FLORES PARA NOSSA SENHORA

As flores foram criadas por Deus no terceiro dia da criação. Naquele dia, Ele determinou: “Produza à terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre à terra”. (Gn 1,11). As flores são vegetais que possuem um determinado ciclo de vida e, quando utilizadas em nossas casas, paróquias e comunidades, deixam o ambiente mais bonito, alegre e cheiroso. Cuidar das flores pode ser uma excelente terapia para quem gosta de jardinagem. Flores desabrocham em lugares inesperados e, até mesmo, em meio às pedras e às dificuldades da natureza, esforçando-se para continuar de pé, embelezando a vida.

A beleza das flores é fonte de inspiração para os artistas. Na imaginação dos escritores, as flores se transformam em belos sentimentos e em frases de incentivo que nos desafiam a contemplar a singularidade dos jardins. Com eles, nós aprendemos que “podemos cortar todas as flores, mas não podemos impedir a primavera de florescer”. (Pablo Neruda). Os escritores também nos desafiam: “Sejamos como a primavera, que renasce cada dia mais bela, exatamente porque nunca são as mesmas flores”. (Clarice Lispector).

As flores expressam sinais de amor, uma delicadeza de ternura e de afago e, por isso, muitas pessoas enviam flores nas datas celebrativas. Em especial, nos dias de aniversário, nas formaturas e no dia do nascimento dos filhos. Em nossas Igrejas, as decorações com flores são muito utilizadas. Elas podem ser encontradas ao redor do Altar na Santa Missa ou na frente de imagens de santos e da Virgem Santa Maria. Em nossas Igrejas, “na sua delicada e perfumada elegância, as flores testemunham a magnificência do Criador”. (Saudação do Papa João Paulo II aos floristas italianos em 24 de novembro de 1979).

As flores comunicam a bondade de Deus para conosco. Penso que deve ser por isso que gostamos tanto de apreciar belos jardins. No jardim da misericórdia, Deus, por ser amor, criou a Virgem Santa Maria, a mais perfeita criatura, a flor por excelência da humanidade que nos revelou os sublimes sinais da revelação do Altíssimo em nossa História.

Maria é uma bela flor com que Deus nos presentou. Ela é a nossa Mãe, a Nossa Senhora, o tabernáculo humilde do Verbo, a Mulher da coragem e da sabedoria que pisou a cabeça da serpente. “Maria é o lugar do encontro do humano e do divino, o ponto de convergência das coordenadas do tempo e da eternidade”. (Papa Bento XVI). Ela é a jovem escolhida pelo Senhor para ser a Mãe do Redentor, a jovem de Nazaré que disse sim aos projetos salvíficos do Altíssimo. Sim, Maria acreditou nas palavras do Senhor, comunicadas pelo Arcanjo São Gabriel. Ela é a Mulher da fé que aceitou tornar-se a Mãe do Messias, inserindo-se profundamente no plano de Deus. Ela é a primeira que comungou, a discípula missionária perfeita.

No jardim da economia da salvação, “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de uma mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos”. (Gl 4, 4-5). Naquele exato momento, Deus assumiu a nossa humanidade para reparar a ofensa cometida pelos primeiros homens e nos comunicar o amor do Pai. Naquele exato momento, graças ao sim da Virgem Maria, flores de júbilo, de alegria e de gratidão germinaram no terreno da Igreja, florescendo a nossa justificação.

Quando adquirimos a consciência da importância de Nossa Senhora no desenvolvimento da História da Salvação, nós sentimos a necessidade de lhe oferecer as mais belas e perfumadas flores. Oferecer flores à Virgem Santa Maria é um gesto de carinho, de admiração e de respeito para com Nossa Senhora que evidencia os sinais da autêntica devoção mariana. Por ser uma singular flor de Deus, com a sua presença, a jovem Maria de Nazaré procurou levar alegria, apoio e consolo à sua prima Isabel, aos noivos de Caná da Galileia, aos Apóstolos reunidos no Cenáculo e a todas as pessoas que, no decorrer dos séculos, percorreram o itinerário da santidade.

Quando se fez presente nas bodas de Caná da Galileia, a Virgem Maria notou que os arranjos de flores faziam parte dos detalhes da decoração do ambiente, embelezando o espaço físico da festa e o buquê da noiva. Mas, naquela celebração festiva, a ausência do vinho seria certamente mais notada que a beleza das flores. Pensando no constrangimento a que os noivos seriam submetidos, Nossa Senhora intercedeu por eles, dizendo ao Cristo: “Eles não têm mais vinho!”. (Jo 2,3). Diante da mediação da Sua Mãe, Cristo realizou o Seu primeiro milagre, dando início à Sua vida pública, antecipando a Sua hora, a fim de manter a beleza das flores e a alegria dos noivos, irradiando os detalhes da mediação de Nossa Senhora em nossas vidas.

Gratidão foi o sentimento que os noivos de Caná da Galileia demonstraram para com a Virgem Maria, pois as pessoas que nos fazem felizes, que nos ajudam a conservar o entusiasmo na senda da fé são os jardineiros que fazem a nossa alma florescer. Gratidão, respeito, carinho e amor são os sentimentos do nosso coração no aprendizado e na vivência da devoção mariana. Quando adentramos a escola de Maria, nós aprendemos que o jardim da nossa vida é composto de boas plantas, belas flores e de ervas daninhas, mas, por ser uma bondosa Mãe, Nossa Senhora nos ajuda a tirar as ervas daninhas, indicando-nos os meios de crescimento e perseverança na santidade.

Com a poderosa ajuda de Nossa Senhora, nós adquirimos a certeza de que devemos regar as flores da humildade, da misericórdia e da fortaleza, a fim de que possamos dar bons frutos no jardim dos nossos corações e depois novas sementes, semeando novas flores de esperança, as amarílis da conversão, as azaleias da mansidão,  as begônias da caridade e as calêndulas do amor perfeito.

Se ouvirmos o conselho de nosso Senhor Jesus Cristo e observarmos a beleza dos lírios do campo, no silêncio da oração, iremos aprender a fazer memória dos belos momentos na fé que vivenciamos na presença da Virgem Maria. Agindo assim, veremos que as flores fazem parte da lembrança de inúmeros bons momentos e das celebrações marianas que marcaram a nossa vida. Quantas vezes coroamos Nossa Senhora? Quantas vezes jogamos perfumadas pétalas de rosas nas imagens da Virgem Maria, cantando com a emoção da fé mariana? Quantas vezes ornamentamos as imagens marianas de nossas casas e paróquias com um belo arranjo de flores?

As flores fazem parte da nossa devoção mariana e, por isso, elas podem transformar um dia comum em uma data especial, um lugar simples e modesto em um lugar de encontro com o mistério de Deus. Tudo isso pode ser observado na aparição de Nossa Senhora em Guadalupe, no México. Naquela ocasião, as flores que cresceram num terreno estéril, no qual só cresciam espinheiros, foram o sinal inequívoco que Nossa Senhora utilizou para demonstrar ao Bispo, Frei Juan de Zumárraga, que fora ela mesma, a Rainha do Céu, que havia pedido ao índio Juan Diego que fosse a ele para solicitar a construção de um templo mariano e, por isso, quando o jovem índio abriu a sua rude capa, o seu manto, conhecido no México como Tilma, apareceu entre as flores a maravilhosa imagem da Senhora de Guadalupe, a Padroeira da América Latina.

No aprendizado da fé, podemos oferecer inúmeras flores à Virgem Santa Maria. O lírio da conquista de um coração puro, as margaridas da serenidade e, acima de tudo, o belo ramalhete de flores do santo Rosário onde percorremos os caminhos de Cristo ao lado de Nossa Senhora. No cuidado dos detalhes da devoção mariana, professamos que as flores da oração, das virtudes e da graça divina se desenvolvem na luz sobrenatural da caridade e no calor celestial que é irradiado pelo sol da Sagrada Comunhão Eucarística.

No caminho da justiça, contemplando as flores, percebemos que elas dependem do sol para manter a sua beleza, a sua força e a sua vitalidade. Admirando as flores, o sol e a lua, louvamos a Maria e adoramos o Cristo, bradando: “Nunca separe Nossa Senhora de Cristo. Não separe a Mãe do Filho. Ela é como a lua. Se o sol se apaga, não a veremos mais”. (Papa Paulo VI ao abençoar a Rosa de Ouro doada para a Basílica de Aparecida). Quem é o sol? Jesus. Vamos até Nossa Senhora para chegarmos a Jesus. Vamos até Nossa Senhora, para que possamos ouvir a sua voz que nos diz: “Ouvi-me, rebentos divinos, desabrochai como roseira plantada à beira das águas; como o Líbano, espargi suave aroma, dai flores como o lírio, exalai perfumes e estendei graciosa folhagem. Entoai cânticos e bendizei ao Senhor nas Suas obras!”. (Eclo 39, 17-19).

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-11-27T12:58:14-03:0027/11/2020|