Homilia 31 de julho de 2020

MISSA DO SANTO CRISMA

31 de juLho de 2020

 

 

Prezados irmãos Bispos

Estimados irmãos no sacerdócio e na diaconia de Cristo

Prezados irmãos aqui presentes, fiéis leigos e da vida consagrada,

Queridos irmãos e irmãs que nos acompanham pelas redes sociais.

 

 

Esta santa Missa, ainda que celebrada fora do seu contexto litúrgico originário, nos convida a meditar sobre o tesouro da unção sacerdotal, bem perto da memória litúrgica do Santo Cura d’Ars. Ele é patrono dos párocos e modelo de sacerdote que nos inspira pelo zelo, pela entrega de vida, pelo amor aos pobres, pela sua comunhão com Deus em favor das ovelhas do pusillus grex de Cristo a ele confiado naquela aldeia dantes perdida nas terras francesas. Nele a unção sacerdotal agiu soberana.

Mas em que consiste esta unção?

Na liturgia de hoje tudo fala de unção: da oração coleta às leituras, da benção dos óleos ao prefácio do dia. Tudo evoca a unção messiânica de Jesus, a unção espiritual significada pelas unções sacramentais que recebemos em vários momentos da nossa vida cristã. Tudo fala da salvação que a generosidade das mãos sacerdotais não cessam de distribuir in nomine et in persona Christi.

Iniciamos com uma súplica ardente: “Ó Deus, que ungistes o vosso Filho com o Espírito Santo e o fizestes Cristo – isto é, Messias ou Ungido – e Senhor, concedei que participando da sua consagração, sejamos no mundo testemunhas da redenção que ele nos trouxe”. O Pai ungiu o Verbo de Deus humanado com o Espírito Santo. Por esta unção espiritual, conferida com o dom do Espírito Santo, ele se tornou Cristo, o Ungido. Mais ainda, o Pai nos torna cristos no Cristo, ungidos no Ungido.

Na primeira leitura o hagiógrafo, não sem inspiração profética, nos diz: “O Espirito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu”. Sim, ungiu. E enviou, para a grande missão que Jesus vai proclamar como Sua na sinagoga de Nazaré, conforme lemos no Evangelho desta Santa Missa. Para inaugurar a Sua missão pública, Jesus proclama a profecia que enumera os sinais da missão messiânica de libertação do povo. Ao fechar o livro, sentou-se e disse: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

A profecia de Isaías diz ainda que esta unção é dada para “reservar e dar aos que sofrem em Sião uma coroa em vez de cinza, o óleo da alegria em vez de aflição”. E prossegue proclamando aos que sofrem em Sião: “Vós sois os sacerdotes do Senhor, chamados ministros de nosso Deus”. Proclama a unção do povo sacerdotal do primeiro Israel, que se cumprirá plenamente no novo Israel mediante a redenção operada por Jesus no mistério pascal.

Caros irmãos padres: Tudo nos fala de unção.

Com a unção do Espirito Santo Deus constituiu Cristo seu Filho Pontífice da nova e eterna aliança. Quis ainda que o único sacerdócio de Cristo fosse perpetuado na Igreja, tanto no sacerdócio comum dos fiéis como no sacerdócio ministerial dos Bispos e Presbíteros.

Antes do Batismo, fomos ungidos com o óleo dos catecúmenos de modo que, recebendo a sabedoria e as virtudes divinas, compreendêssemos mais profundamente o Evangelho e nos tornássemos dignos da adoção filial, alegrando-nos por ser regenerados no seio da Santa Igreja. Logo após o lavacro de regeneração, fomos ungidos com o Santo Crisma, consagrados como membros de um sacerdócio régio e de uma nação santa.

Ao sermos confirmados fomos assinalados na fronte o Santo Crisma, configurados mais perfeitamente a Cristo com os dons distribuídos no inicio da pregação apostólica para o anúncio audaz da boa-nova.

Mas naquele dia inesquecível da nossa ordenação presbiteral, queridos irmãos padres, naquele dia, após a imposição das mãos do nosso Bispo e a invocação do Espírito Santo, tivemos nossas mãos ungidas para oferecer o Santo Sacrifício do altar, para perdoar os pecados, para abençoar e consagrar pessoas e instrumentos da nossa comum vocação à santidade e ao apostolado. Mãos ungidas, mãos consagradas! O Santo Crisma é o óleo da alegria com que o sacerdote fiel toca a vida dos irmãos. Se dos irmãos recebe o cheiro das ovelhas, ele, por sua vez, deixa na vida das ovelhas o suave e bom odor de Cristo, significado no bálsamo derramado no Crisma, no santo Myrón. Com as mãos ungidas e bem unidos ao bispo, pai e pastor, os presbíteros renovam o santo sacrifício, preparam a mesa pascal para os filhos de Deus, servem o povo de Deus nutrindo-o com a Palavra e santificando-o com os Sacramentos. Ungidos com este óleo de alegria, são chamados por Deus a se conformar à imagem do Bom Pastor, dando testemunho de fidelidade e de amor generoso. Do padre consagrado com esta unção espiritual se pode dizer, como do Espírito Santo, que é pai dos pobres e generoso despenseiro dos dons celestes ao povo de Deus.

Meus amados irmãos bispos: não faz tanto tempo… Aquele dia da nossa ordenação episcopal, depois de receber sobre nossas cabeças o Evangeliário aberto, tivemos a cabeça ungida com o Santo Crisma. Tivemos nossos pensamentos consagrados ao único bem necessário na vida do bispo: a missão de sucessor dos apóstolos: missão de paternidade, de unidade, de testemunho. Como não lembrar o testemunho de tantos varões apostólicos que não tiveram outro amor senão o anúncio do Evangelho e a edificação do povo de Deus? Da vocação presbiteral conservamos as mãos ungidas que abençoam. Da vocação diaconal, conservamos as mãos que se abrem para a mesa dos pobres. E com o povo santo de Deus, compartilhamos a condição de membros vivos de uma nação santa, de um povo sacerdotal: somos filhos da Igreja.

Nessas sucessivas unções há motivos de sobra para sermos santos e apóstolos, para sermos discípulos missionários até o fim da nossa vida terrena. E quando se aproximar o dia da nossa passagem, não faltará uma unção. A unção dos enfermos que pode ser acompanhada pelo viático e nos abrir as portas da Jerusalém celeste onde somos esperados pelo Sumo e Eterno Sacerdote.

 

*****

 

Permitam-me, queridos irmãos padres, retomar umas palavras bem conhecidas do Papa Francisco, pronunciadas em 2014. São palavras que nos enchem de consolação e que muito nos ajudam a meditar.

Dizia ele: “fomos ungidos com óleo de alegria para ungir com óleo de alegria. A alegria sacerdotal tem a sua fonte no Amor do Pai, e o Senhor deseja que a alegria deste amor «esteja em nós» e «seja completa» (Jo 15, 11). Mas se perdermos este vínculo com o Senhor… como somos pobres! O sacerdote é o mais pobre dos homens, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo; é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro; o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho. Não há ninguém menor que um sacerdote deixado meramente às suas forças; por isso, a nossa oração de defesa contra toda a cilada do Maligno é a oração da nossa Mãe: sou sacerdote, porque Ele olhou com bondade para a minha pequenez (cf. Lc 1, 48). E, a partir desta pequenez, recebemos a nossa alegria. Alegria na nossa pequenez!”

 

Nesta celebração, diletos irmãos, temos a ocasião de abençoar e consagrar os óleos com os quais o nosso ministério derrama alegria e consolação sobre todo o povo de Deus. Mas temos também a ocasião de renovar o perfume, o bom odor de Cristo que nos foi comunicado em cada unção de nossa vida. Aqui renovamos as promessas que fizemos no dia feliz de nossa entrega a Deus. Nessa renovação voltamos à fonte, bebemos da cisterna de águas cristalinas com que nos saciamos. Diante do Altar, como esmoleres, suplicamos a Deus que nos renove enquanto dizemos de novo que pertencemos a Ele e ao Seu povo santo. Que nos santifique ao dizermos que queremos conformar-nos mais estreitamente a Ele renunciando a nós mesmos. Que nos dê a graça e a alegria de retomar os compromissos assumidos no dia da nossa ordenação. Roguemos que nos dê coragem para celebrar os santos mistérios de modo santo, que sejamos fiéis dispensadores da graça de Deus, sem caprichos pessoais ou criatividades desvairadas. Que os nossos talentos se redobrem no cuidado com a santidade do culto que a fidelidade aos tesouros da Igreja exige. Supliquemos a Deus a graça de viver pobremente para ser enriquecidos pela alegria de não precisar de tantas coisas supérfluas e de rejeitar tudo o que nos distrai de Deus. Peçamos a graça da liberdade interior de saber usar os bens que passam de tal modo que alcancemos os que não passam.

Nesta celebração, renovemos o sincero propósito de obediência. Cristo fez-se obediente até à morte e morte de Cruz … A salvação foi e continua a ser operada pela obediência de Cristo que o padre e o bispo assumem em primeira pessoa, na pessoa de Cristo. Nossa obediência é libertadora. Ela nos liberta de vontades e caprichos que não condizem com a nossa condição, que se tornam obstáculo para a agilidade requerida pela nossa missão.

Mas acima de tudo, irmãos, vivamos na unidade. Omne regnum divisum contra se desolabitur, et omnis civitas vel domus divisa contra se non stabit. Cuidemos deste precioso tesouro. Não nos deixemos dividir por querelas ideológicas, por visões de mundo contrárias ao depósito da fé. Nossa vocação de pastores exige o abandono de todo clericalismo que nos faz abusar da autoridade sacerdotal para apoiar projetos temporais, o que é próprio dos fiéis leigos assumir legitimamente. Se formos sacerdotes ungidos pelo óleo da alegria, serviremos melhor a sociedade e a Igreja de Cristo.

Da minha parte, queridos irmãos, desde o dia 8 de junho, minha oração pessoal se tornou ainda mais fortemente oração pela nossa família arquidiocesana. Se é grande a responsabilidade de governar interinamente uma Igreja como a de Brasília, não é menor a serenidade e a paz que experimento cada dia por contar com um presbitério unido, generoso, e entregue à missão. Tenham a certeza de que cada um dos senhores padres e diáconos está diariamente na minha oração.

Rogo ao Senhor que acenda nos corações dos jovens aquele ardor do coração que os torna capazes de responder com prontidão à sua chamada.

Peço também ao Senhor Jesus que conserve o brilho jubiloso nos olhos dos recém-ordenados, para se consumarem no meio do povo fiel de Deus. Que o Senhor conserve nos seus sacerdotes jovens a alegria de saberem entregar-se ao Senhor e de não perder o primeiro amor.

Rogo de coração ao Senhor Jesus que confirme a alegria sacerdotal daqueles que têm muitos anos de ministério. Conservai, Senhor, a profundidade e a sábia maturidade da alegria dos sacerdotes adultos. Saibam orar como Neemias: a alegria do Senhor é a minha força  (cf. Ne 8, 10).

Enfim, rezo ao Senhor Jesus para que brilhe a alegria dos sacerdotes idosos, sãos ou doentes. Sintam, Senhor, a alegria e a confiança nas Vossas promessas, confiança naquela esperança que não decepciona.

A todos peço que se unam à minha oração pelo fim do flagelo da Covid-19. Peço também que continuemos a rezar para que Deus mande para Brasília um novo Arcebispo segundo o coração de Cristo, bem unido ao Santo Padre e às suas intenções.

A Virgem Mãe de Deus e da Igreja nos guarde sempre a nós ministros sagrados e a todo o povo fiel do coração do planalto central.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

+Dom José Aparecido

2020-08-10T15:23:32-03:0010/08/2020|