Homilia Ordenação Diaconal de WELLINGTON DOS SANTOS RIBEIRO 29 de agosto de 2020

Queridos irmãos e irmãs aqui presentes,

 

Estamos prestes a ordenar Diácono este nosso filho, Wellington, que com alegria vocês contam entre vossos amigos e parentes.

Eu os convido a voltar os olhos para a grandeza da vocação do Wellington e ao mesmo tempo a sua absoluta simplicidade. Iluminemos esta reflexão à luz do tesouro que a Mesa da Palavra de Deus nos oferece nesta Santa Liturgia.

 

  1. Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe eu te consagrei” (Jer. 1, 4).

 

Antes da fundação do mundo, antes de sermos formados no ventre de nossa mãe, Deus nos conheceu. Este ato de conhecer é um mistério insondável. Na linguagem bíblica, conhecer significa entrar em intimidade, como na aliança conjugal. Uma intimidade frutuosa e fecunda. Deus nos conheceu. Ele nos amou e chamou a Si, para que entrássemos no círculo dos seus amigos. Desde antes de nos formarmos no ventre materno já ressoam aquelas palavras de presdestinação que Jesus diz aos discípulos: “Já não vos chamo servos, mas amigos”. E, como amigos de Jesus, somos com Ele servos da humanidade com a Palavra de salvação. Somos feitos servos da Palavra. Nessa intimidade com Jesus, encontramos o sentido de nossa entrega na renovação do compromisso batismal, mas também, de um modo todo especial, na aceitação do ministério da Igreja mediante a imposição das mãos dos sucessores dos Apóstolos.

Antes de sairmos do seio de nossa mãe, Deus nos consagra, nos separa para sermos santos. Consagra-nos como o sacerdote consagra o pão e o vinho sobre o altar. Ele nos torna Seus; faz de nós vasos de eleição, objetos de Sua predileção.

Deus é discreto, como o é a Sua ação desde que fomos engendrados no ventre materno. Pela Sua mão providente, vai conduzindo a nossa história de amor, história de duas liberdades. A Liberdade infinita de Deus, que se compromete com a nossa santificação e bem-aventurança no seguimento de Jesus. A Liberdade finita do homem, que é chamado a responder ao amor pelo qual, Deus, “misericordiando”, escolhe, elege. Miserando atque eligendo, como no moto episcopal do Papa Francisco.

A vocação, queridos irmãos, é uma experiência de salvação. Deus salva, chama, envia e santifica. Envia para a missão de cantar as misericórdias do Senhor e distribuí-la pelo poder do Sangue Redentor.

Esta experiência de salvação nos consente ver que o Espírito Santo nos convida a participar da autoridade conferida pela força do amor redentor: “Fazei-vos servos uns dos outros pela caridade” (Gal 5,13). Inspirado nessa palavra, este nosso irmão – e nós com ele – há de conduzir a sua vida pelas veredas do serviço da caridade, caridade que nos torna servos uns dos outros, mais e mais amigos de Cristo. O coração pulsante do ministério diaconal não está num poder sagrado recebido pela imposição das mãos, mas na unção espiritual que nos torna servos uns dos outros, mediante a Palavra, o Culto Divino e as Obras de Misericórdia.

Todos nós reconhecemos que a vocação ministerial é a de ser para sempre “Servo de Jesus Cristo” (Rom 1,1). Mas que paradoxo! A servidão ao Senhor é precedida e impregnada pelo dom e a alegria da Sua amizade. De fato, é o mesmo Senhor quem se ajoelha diante da nossa pobre humanidade para nos lavar os pés, como o fez aos Apóstolos na Quinta-feira Santa.  E Ele, fazendo-Se nosso Servo, nos eleva à condição de amigos.

Por isso sabemos que as maiores maravilhas do ministério diaconal não acontecem quando o Diácono se reveste dos paramentos sagrados. As maiores maravilhas acontecem quando o diácono se reveste de Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos. Esta atitude deve prolongar-se pela vida afora no futuro ministério sacerdotal.

Wellington, se você procurar sempre este tesouro, poderá cantar como o Salmista: “Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, / quanto a amo, Senhor Deus do universo!”. Você vai poder louvar a Deus pelos irmãos que o seu ministério trouxer para a casa do Senhor: “Felizes os que habitam vossa casa; para sempre haverão de vos louvar!”.

 

 

  1. Dedica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te descuides do carisma que está em ti, que te foi dado mediante uma profecia acompanhada da imposição das mãos”.

 

Amados irmãos e irmãs, o caminho espiritual deste nosso irmão Wellington lhe tornam bem familiar a experiência da unção espiritual, dos dons do Espírito Santo. Esta experiência viva dos dons e carismas o conduziu pelos caminhos da vocação. Esta experiência torna-o peregrino do infinito nos caminhos finitos da nossa história e, se ele permanecer fiel, lhe facilita o discernimento da vontade de Deus em cada momento de sua vida.

Agora, ele se aproxima do Santos dos Santos, unindo-se pela vida e pela imposição das mãos ao Cristo servo obediente. A beleza do ministério da Palavra e da caridade incute nele e em cada um de nós um santo temor. Porém, o Wellington já não diz a Jesus como Pedro amedrontado: “Afasta-te de mim que sou pecador”. Ele, com temor e sabedoria, vai entregar-se ao abraço do Pai e dizer: “Meu coração e minha carne rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo, (…) um só dia em vosso templo vale mais do que milhares fora dele” (Sl 83).

Fortalecido com o dom do Espírito Santo, ele deverá ajudar o Bispo e o seu presbitério, no serviço da Palavra, do Altar e da Caridade, mostrando-se servo de todos. Como ministro do Altar, irá proclamar o Evangelho, preparar o sacrifício e repartir entre os fiéis o Corpo e o Sangue do Senhor.

Detenho-me aqui no ministério da Palavra. Lembre-se, querido filho, de que ao exercer o ministério da Palavra, você deverá abrir as Escrituras e levar aos irmãos o Evangelho com toda a simplicidade. Retomo o conselho que Dostojevski, na famosa obra Os Irmãos Karamazov, põe na boca do Monge Zózimo. Diz o Staretz: “Lê a Sagrada Escritura, lê-a em voz alta aos homens, não faças grandes teorias, não digas palavras abstrusas. Deixa que a própria Palavra, com poucas explicações simples, penetre sempre de novo nos corações deles e não tenhas medo que os homens não a compreendam. O coração crente entende tudo”.

É importante, Wellington, que não anunciemos uma teoria sobre a Sagrada Escritura, mas que sempre deixemos que ela fale: assim como ela é, assim como nos foi dada pela Igreja pelo poder do Espirito Santo. É importante que não anunciemos um Jesus “selecionado”, como não raro é reconstruído em fontes que poderiam ou deveriam seguir a Escritura. É importante que anunciemos Aquele que encontramos sempre lá: aquele Jesus inteiro, vivo, autêntico; e que assim O escutemos e assim deixemos que Ele se dirija a nós. Permanecer aos pés de Jesus para ser testemunha comporta escutá-lo, olhar sempre e novamente para Ele, responder-lhe, falar com Ele.

Falar com Jesus. Hoje você recebe a missão oficial de ministro da oração. A Liturgia das Horas não é um peso, um acréscimo extrínseco ao ministério. É o centro profundo desta tarefa de testemunho da amizade com o Senhor. Nesta oração, a Igreja põe em seus lábios todas as intenções mais caras da oração de Cristo ao Pai, na liturgia celeste. Nela você recebe uma especial participação naquele eterno canto de louvor que ressoa na eternidade entre os querubins e serafins, entre os coros dos anjos e dos santos. Você tem um precioso instrumento de leitura diária das Escrituras e da Tradição da Igreja, tem o louvor da manhã em nome e em favor do mundo inteiro, tem a santificação das horas em que o sol brilha sobre o mundo, tem a intercessão vespertina que sobe ao céu como o sacrifício do templo. Tome com santo orgulho esta missão de ser homem da oração da Igreja. A Liturgia das horas é uma escola de intimidade com o Senhor.

 

 

III. Santifica-os na verdade, a tua palavra é verdade

 

Caríssimo filho Wellington,

Nesta Santa Liturgia você será “consagrado ao serviço da Igreja, mediante a imposição de minhas mãos e a graça do Espírito Santo”. Você vai ser consagrado na verdade, para servir na caridade. Antes da imposição das mãos você vai manifestar a intenção sincera de “desempenhar, com humildade e amor, o ministério dos Diáconos” na qualidade de colaborador da Ordem sacerdotal, para o bem do povo cristão. Vai também assumir com a Igreja e com o Senhor o compromisso de guardar o mistério da fé, como diz o Apóstolo, com a consciência pura e de proclamar esta mesma fé, através de palavras e atos, conforme o Evangelho e a tradição da Igreja.

Em sinal do seu amor com coração indiviso, você vai se oferecer no celibato como oblação permanente ao Senhor, imitando sempre o exemplo de Cristo, de cujo Corpo e Sangue estarás a serviço.

E porque foi pela obediência de Cristo ao Pai que se deu o mistério da Salvação, você vai se comprometer na obediência missionária e mística, vendo na pessoa do seu bispo um sinal da vontade do Pai.

 

 

Enfim, querido filho, olhando para o exemplo da Virgem Maria, nossa doce Mãe celeste, não se deixe abalar na sua confiança no Evangelho, do qual você não apenas ouvinte mas servidor. Guardando o mistério da fé com a consciência pura, mostre com seus atos a Palavra que você proclama, a fim de que o povo cristão, vivificado pelo Espírito Santo, se torne oblação pura, agradável a Deus.

Assim, um dia, quando o Senhor o chamar para a Páscoa derradeira, você ouvirá estas palavras cheias de ternura: “Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor”.

 

Querido Welington, confie sempre na Virgem Maria. Ame sempre a Igreja, nossa mãe. Abandone-se sempre nas mãos do Senhor Jesus. Deixe que seja o Espírito Santo a ungir o seu ministério para que você realize tudo para a glória do Pai. Ao Deus uno e trino, todo louvor, toda a honra e toda a glória, agora e pelos séculos eternos.

 

+ Dom José Aparecido, Administrador Diocesano da Arquidiocese de Brasília.

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