HÁ SESSENTA ANOS, UMA BRASÍLIA EUCARÍSTICA

Nesses dias em que estamos comemorando e realizando uma memória histórica dos sessenta anos da criação e instalação da Arquidiocese de Brasília, de algum modo nós voltamos a percorrer o caminho de Emaús. Já lá se vão seis décadas, desde quando nossos parentes e familiares, bravos discípulos de Cristo, edificaram, demandaram e povoaram esta nova e planejada cidade prolongando até aqui o caminho de Emaús, com Jesus Eucarístico a servir de rumo, Mestre, Verdade e Referencial.

Tudo começou quando, na segunda metade do século XX, muitos brasileiros das mais diversas regiões do nosso país conversavam sobre suas dificuldades e sonhos. Essa conversa se transformou em um diálogo quando um Peregrino subitamente apareceu e passou a entabular com esses brasileiros uma singular conversa que se referia a novos dias, renovada esperança e à necessidade de doação e de entrega para a construção de melhores dias e singulares oportunidades.

Deixando-se inflamar pelo fogo abrasador que era irradiado pelas Palavras d’Aquele Peregrino, muitos brasileiros assumiram o título de pioneiros e deixaram brotar de seus corações múltiplos gestos de renovada caridade. Sabendo que o projeto da nova Capital não era fruto exclusivo de projetos humanos, os destemidos pioneiros buscaram em Jesus Eucarístico a força necessária para empreender e solidificar o ousado desafio de construir a nova Capital do nosso país em apenas mil dias.

Nesta epopeia, estes destemidos homens sabiam que não estavam sozinhos e, por isso, quando chegou a hora, um grande acontecimento social e religioso foi planejado para unir todos estes brasileiros. Tratava-se da celebração da primeira Missa, que foi realizada no Eixo Monumental, no dia 03 de maio de 1957. Naquele dia, sob o belo céu do Planalto central, os candangos abriram os olhos e reconheceram Jesus, ao partir do Pão.

A partir da celebração desta Santa Missa, com um duplo fogo no coração – o amor por Deus e o desejo de participar da construção de um novo eldorado – os candangos não tiveram mais nenhum receio de bradar de cabeça erguida os sinais do amor ao Sublime Sacramento do Altar.  Desde aquele solene dia, este conhecimento da presença de Cristo em meio a nós foi transmitido de geração em geração, por meio do contínuo trabalho missionário e catequético empreendido pelos sucessores dos Apóstolos que Cristo escolheu e designou para a nova Capital Federal.

Primeiro, a semente da Boa Nova foi lançada por Dom José Newton – primeiro Arcebispo de Brasília. Depois, esta semente foi regada e adubada por Dom José Freire Falcão, por Dom João Braz de Aviz e, nestes anos recentes, o fruto desta semente foi colhido e de novo semeado por Dom Sérgio da Rocha que, agora em junho, irá assumir a Arquidiocese de Salvador, na Bahia.

Dom Sérgio foi para todos nós um bondoso pai, um cuidadoso pastor, um amado bispo que deixou o seu nome inscrito nas memórias da Igreja Católica no Distrito Federal e em nossos corações, principalmente por meio de suas visitas pastorais, pela criação de novos vicariatos, pelas realizações das Assembleias Pastorais Arquidiocesanas e pela sua dedicação ao Reino de Deus.

Para o trabalho de preparo do terreno, de irrigação do solo e do plantio da divina semente, a nossa Arquidiocese, no decorrer dessas seis décadas, contou com a generosa ajuda e o testemunho eucarístico das famílias e das comunidades cristãs que aqui lançaram sólidas e fecundas raízes. O tempo passou, a cidade cresceu e se expandiu, mas, em muitas coisas, permanece ainda como um simples acampamento, uma modesta aldeia.

Hoje, com os olhos da fé, podemos perceber que Brasília é uma cidade eucarística, uma bela, florida e aconchegante estalagem de Emaús, pois aqui adoramos o Santíssimo Sacramento, em espírito e verdade, e já possuímos cento e cinquenta e duas Paróquias. Vivenciamos um espírito de unidade, pois congregamos brasileiros dos diversos Estados, com suas riquezas e peculiaridades, e abrigamos inúmeros estrangeiros das diversas representações diplomáticas. Esta multiplicidade cultural que se faz presente em Brasília desaparece quando nos unimos para adorar o Cristo. Na santidade e na unidade, como autênticos brasilienses ou como brasilienses por opção, aprendemos que nossa Brasília eucarística nos revela que Emaús é recolhimento, Emaús é revelação, Emaús é Comunhão.

Com o coração ardendo pela participação no Corpo dado e no Sangue derramado, os candangos e os seus descendentes sentiram e sentem que não podem viver sem as doces e inquietantes palavras que vêm do Altíssimo, palavras que nos revelam a profundidade do mistério da Sagrada Comunhão.

Dando continuidade ao trabalho dos candangos, dos sacerdotes, dos Bispos, dos religiosos e dos leigos que imprimiram seus nomes na história da Igreja em nossa Arquidiocese – como não recordar aqui os nossos amados Dom Geraldo Ávila, Dom Jésus Rocha, Dom Raimundo Damasceno, Dom Alberto Taveira, Dom Francisco de Paula Vitor, Dom Valdir Mamede, Dom José Aparecido e Dom Marcony Vinícius Ferreira -, nós continuamos percorrendo as periferias do Distrito Federal, testemunhando que a Eucaristia nos impulsiona ao serviço da misericórdia mesmo em meio às tempestades dos dias atuais.

Em cada capela ou paróquia do Distrito Federal, nós podemos perceber que a nossa Arquidiocese é uma casa de portas sempre abertas para acolher quem precisa de descanso, de silêncio e de tempo para reflexão. Todo o território sagrado de nossa Arquidiocese é um crescente fértil eucarístico. Fértil, porque está sendo irrigada pelas orações, ações e testemunhos eucarísticos de adoradores eucarísticos de todos os cantos do Distrito Federal, tornando-se propícia para o apostolado eucarístico.

Diante da percepção e da visão contemplativa desta realidade eucarística em nossa Arquidiocese, como não sentir, em nosso íntimo, um sentimento de louvor e de viva gratidão que se eleva ao Cristo nos nossos corações, por nos permitir percorrer o caminho de Emaús? Como não agradecer a Jesus Eucarístico a graça de sermos membros da Igreja e podermos viver buscando uma maior participação em Sua Palavra e na Eucaristia? Diante desta revelação de amor, nós podemos e devemos abrir os nossos olhos e assim reconhecer no Sublime Sacramento do Altar o Peregrino que continua caminhando conosco, aquecendo as nossas almas e fortificando nossos ideais de serviço ao Seu Reino.

Nestes últimos dias desta nossa contemporânea caminhada de Emaús, estamos atravessando o período das provações, pois fomos surpreendidos pela pandemia da Covid-19. Mas, mesmo diante dessa pandemia que nos levou a um isolamento social e a um afastamento físico que dificulta a nossa presença física na celebração da Santa Missa, nós continuamos unidos na comunhão eucarística, pois a Eucaristia continua sendo celebrada diariamente pelos nossos amados sacerdotes. Para tentar amenizar esse distanciamento, nós estamos acompanhando as celebrações eucarísticas pelas redes sociais, suplicando a Jesus Eucarístico que essa noite escura termine o mais rápido possível, pois estamos certos de que a força do amor de Deus pode renovar essa realidade, segundo o desígnio e o poder divinos.

Mesmo nessa noite escura, nós temos inúmeros motivos para elevar nossos corações a Deus, em ação de graças, por tantas maravilhas que Ele realizou em nossa Arquidiocese nesses 60 anos de sua história. De um modo singular, nós temos que imitar a atitude de Cléofas e do seu companheiro a caminho de Emaús e, com eles, dizer a Jesus vivo e Ressuscitado que se revela no partir do Pão: “Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já declina!” (Lc 24, 29).

Em meio a essas sombras que, de alguma forma, tentam ofuscar a plena Luz, temos que testemunhar com uma reta e autêntica vida eucarística que, na Eucaristia, Jesus Cristo é a nossa força, a nossa esperança, o nosso referencial, o manancial da justiça. Por tudo isso, nunca nos falta o Pão Eucarístico sobre as mesas da nossa existência; nunca nos falta o Pão Eucarístico, no centro das nossas celebrações. E tudo isso é parte constitutiva da missão que Cristo legou a todos nós, habitantes de Brasília, membros e participantes das Paróquias e dos Movimentos eclesiais.

Há sessenta anos, Jesus Eucarístico se juntou aos candangos no esforço e no trabalho de construção da nova e moderna capital. Há sessenta anos, nas diversas localidades do Distrito Federal e, particularmente, em nossas Paróquias, nós somos beneficiados pela variedade de carismas que privilegia toda a nossa Arquidiocese e impulsiona a todos nós a colocar nossas vidas, nossos dons e talentos ao serviço do Cristo Eucarístico, fonte de salvação para todos os seres humanos.

Brasília, terra santa de Emaús, aconchegante lugar de fecunda adoração eucarística, já é uma realidade em nossas vidas. Trabalhar, rezar e se sacrificar pela edificação de novas paróquias e pela expansão da fé eucarística no Distrito Federal é se reconhecer um discípulo de Emaús.

Por ter a consciência de que sou um discípulo de Emaús, eu quero e vou terminar este artigo conclamando a todos os habitantes de Brasília a rezar pela cura dessa pandemia e, em especial, a oferecer sacrifícios e renúncias pelo bispo, que será escolhido pelo Espírito Santo, para  assumir a nossa Arquidiocese, em um breve futuro, a fim de que, sob a sua orientação, continuemos unidos neste trabalho de edificação de uma Brasília eucarística, acolhedora estalagem de Emaús, lugar de diálogo e de recíproco acolhimento, terra de paz, de misericórdia e de perdão. Terra de comunhão, de inclusão e de santificação. Terra de exercício da comensalidade. Terra de encontro com Jesus Eucarístico, nos modernos caminhos de Emaús, onde somos chamados a ser testemunhas credíveis de nosso Senhor Jesus Cristo, que faz novas todas as coisas!

Que nestes dias de celebração pelos sessenta anos de nossa Arquidiocese saibamos testemunhar com o coração em chamas: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). Obrigado Senhor, por ter se juntando a nós, neste longo, imprescindível, sublime e transformador caminho de Emaús!

Aloísio Parreiras
2020-05-30T20:03:12-03:0030/05/2020|