Homilia 12-09-2020 – Posse de Dom Giovani em Uruaçu-GO

HOMILIA

Por ocasião da

POSSE DE DOM GIOVANI CARLOS CALDAS BARROCA EM URUAÇU

12 de setembro de 2020

 

 

Veneráveis irmãos no Episcopado,

Querido Dom José Chaves, Bispo emérito de Uruaçu, nosso “Patriarca” aqui presente,

Estimado Dom Giovani, novo Anjo desta Igreja de Uruaçu,

Prezados irmãos padres e diáconos

Irmãos e irmãs da vida consagrada,

Queridos irmãos diocesanos desta Igreja.

 

Todos esperariam hoje uma palavra do novo Bispo, e eu também. Mas como se pode opor resistência ao pedido de um amigo? Aceitei porque houve uma certa insistência, insistência de amigo.

 

Hoje celebramos a missa em que o novo Bispo de Uruaçu toma posse, realizada mediante a Leitura da Bula ou mandato Pontifício e do ato de ocupar a Cátedra. Toma posse de quê? Não toma posse da Diocese, porque a Diocese é uma porção do povo de Deus que pertence a Cristo. Não toma posse de um cargo administrativo. Toma posse do ofício de pastor da Igreja de Uruaçu. Toma posse da Cátedra a partir da qual Cristo vai continuar a falar ao seu povo pelos lábios do Bispo. Toma posse de um ofício de amor. Santo Agostinho lembrava que “apascentar é ofício de amor”. O Bispo toma posse do ofício de apascentar as ovelhas do rebanho de Cristo peregrinas aqui nessa parte do belíssimo estado de Goiás, do povo das cidades que se agrupam na Diocese de Uruaçu. Apascentar é alimentar. Parece-me ouvir Jesus dizendo a Dom Giovani e ao presbitério de Uruaçu o que disse aos discípulos antes da multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”, ou como disse a Pedro após a tríplice confissão de amor: “Apascenta as minhas ovelhas”.

 

  1. Pedro, cheio do Espirito Santo disse: Não existe outro nome pelo qual possamos ser salvos” (At. 4,8.12).

Pedro se dedica a pregar o Nome fora do qual não há salvação. É Jesus, o Senhor, quem nos traz a reconciliação com o Pai e com os irmãos. São Jerônimo dizia que quem ignora as Escrituras, não conhece a Cristo. Por esta razão, Paulo exortava o jovem Timóteo a entregar-se ao cultivo da sua vocação episcopal: “Dedica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te descuides do carisma que está em ti, que te foi dado mediante uma profecia acompanhada da imposição das mãos”.

Leitura, exortação e ensino. Tudo se refere ao Ministério da Palavra próprio do Bispo, ao carisma episcopal recebido pela imposição das mãos. Aliás, o Bispo, ao ser ordenado, recebe com a imposição das mãos também a imposição do livro dos Evangelhos sobre a cabeça. Logo a seguir, sua cabeça é ungida com o Santo Crisma, o óleo da alegria que nos consagra ao ministério. Recebe uma unção espiritual para o anúncio do Evangelho.

Sim, Dom Giovani toma posse da nossa pobreza para nos enriquecer com as insondáveis riquezas de Cristo. Deus havia prometido enviar sobre a terra fome e sede, não de pão nem de água, mas de ouvir a Palavra do Senhor. E acrescenta a profecia que os homens andarão de um mar ao outro procurando com desejo ardente quem lhes dê a Palavra. Hoje, a Igreja de Uruaçu toma posse do Bispo pelo qual está rezando há quase dois anos. Toma posse dele sedenta de ouvir mais e mais a Palavra do Senhor. Toma posse daquele que é Servus Verbi Domini, Servo da Palavra do Senhor.

Ao Bispo se apresentam muitos problemas, muitas dificuldades, muitos dramas para que os resolva. Homem de Deus, ele vai amar o povo que lhe foi confiado. Vai ouvir, vai sofrer com o sofrimento dos aflitos. Mas não deve perder o norte da sua missão de Pastor. Vejamos como se orientaram os Apóstolos quando os cristãos de origem grega se lamentaram contra os hebreus. Eles se queixavam, e justamente, de que as viúvas gregas eram desatendidas na distribuição quotidiana dos bens. E os Apóstolos, após ouvir com coração aberto estas queixas, disseram: “Não é conveniente que deixemos a palavra de Deus para servir as mesas”. Nessa ocasião nasceu o ministério dos diáconos como cooperadores dos Apóstolos na ordem da caridade para servir a mesa dos pobres. E os Apóstolos disseram: “Nós, porém, nos ocuparemos totalmente na oração e no ministério da Palavra” (At. 6,4).

Permita-me, querido irmão Dom Giovani, lembrá-lo de que o seu pastoreio aqui em Uruaçu dependerá de como exerce o ministério da Palavra. Permita-me dizer com confiança de irmão e amigo: você deverá abrir as Escrituras e levar aos irmãos o Evangelho com toda a simplicidade. Nós bispos precisamos ouvir o conselho que Dostojevski, na famosa obra Os Irmãos Karamazov, põe na boca do Monge Zózimo. Diz o Staretz: “Lê a Sagrada Escritura, lê-a em voz alta aos homens, não faças grandes teorias, não digas palavras abstrusas. Deixa que a própria Palavra, com poucas explicações simples, penetre sempre de novo nos corações deles e não tenhas medo que os homens não a compreendam. O coração crente entende tudo”.

É importante que não anunciemos uma teoria sobre a Sagrada Escritura, mas que sempre deixemos que ela fale: assim como ela é, assim como nos foi dada pela Igreja pelo poder do Espirito Santo. É importante que não anunciemos um Jesus “selecionado”, como não raro é reconstruído em fontes que poderiam ou deveriam seguir a Escritura. É importante que anunciemos Aquele que encontramos sempre lá: aquele Jesus inteiro, vivo, autêntico; e que assim O escutemos e assim deixemos que Ele se dirija a nós. Permanecer aos pés de Jesus para ser testemunha comporta escutá-lo, olhar sempre e novamente para Ele, responder-lhe, falar com Ele.

 

  1. Apascentai o rebanho de Deus que vos está confiado, tende cuidado dele, não à força, mas de boa vontade, segundo Deus” (I Pd. 5,2)

No início deste ano, quando os Bispos das dioceses do Regional Centro-Oeste fomos recebidos em Roma pelo Santo Padre, logo no início da conversa, ele nos perguntou: “Quantas horas por dia vocês rezam?”. Ele não perguntou quantos minutos, mas quantas horas. E prosseguiu: “A tarefa mais importante e necessária dos Bispos é a oração”. Parecia aludir às palavras dos Apóstolos ao instituir os diáconos “Nós, porém, nos ocuparemos totalmente na oração e no ministério da Palavra” (At. 6,4).

Efetivamente, o Bispo é chamado a ser o anjo da diocese, que a alimenta com a sua oração. Ele intercede pelas necessidades do povo a ele confiado. Ele celebra os sagrados mistérios recolhendo a oração do povo. A sua oração pessoal se identifica com a oração sacerdotal de Cristo: “Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que me deste para que sejam um, como Nós”, “que eles tenham em Si a plenitude da Minha alegria”, “Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade” (Jo 17). E, por fim, na oração do Bispo deve estar bem claro que ele se oferece ao Pai pelos que o Pai lhe dá: “Por eles – diz Jesus – eu me santifico, para que também sejam santificados na verdade”.

Antes mesmo da pregação da Palavra de Deus, o Bispo é o orante, o sumo sacerdote que não se cansa de pedir a Deus pelo seu povo. Bento XVI dizia que o Bispo “deve ser sobretudo um homem cujo interesse se dirige para Deus, porque só então é que ele se interessa verdadeiramente também pelos homens” (Homilia, 6-I-2013). “O Bispo, como peregrino de Deus, deve ser sobretudo um homem que reza, deve estar em permanente contato interior com Deus; a sua alma deve estar aberta de par em par a Deus. As dificuldades suas e dos outros, bem como as suas alegrias e as dos demais, ele deve levá-las a Deus e assim, a seu modo, estabelecer o contato entre Deus e o mundo na comunhão com Cristo, para que a luz de Cristo brilhe no mundo” (Ibid.).

A escuta da Palavra é, juntamente com a Eucaristia celebrada e partilhada, o coração do seu ministério. Somente quando é ouvinte habitual da Palavra, é que o Bispo se torna pregador da mesma Palavra na fidelidade à fé apostólica. Não tem doutrina própria. É administrador dos tesouros do Evangelho, e o que se espera do administrador é que seja fiel. Na sua pregação e oração, o Bispo leva o povo de Deus a se tornar contemporâneo de Jesus, faz com que o povo fiel se sente na relva das nossas Igrejas para passar as horas do dia a escutar as palavras de Salvação que saem dos lábios do Verbo encarnado. Mais do que só contemporâneo, íntimo de Deus. Pela pregação e pelo testemunho de oração do Bispo, o povo de Deus peregrino nesta Igreja de Uruaçu, se sentirá chamado a entrar na casa de Deus e a viver na intimidade com o Senhor como familiares seus (Santo Hilário).

Aqui em Uruaçu, Dom Giovani, você encontra uma Igreja viva, com ardente desejo de viver como familiares de Deus. Encontra um clero cheio de zelo pastoral. Aqui encontrará comunidades florescentes, atentas às necessidades uns dos outros. Gente que, movida pela fé, como verdadeiros cidadãos da Cidade de Deus, sabe compartilhar com os demais os destinos da Cidade dos Homens. Gente apaixonada pela vida pública. Encontrará sofrimentos e problemas que precisam da sua oração e cuja solução requer a luz do Evangelho.

Bento XVI dirigindo-se a quatro sacerdotes que estavam para ser ordenados bispos, disse em 2013: “Quem é o Bispo? Podemos dizer: deve ser sobretudo um homem cujo interesse se dirige para Deus, porque só então é que ele se interessa verdadeiramente também pelos homens. E, vice-versa, podemos dizer: um Bispo deve ser um homem que tem a peito os outros homens, que se deixa tocar pelas vicissitudes humanas. Deve ser um homem para os outros; mas só poderá sê-lo realmente, se for um homem conquistado por Deus: se, para ele, a inquietação por Deus se tornou uma inquietação pela sua criatura, o homem”.

 

III.      “Pedro, tu me amas? Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo!Apascenta as minhas ovelhas

Apascentar, além de alimentar, é ser homem da comunhão. Na Eucaristia, que faz a Igreja, encontramos a fonte e o cume de toda a vida da Igreja. Nela encontra o Bispo a sua mais cara consolação. Conforto no momento da Cruz. Alegria no tempo da desolação e do sofrimento. Força no tempo da fragilidade. Sempre o Pão Vivo descido do Céu que nos alimenta no caminho para Deus, no caminho entre os irmãos que marcham para o céu entre as vicissitudes da história.

Apascentar é oficio de amor, dizia Agostinho comentando esta passagem do Evangelho hoje proclamada. Já aludimos a ela. Apascentar é oficio de amor a esta Igreja com a sua história.

Se falamos na história, não podemos esquecer a imensa ação missionária de Dom Francisco Prada, claretiano que se entregou à formação da Diocese e a uma intensa ação pastoral. Seu sucessor, o querido Dom José Chaves, valente e sincero pastor que não poupou esforços para formar sacerdotes zelosos e dedicados, deixando um legado que até hoje dá frutos. Enfim, a passagem de Dom Messias por Uruaçu, com a sua afabilidade e proximidade. A memória desses pastores do povo de Deus traz as marcas da ação de Cristo Bom Pastor na sua Grei. Que o Bom Pastor os recompense cumulando-os de graça sobre graça.

Esta Igreja, querido Dom Giovani, o acolhe de braços abertos, quer ser amada na sua história e nas expectativas de futuro. Conta com a sua fidelidade generosa e atuante, deseja viver um novo ardor missionário, em que clérigos e leigos, cada qual com os dons e carismas e segundo o próprio estado, se sintam comprometidos na mesma e única missão da Igreja sob a sua guia. Cuide com amor desta Igreja, incentive as vocações ao sagrado ministério; acompanhe com amor paterno e fraterno os seus padres; sustente com a oração e a ação pastoral a solidez das famílias; reconheça os dons e carismas que rejuvenescem a Igreja; seja apóstolo da misericórdia, incentivando o sacramento do perdão; olhe com amor para os pobres e desamparados, para os doentes e os desempregados, para as pessoas que tiveram nesses tempos a dor do luto sem despedidas. Olhe com amor para as ovelhas desgarradas do rebanho de Cristo e aqueles que O ignoram por completo. Lembre-se de que, para nós, como dizia São Josemaría, “de cem almas nos interessam todas as cem”: ninguém pode ser ignorado pelo coração de pastor do Bispo de Uruaçu.

Sim, o pastor deve carregar o cheiro das ovelhas  para diante do altar da Eucaristia. Mas também deve levar o “bonus odor Christi” o suave perfume de Cristo para aliviar as ovelhas com os frutos da Eucaristia e dos demais sacramentos.

Queridos irmãos do clero e do povo de Uruaçu, hoje esta Diocese pode cantar com uma entonação carregada de especial júbilo: “Benedictus qui venit in nomine Domini – Bendito aquele que vem em nome do Senhor”, enquanto rezamos para que ao zelo do pastor corresponda a obediência das ovelhas.

Quero deixar o meu testemunho fraterno de que nós de Brasília sentiremos falta do Padre Giovani que tanto bem fez no seu longo ministério paroquial. Mas ficamos felizes porque o nosso Padre Giovani se tornou o Dom Giovani de Uruaçu. E Uruaçu, que recebe tão bem o seu Bispo, é uma Igreja generosa: do seu clero já deu bispos à Igreja do Centro Oeste.

Que a Senhora Sant’Ana, padroeira de Goiás e desta Catedral, juntamente com a Virgem Mãe de Deus intercedam junto a Deus para que este novo tempo, sob o pastoreio de Dom Giovani seja fecundo em frutos apostólicos e de santidade para esta Igreja.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

 

+ Dom José Aparecido, Administrador Diocesano da Arquidiocese de Brasília.

2020-09-21T11:16:22-03:0021/09/2020|