Homilia 19-09-2020 – Ordenação diaconal de Raimundo Nonato

Ordenação Diaconal

Raimundo Nonato Oliveira Coêlho Filho

 

Venerados irmãos no Sagrado Ministério,

Reverendíssimo e estimado Mons. Jamil, Pároco nosso amável anfitrião,

Reverendíssimo Pe. Eduardo Peters, Reitor do Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima

Prezadas irmãs e irmãos da vida consagrada

Queridos familiares do nosso ordinando

Queridos sr. Raimundo Nonato e dona Adilsa,

Amado povo de Deus aqui presente,

Querido Raimundo Nonato Filho.

           

Hoje a Igreja de Brasília volta a se alegrar pela consagração de mais um filho seu ao sagrado ministério, no grau do diaconado, em preparação para o sacerdócio. Deixemos que sejam a Palavra de Deus e as orações deste sagrado rito a nos guiarem nesta liturgia solene e simples, como são as coisas de Deus. Aproximemo-nos com santo temor e piedade filial das coisas santas que estamos celebrando. Retomemos a Palavra que acabamos de ouvir.

 

  1. Ambos desceram à água, Filipe e o eunuco, e Filipe batizou-o” (At. 8,38).

Após a decisão tomada pelos Apóstolos de orar e impor as mãos sobre “sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At. 6,3) para o serviço à mesa dos pobres enquanto os Doze continuariam a entregar-se “assiduamente à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,5), Estevão sofreu o martírio pela pregação da Palavra e Filipe saiu para a Samaria para anunciar a Boa-Nova. O serviço à mesa dos pobres não se opunha, nem se opõe hoje, à pregação franca e corajosa da Palavra de Salvação, vocação de todos os fiéis, mas de modo especial, dos ministros ordenados.

Para isto fomos chamados desde antes da fundação do mundo pelo Deus rico em misericórdia. Ele, de fato, nos escolheu e separou a cada um de nós para nos colocar hoje ao serviço da mesa da Palavra e do Altar do Santo Sacrifício mediante uma nova efusão do Espírito Santo. Este dom da nossa vocação é bênção para toda a Santa Igreja, a Esposa de Cristo, nossa Mãe em cujo seio fomos gerados a uma vida nova pelo Batismo.

Se é verdade que os dons do Espírito Santo são derramados sobre este nosso irmão, Raimundo, para “exercer com fidelidade o seu ministério” é igualmente verdade que esse ministério, que os conforma a Cristo de um modo novo, lhe é conferido e será exercido em favor da Santa Igreja de Deus. A humildade própria de quem veio “para servir e não para ser servido” não deve esconder o ardor da fé e da caridade que cada ação e cada oração do nosso eleito significarão para o Povo de Deus. O mesmo Espírito de Deus que inspirou os profetas, continua a dizer hoje ao coração do Raimundo: “a todos a quem eu te enviar, irás” (Jer. 1, 7). A Filipe, o próprio anjo do Senhor lhe disse: “Põe-te a caminho e dirige-te para o Sul” (At. 8,26). E ele partiu em direção a Jerusalém, a Cidade Santa, lá onde se oferecia o Sacrifício antigo e onde Cristo se imolou, por nós homens e para a nossa salvação.

A oração consecratória dos diáconos invoca o bom Deus, que na primeira aliança separou tribo de Levi para honrá-lo devidamente na Sua Santa Habitação, para louvá-lo de modo digno da sua Shekinah. Dos levitas o Espírito Santo disse que “Entregarás os levitas a Aarão e a seus filhos, como dádiva dentre os filhos de Israel” (Num. 3, 9).

Ao Seu eleito, hoje como outrora, o Senhor concede a alegria de viver nos átrios de Sua casa. Mas a Filipe, antes de chegar aos átrios do Senhor onde se oferecia o sacrifício, Deus põe no Seu caminho um eunuco etíope desejoso de conhecer a Palavra. Filipe prega, anuncia a Boa-Nova, batiza o eunuco invocando sobre ele o nome de Deus.

Aos diáconos Deus lhes concede a graça invocá-l’O com a mesma intimidade com que o Verbo Encarnado nos ensinou a clamar Abbá – Pai. A fidelidade brotará no coração deste diácono como confiança nas tribulações, como certeza do amor de Deus na hora do sofrimento, como fonte permanente de esperança.

Também na Nova Aliança, no coração da Igreja nascente, aprouve a Deus oferecer ao povo resgatado pelo Sangue do Redentor o dom do diaconado, como sinal sacramental da diakonia de Cristo. Àqueles sete homens de boa reputação, como dizíamos pouco antes, confiou-lhes “a distribuição dos alimentos, pela oração e imposição das mãos, a fim de que eles próprios pudessem dedicar-se mais à oração e à pregação da palavra” (Da Prex ordinationis). Foram assim consagrados à urgência da caridade no serviço da mesa dos pobres. Se a pobreza material impele, mais ainda urge a caridade de Cristo ao anúncio da Boa-Nova. Dentre os Sete nasceu para o céu o Protomártir Estêvão, não apenas por ter dado pão aos pobres, mas sobretudo por ter servido em abundância e com audácia aos que perseguiam a Igreja o Pão da Palavra, o anúncio do mistério Pascal. Em seguida, movido pelo Espírito, Filipe – no-lo recorda a segunda leitura – explicou as Escrituras ao eunuco etíope, apontando-lhe Cristo, Cordeiro imolado, como fonte das águas batismais que encheriam o Eunuco etíope da alegria pascal. Batizado, o eunuco já não era mais estéril: ele pode levar para a sua Etiópia a fecundidade e a alegria do Evangelho.

O nosso eleito para o diaconado é, como bem sabemos, destinado ao ministério sacerdotal. Como presbítero unido ao bispo, a graça própria da ordem diaconal nunca o deixará. A vocação ao serviço da palavra e da caridade o disporá sempre a gerar frutos que permaneçam para a vida eterna. Esta sublime vocação de humilde servo será abraçada, mas não suprimida pelo seguinte grau da ordem. Um presbítero que não é diácono, deixa de ser sinal eficaz da presença de Cristo que, sendo bom Pastor, veio para servir e dar a vida por muitos.

 

  1. Irmãos, não desanimamos no exercício deste ministério que recebemos da misericórdia divina” (2Cor 4,1)

Irmãos caríssimos, hoje a misericórdia divina toma este nosso irmão Raimundo para Si, e o dá aos Sucessores dos Apóstolos e aos seus cooperadores como preciosa dádiva dentre os filhos do novo Israel. Nessa consagração a Deus mediante a ordem diaconal, continuarão a morrer para os muitos projetos que poderiam legitimamente fazer na sociedade humana. Entregam-se de corpo e alma à caridade de Cristo que os impele a servir os pobres, a anunciar o Evangelho, a prestar um culto de agradável odor a Deus no altar e nos serviços a eles confiados pela Igreja. Prossegue a beber das águas límpidas do Espírito Santo para servir a Igreja como a Igreja quer ser servida, onde quer que seja enviado. Anunciará a Palavra, servirá a Mesa eucarística com os presbíteros e o bispo. Enriquecido pela multiforme graça de Deus, o novo diácono servirá como administrador fiel a todos os irmãos, com o mesmo amor e ardor apostólico, sem fazer acepção de pessoas ou de carismas, daqueles carismas que rejuvenescem a Igreja. Em sua vida realizará as palavras do Apóstolo: “Rejeitamos todo procedimento dissimulado e indigno, feito de astúcias, e não falsificaremos a Palavra de Deus. (…) não pregamos a nós mesmos, pregamos a Jesus Cristo, o Senhor” (2Cor 4,2.5). Será servo da Palavra, sem nunca instrumentalizá-la em favor de nenhum interesse venal ou ideológico.

Por ele nós não deixaremos de rezar cada dia, para que seja fiel ao santo serviço para o qual hoje é consagrado com a especial efusão do Espírito Santo.

 

III.      “Se alguém quer me servir, siga-me; e onde eu estou estará também o meu servo” (Jo 12,26).

Querido Raimundo, hoje a Igreja se alegra, e se coloca em oração por você, invocando a comunhão dos Santos, unindo-se à liturgia celeste, e suplicando os dons do Espírito Santo. E o que lhe pede hoje a Igreja? Pede-lhe que viva um amor indefectível à Altíssimo Bom Senhor Deus. Nossa Mãe Igreja pede-lhe uma completa entrega à vida casta para viver com coração indiviso a fraternidade a que nos chama o Evangelho. A Esposa de Cristo o chama a seguir Jesus, Servo de Iahweh, que se fez obediente até à morte e morte de cruz e cujo único alimento é cumprir a vontade do Pai, para saborear aquela gloriosa liberdade de filhos de Deus. Numa palavra, o que se espera de você é que ame a Santa Igreja com coração puro e corpo casto, que sirva o povo de Deus com ardente elã missionário; que leve ao altar o cheiro das ovelhas e que leve às ovelhas o bonus odor Christi, o suave perfume de Cristo.

Se é por graça que somos escolhidos, e a graça nos dá tudo, a Santa Igreja lhe pede que se abra à ação do Espírito Santo para que, em você, resplandeçam as virtudes evangélicas. Em nome da Igreja, suplicarei que em você brilhe o rosto de Cristo servidor, “o amor sincero, a solicitude para com os enfermos e os pobres, a autoridade discreta, a simplicidade de coração e uma vida segundo o Espírito” (da Prex ordinationis). Na sua conduta se refletirá a beleza dos mandamentos, que despertará no povo de Deus o desejo de viver para Ele. Sobre você virá o Espírito de discernimento de modo que, guiando-se por uma consciência reta, permaneça firme e estável no Cristo.

Para bem cumprir a sua missão, eu o exorto a dedicar todos os dias algum tempo a aprofundar nas questões que concernem à fé e à moral, tendo como fonte de leitura, ao lado das Escrituras Santas, o Catecismo da Igreja Católica e o Compêndio da Doutrina Social da |Igreja, como nos recomendou o Santo Padre. Reze fielmente a Liturgia das Horas, dando voz à oração que a Igreja eleva ao Céu em nome de toda a humanidade. Seja um adorador em espírito e verdade frequentemente prosternado diante do Santíssimo Sacramento, seja um homem verdadeiramente eucarístico. Peça a graça de tratar sempre com amor e reverência as coisas santas, mesmo as mais materiais, como os cálices, as âmbulas, etc., pela sua relação com o Corpo e o Sangue do Senhor.

*  *  *

E a Vós, ó Mãe Aparecida, vos suplico com filial confiança que não falte a vossa intercessão por este filho que hoje vos consagramos, que consagramos ao serviço do vosso amado Filho. Velai sobre ele com a vossa maternal intercessão. Resplandeça no seu ministério, ó Santa Mãe, a devoção e o amor filial que vos tem. Mãe amorosa da Igreja, vós que fostes concebida sem a mácula do pecado original, sede para ele modelo de pureza e de entrega. Rogai para que chegue a viver cada dia mais profundamente a vida escondida com Cristo em Deus e ensinai-lhe a estar convosco de pé junto à Cruz. De vós, ó Mãe Imaculada, aprenda a abrir os corações à ação e aos dons do Espírito Santo.

            Vós que sois Mãe de misericórdia, educai o coração desses filhos a ser misericordiosos como o Pai. Sejam sinais luminosos que apontam sempre para as portas da misericórdia.

            Mãe Santíssima, sede espelho de amor à infância desvalida, de libertação de toda escravidão, de humilde quebrantadora dos corações arrogantes, de presença permanente na casa dos simples e dos pequenos.

            Mãe e Senhora nossa, renovamos nossa filial consagração ao vosso Imaculado Coração para que, no fim da nossa peregrinação terrena, possamos ser chamados pelo Senhor com aquelas doces palavras do Evangelho: Servo bom e fiel, entra para a alegria do teu Senhor. Assim seja.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

+ Dom José Aparecido, Administrador Diocesano da Arquidiocese de Brasília.

 

2020-09-21T11:06:39-03:0021/09/2020|