Homilia 11 de junho de 2020

 

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

11 de junho de 2020

(Ano A)

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

A festa do Corpus Christi é inseparável da Quinta-Feira Santa, da Missa in Caena Domini, na qual se celebra solenemente a instituição da Eucaristia. Enquanto na tarde de Quinta-Feira Santa se revive o mistério de Cristo que se oferece a nós no pão partido e no vinho derramado, hoje, na celebração do Corpus Christi, este mesmo mistério é proposto à adoração e à meditação do Povo de Deus. Nesse dia, é costume levar o Santíssimo Sacramento em procissão pelas ruas das cidades e das aldeias, para manifestar que Cristo ressuscitado caminha no meio de nós e nos guia para o Reino do céu. O que Jesus nos doou na intimidade do Cenáculo, hoje desejamos manifestá-lo abertamente, porque o amor de Cristo não está destinado a alguns, mas a todos. Impedem-nos de fazê-lo as circunstâncias de saúde publica de todos bem conhecidas.

 

  1. Não te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair do Egito, da casa da escravidão, (…) e te alimentou no deserto com maná, que teus pais não conheciam”.

O autor do Deuteronômio nos convida, tal como convidou Israel, a refletir sobre os dois grandes prodígios ocorridos na passagem através do deserto, da escravidão do Egito para a árdua liberdade. Trata-se do maná caído do céu e da água que brotou da rocha. Pela pluma do autor sagrado, o Espírito Santo diz: “lembra-te do caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu”. Nessa passagem, o povo peregrino, sem ter como providenciar pão e água com as próprias forças, clamou a Deus. E Deus ouviu o seu povo quando os clamores se uniram ao desejo de fidelidade à Palavra. Então fez jorrar a água da rocha e alimentou o povo com o maná. Na rocha, a Igreja sempre viu Cristo, de cujo lado aberto saíram sangue e água, a fonte dos sacramentos. No maná caído do céu a imagem antecipada dAquele que se proclamou o Pão da Vida, o verdadeiro Pão vivo descido do céu. No meio da aflição, da fome e da sede, o povo inerme clamou e recebeu do céu a resposta para a sua fome e a sua sede.

Nesta passagem, vemos uma parábola da nossa existência cristã. Quando os acontecimentos parecem nos humilhar, quando nos obrigam a perceber a nossa insuficiência, quando a enfermidade e as crises parecem quebrar a nossa esperança, Deus nos ouve, nos sacia, nos alimenta. A dolorosa experiência desse momento da nossa história faz ver que a nossa ciência, embora importante, é insuficiente; que as nossas certezas nos desamparam. Deus vem em nosso auxílio e o Seu auxílio ilumina o sofrimento e lhe dá um sentido redentor; e a passagem por ele adquire um sabor de vitória. Deus caminha com o seu povo, atravessa com ele o deserto.

 

  1. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51).

No Evangelho Jesus vai além. Ele não manda um pão. Ele se proclama o verdadeiro pão vivo descido do céu, assegurando que quem dele se alimenta viverá eternamente. Não se trata de mera alegoria. O seu discurso atinge um tom mais forte de realismo: “o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (ibid.). A tal ponto dos que o seguem se escandalizam e deixam de seguir a Jesus. Ao falar de pão ele alude à ceia, ao falar da carne, e depois também do sangue, alude à oferta na cruz. “Voltemos agora ao gesto de Jesus na Última Ceia. O que aconteceu naquele momento? Quando Ele disse: isto é o meu corpo, que é entregue por vós; isto é o meu sangue, derramado por vós e pela multidão, o que acontece? Neste gesto, Jesus antecipa o acontecimento do Calvário. Por amor, Ele aceita toda a paixão, com a sua dificuldade e a sua violência, até à morte de cruz; aceitando-a deste modo, transforma-a num gesto de doação. Esta é a transformação de que o mundo mais necessita, porque o redime a partir de dentro, abrindo-o às dimensões do Reino dos céus” (Bento XVI, 2011).

Aqui a oblação de Jesus dá sentido aos sofrimentos humanos, que, de condenação se convertem em passagem, páscoa, para uma vida nova: a vida eterna. Que tem seu início e se edifica aqui na história, projetando-se para além da morte. Receber a comunhão é receber sacramentalmente o céu aqui na terra.

Nesse discurso de Jesus narrado pelo discípulo amado, encontramos a identificação entre a carne de Jesus e o pão eucarístico, entre o seu sangue e a verdadeira bebida eucarística. Ele é a fonte da verdadeira vida. Mas Jesus eleva o tom e descortina para os discípulos uma realidade nova: “Este é o pão que desceu do céu. Não como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come deste pão viverá” (v. 58). Alimentar-se deste pão é nutrir-se de eternidade, da comunhão com aquela vida escondida com Cristo em Deus. Tornamo-nos divinae naturae consortes, participantes da vida divina, daquela vida de amor do seio da Trindade Santíssima. Este realismo de Jesus não admite dúvidas sobre a identidade entre o corpo de Jesus e o pão eucarístico.

 

  1. Eis o pão que os anjos comem | transformado em pão dos homens | só os filhos o consomem” (Sequência).

Podemos dizer que tudo parte do coração de Cristo, que na Última Ceia, na vigília da Sua paixão, agradeceu e louvou a Deus e, deste modo, com o poder do Seu amor, transformou o sentido da morte que se estava a aproximar. O fato de que o Sacramento do altar tenha assumido o nome «Eucaristia» — «ação de graças» — expressa precisamente isto: que a conversão da substância do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo é fruto do dom que Cristo fez de si mesmo, dom de um amor mais forte do que a morte, Amor divino que o fez ressuscitar dos mortos. Eis por que a Eucaristia é alimento de vida eterna, Pão da vida. Do coração de Cristo, da sua «oração eucarística» na vigília da paixão, brota aquele dinamismo que transforma a realidade nas suas dimensões cósmica, humana e histórica. Tudo procede de Deus, da onipotência do seu Amor Uno e Trino, encarnado em Jesus. Neste amor está imerso o coração de Cristo; por isso Ele sabe agradecer e louvar a Deus também perante a traição e a violência, e desta forma muda as coisas, as pessoas e o mundo.

Esta conversão – dizia Bento XVI – “é possível graças a uma comunhão mais forte que a divisão, a comunhão do próprio Deus. É bonita e muito eloquente a expressão «receber a comunhão» referida ao gesto de comer o Pão eucarístico. Quando realizamos este gesto, entramos em comunhão com a própria vida de Jesus”. Ouvimos ainda há pouco, na segunda Leitura, aquelas palavras do apóstolo Paulo, dirigidas aos cristãos de Corinto: «O cálice da bênção que benzemos não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão» (1 Cor 10, 16-17). Deus e homem verdadeiro é Jesus realmente presente debaixo das espécies do pão e do vinho. Ao comungarmos, entramos em comunhão com Deus e com os homens. Comungamos com os homens também, com os seus sofrimentos, com as suas alegrias. Entramos em comunhão com Jesus, o bom samaritano enviado pelo Pai para sanar as feridas humanas. Tornamo-nos mais profundamente irmãos de todo homem de toda a mulher. A Comunhão não nos permite ignorar a dignidade humana ferida pelo pecado, pela discórdia, pelas dissensões, pela opressão de um homem por outro… há pecados que bradam aos céus… e com mais gravidade ainda se se trata de cristãos desprezando outros irmãos.

 

  1. Neste contexto em que estamos vivendo, surge imediata a pergunta: como é que se pode ficar privado da comunhão eucarística? Como podemos justamente no momento do sofrimento ficar privados do Pão da Vida? Nós próprios, os pastores de almas, sofremos a dureza dessa limitação imposta às pessoas idosas, às crianças, aos enfermos, aos membros dos grupos de risco. É dolorosa esta limitação, ainda que imposta por razões de saúde. E nos perguntamos: Permitiria o Senhor que a participação na Eucaristia nos fizesse mal à saúde corporal?

É preciso evitar duas simplificações contrárias à fé católica: o fideismo e o racionalismo. A primeira simplificação nos levaria a desprezar a razão humana, que é cintila da sabedoria divina, que nos permite conhecer e investigar a realidade. O racionalismo levaria a menosprezar a experiência da fé, a sua importância na vida do crente que se encontra com a realidade do sofrimento. A Igreja nos ensina que o espírito humano ou voa com as duas asas, ou cai por terra: voa com as asas da fé e da razão. A fé pode ir além das evidências racionais, nunca contra a razão.

Movidos pela fé elevamos súplicas ardentes a Deus para que seja superada a pandemia, rogamos a Deus que volte o Seu olhar misericordioso para os que padecem nos leitos dos hospitais, que ouça o pranto dos que sofrem um luto sem despedidas… Movidos pela razão iluminada pela fé, respeitamos os protocolos sanitários para cumprirmos o quinto preceito do Decálogo: “Não matarás”… nem aos outros nem a nós próprios. Isto poderia ocorrer pela temeridade do descaso com as precauções. Certamente a ciência ainda ignora muitas coisas sobre essa enfermidade. Mas no caso da dúvida, a moral cristã nos ensina respeitar o princípio de prevenção.

É preciso, sobretudo, evitar trazer para o campo da vida eclesial as contraposições que se dão no debate político e ideológico. A nossa família eclesial nasce da Eucaristia, da comunhão entre pessoas, mesmo com posições legitimamente divergentes em campo social, politico, econômico. Uma tal transposição de conflitos para o seio da comunidade cristã nos faria sofrer muito, perder na vida a comunhão que tanto desejamos na celebração da Eucaristia.

A nossa fé no Mistério Eucarístico nos consola. O sacrifício eucarístico é uma memorialis repraesentatio não apenas da Ceia, mas também do sacrifício redentor do Senhor. Não apenas presença real, mas também um sacrifício que nos torna contemporâneos ao Sacrifício do Calvário. Os efeitos do Sacrifício do Calvário se derramam sobre o mundo inteiro cada vez que um sacerdote, com e em nome de toda a Igreja, celebra a Eucaristia, ainda que sem presença de povo. E os frutos da comunhão sacramental podem ser alcançados pelo desejo ardente de receber a Jesus presente no Sacramento. Trata-se da comunhão espiritual.

Hoje esta Eucaristia celebrada, adorada, oferecida no altar da nossa igreja mãe, é oferecida por todos aqueles que estão impedidos de participar. Hoje o nosso coração de pastor se une aos de tantos irmãos que noutras circunstancias estariam aqui ou na Esplanada dos Ministérios pedindo a Cristo Eucarístico que abençoe Brasília e o Brasil.

Hoje também suplicamos a Jesus Eucarístico que vele pela escolha do nosso próximo Arcebispo, de sorte que seja um Pastor segundo o Coração do Bom Pastor.

Que a Virgem Mãe Aparecida interceda por todos nós e nos ensine a ser adoradores em espirito e verdade.

 

+ Dom José Aparecido

2020-08-10T15:47:09-03:0010/08/2020|