Homilia – 25/10/2020 – XXX Domingo do Tempo Comum

 

Prezados irmãos no Senhor.

Hoje o Senhor nos dá o resumo de toda a Lei e dos Profetas: o amor a Deus e ao próximo. E no mistério eucarístico nos encontramos a saborear o amor a Deus na adoração ao Divino Redentor que se apresenta nos dons consagrados e na comum participação nos frutos do Sagrado Banquete. O amor de Cristo é derramado na intima comunhão com ele e na fraterna comunhão com os irmãos, com os presentes e com os desejosos de acolher os frutos da redenção.

É de amor que se trata!

É o amor de Deus que aqui nos traz, porque é um amor exigente, contemplativo, de verdadeiros adoradores em Espírito e verdade. É um amor exigente, de discipulado, de consagração ao Verbo de Deus Encarnado e às Santas Palavras com que o Verbo se expressa nas Escrituras e na vida dos que Ele mesmo escolhe, separa, chama a Si e envia em missão. É um amor exigente que não se confunde com bons sentimentos, nem com uma relação meramente formal com o Senhor. É um amor que se realiza numa comunidade santa e santificadora, em que as relações humanas são impregnadas de sentido divino. Numa comunidade que vai além da própria organização interna para alcançar os que ainda não conhecem Jesus, o Príncipe da Paz.

Os que se apresentam para a este Sacrum Convivium, a este Sagrado Banquete, são aqueles que acolhem o chamamento de Deus. E ao acolhê-lo, respondem confiantes com as Palavras de Isaías que inspiram este Mês das Missões: “Eis-me aqui, Senhor. Envia-me” (Is. 6,8). E ao responder desse modo ao bom Deus, deixam apegos de todo tipo para ser discípulos missionários, cada qual de acordo com a própria vocação. Quem entrega com confiança sua vida nas mãos de Deus pode dizer que “A vida é missão”. Missão que se reveste de formas ordenadas pela obediência apostólica, à imitação de Cristo que por nós “se fez obediente até à morte e morte de Cruz” (Fil. 2, ). Quem se entrega sabe que encontrará na Cruz quotidiana a paz que levará à glória, porque tem diante dos olhos Aquele que por sua obediência foi exaltado pelo Pai das misericórdias e diante do qual todo o joelho se dobra em adoração.

Irmãos, abramos o coração de par em par para os ensinamentos da Palavra de Deus oferecidos pela hodierna Liturgia sobre o amor de Deus que nos impele à entrega de amor à vontade de Deus. Neste trigésimo Dia do Senhor do Tempo Comum, a Mãe Igreja oferece à nossa meditação a lembrança de que plenitude da Lei – como, aliás, de todas as Escrituras Sagradas – é o amor: “Dilectio plenitudo Legis”. Percorramos com abertura os passos assinalados pela Mesa da Palavra para recolher os seus frutos na Eucaristia.

Na primeira Leitura (Ex 22,20-26), a Palavra de Deus une à exigência de tratar com dignidade o estrangeiro e de não fazer mal ao órfão e à viúva, a promessa de dar a justa punição aos que os oprimem desprezando a Palavra. Logo a seguir, acrescenta o dever de solidariedade para com o próximo como sinal de pertença ao seu povo. Nesse contexto aparece bem claro que os preceitos da Lei sobre convivência entre os eleitos são expressão do verdadeiro culto de amor a Deus e da obediência à Sua santa vontade. E quando os mais fracos e vulneráveis se tornam vítima opressão social ou espiritual, quando perdem a resistência e suplicam o socorro divino, o seu clamor toca as entranhas de misericórdia do Deus justo e bom: “Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Ex 22,26). O amor de Deus se expressa em misericórdia. E Ele, não quer de nossa parte outra resposta que não seja a misericórdia para com os irmãos. Não quero sacrifício mas misericórdia.

A fé de Israel no Deus justo e misericordioso se expressa na universalidade do amor, que não se limita aos membros da mesma família, da tribo ou do povo eleito, mas alcança também o estrangeiro. Na Nova Aliança, isto já não aparecerá como exceção pois para nós já não existem estrangeiros: há apenas irmãos. Irmãos que foram gerados pelas águas do Batismo e outros irmãos que ainda não pertencem a este redil, para quem o anúncio da Boa-Nova deve preparar banho de água viva.

Mais adiante, o Salmista nos ensina que o clamor do pobre se traduz em oração de confiança: “Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação, minha rocha, meu refúgio e salvador” (Sl 17,2-3). Quantas vezes, no nosso apostolado, ao visitar os mais pobres, não nos admiramos com o testemunho de uma confiança sobrenatural e inabalável na misericórdia de Deus. Por outro lado, em outros ambientes, esta confiança, às vezes, se esvai no aburguesamento provocado por uma vida mais cômoda, dissipada na preguiça daqueles a quem nada falta. Quem se entrega a Deus rejeita qualquer aburguesamento, a tentação da modorra e da poltroneria, rejeita como tentação diabólica qualquer forma de conformismo. Rechaça a preguiça espiritual, a acídia que enfraquece a alma e desvigora o energia apostólica. Não há lugar para isso entre nós.

Quem nos dá remédio e prevenção para este tipo de enfermidade espiritual é a Palavra do Senhor, a Santa Lei. A Igreja nos ensina através do Concílio Vaticano II a nossa fragilidade  impõe uma necessidade da Palavra na nossa vida. “É necessário – afirmaram os Padres Conciliares – que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” (Dei Verbum 22), às Santas Palavras, para que encontrem a Verdade e cresçam no amor autêntico. A Palavra ilumina o intelecto com os dons da ciência e da sabedoria. A Palavra dá ardor ao coração e robustece a vontade com os dons do amor e da fortaleza que levam à perseverança na missão e no caminho de santidade. “Sede bom com vosso servo, e viverá, e guardarei vossa Palavra, ó Senhor. Abri os meus olhos e então contemplarei as maravilhas que encerra a Vossa Lei!” (Sl 118, 17-18)

Este amor, que é a plenitude da Lei, se exprime em dois atos indissociáveis, cuja harmonia é bem ilustrada pelo grande Doutor da Igreja, Santo Agostinho. O primeiro ato, que tem precedência na ordem do princípio, é o culto de adoração a Deus: “amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22,34-40). O segundo ato, que se expressa nas obras de misericórdia e tem a precedência na ordem da prática, é o amor ao próximo: “O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Para quem encontrou o caminho da graça de Deus e tem sua vida impregnada pelo Evangelho, para quem tem fé, as obras de misericórdia não se reduzem a mera filantropia sem raiz sobrenatural, são um ato de amor que São Vicente de Paulo não teme identificar com a adoração a Deus. Dizia ele: “Deve-se preferir o serviço dos pobres a tudo o mais e prestá-lo sem demora. Se na hora da oração for necessário dar remédio ou auxílio a algum pobre, ide tranquilos oferecendo a Deus esta ação como se estivésseis em oração. Não vos perturbeis com angústia ou medo de estar pecando por causa do abandono da oração em favor do serviço dos pobres. Deus não é desprezado, se por causa de Deus dele nos afastarmos, quer dizer, interrompermos a obra de Deus para realizá-la de outro modo. Portanto, prossegue o santo, ao abandonardes a oração, a fim de socorrer algum pobre, isto mesmo vos lembrará que o serviço é prestado a Deus. Pois a caridade é maior do que quaisquer regras, que, além do mais, devem tender todas a ela. E como a caridade é uma grande dama, faz-se necessário cumprir o que ordena”. Diz mais ainda: “prestemos com renovado ardor o nosso serviço aos pobres; de modo particular aos abandonados, indo mesmo à sua procura, pois (os pobres) nos foram dados como senhores e protetores” (Correspondance, Entretiens, Documents).

Sim, a plenitude da Lei é o amor. E este amor traz ao coração humano uma alegria inigualável, compatível com o mistério da Cruz. Paulo diz aos Tessalonicenses: “E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito, apesar de tantas tribulações” (I Tes 1,6). Esta alegria exige, portanto, um conhecimento mais íntimo de Cristo e uma escuta sempre dócil de Sua Palavra, que dá pleno sentido à vida.

Por isso, irmãs muito estimadas e prezados irmãos que hoje se apresentam tomar parte neste Sagrado Banquete: não tenham medo da Cruz, ela é o caminho de Jesus. Não tenham medo de entregar inteligência e coração ao conhecimento da Palavra de Deus, ela ilumina a mente e dá ardor ao coração. Não tenham medo dessa entrega. Bento XVI dizia que quando Deus nos chama, ele não tira nada, dá tudo. Não há comparação entre as coisas do homem velho que deixamos e o amor de Cristo que abraçamos.

Termino com dois versos da poeta Austríaca, Ingeborg Bachmann: Por tua fidelidade eu te amarei, por teu amor eu te serei fiel. Isto, querido irmão, isto, querida irmã, é o próprio Jesus quem te diz. E aqui a fidelidade não é a impecabilidade de que se ufanavam os fariseus, é antes o abandono da própria fragilidade nas mãos do Deus misericordioso, conforme confessa o salmista no Salmo 31. De fato, abandonados na misericórdia, o pecado confessado dá a Deus a alegria de perdoar e ao perdoado a alegria de saborear o amor de Deus.

Que a Santíssima Virgem Maria, Mãe do amor formoso, a todos nos abrace com a Sua poderosa intercessão e nos proteja sempre.

 

+ Dom José Aparecido, Administrador Diocesano da Arquidiocese de Brasília.

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