professamos com nossas vidas, gestos e palavras, que não nos envergonhamos do Evangelho de Cristo. E com naturalidade, ao se vivermos o Cristianismo, sigamos sempre a orientação de São Josemaria Escrivá, que nos diz: “Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração”. (Caminho, n º 1).

 

Aloísio Parreiras

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