HOMILIA PARA A ORDENAÇÃO PRESBITERAL

Venerado irmão no episcopado, Dom Marcony Vinícius Ferreira

Mui estimados irmãos Dom Jeová Elias, Bispo eleito de Goiás, e Dom Giovani Carlos, Bispo eleito de Uruaçu,

Diletos membros do Colendo Colégio de Consultores, em quem saúdo todos os sacerdotes,

Excelentíssimas autoridades aqui presentes,

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

 

Estamos para ordenar Presbíteros estes diáconos da Igreja de Brasília, que com satisfação contais entre vossos amigos ou parentes. Mas quem são eles e o para o que Deus os escolheu e separou?

Ouçamos com atenção a Palavra do Senhor e meditemos.

 

  1. Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe eu te consagrei” (Jer. 1, 4).

Vede bem, queridos irmãos, estes homens que hoje se entregam à Mãe Igreja são homens pobres entre os pobres, homens comuns entre outros tantos irmãos. Como todos nós, são homens com sonhos, homens que poderiam ter escolhido tantos outros caminhos… poderiam estar à procura de projetos de família, de trabalho, de honesto compromisso com a sociedade, no vasto mundo da economia, da política, das ciências ou das artes. Enfim, pessoas dotadas de talentos e marcadas por fragilidades, mas confiantes na graça de Deus.

Mas o que os trouxe até aqui? Cada vocação nasce de um insondável desígnio da Misericórdia do Pai. O Amor de Deus está na raiz da vocação daqueles que Ele engendra e conhece, consagra e separa para Si. Sim, irmãos, toda a vocação! Mas é a vocação ao sacerdócio ministerial que manifesta de modo muito singular o segredo do coração misericordioso de Deus que continua a atender ao seu povo.

Não, falar de vocação sacerdotal não é coisa de um passado romanticamente idealizado, perdido nas brumas do tempo. Deus atua hoje como outrora. “Ecce non est abbreviata manus Domini” – diz Isaías (Is 59,1). Não, irmãos, a mão do Senhor não é curta para salvar, nem seu ouvido é demasiado surdo para ouvir. Deus Se comove com os clamores do Seu povo, do povo que tem fome e sede de pão e de vida, de perdão e de paz, de reconciliação e de amor. Quando as súplicas dos inermes chegam aos céus, Deus chama e separa para Si, consagra e envia os servidores da sua misericórdia para cuidar das feridas dos mais pobres e dar-lhes de comer e de beber no tempo oportuno.

Hoje também o Senhor continua a enviar sobre a terra fome e sede, não só de pão, não só de água, mas de ouvir a Sua Santa Palavra. Vagueiam de um canto a outro procurando quem os apascente com a Palavra que é luz para o caminho e com o Pão dá a vida (Am 8,11-12). Hoje também Deus continua escolher e enviar servos, amigos Seus para saciar o povo sedento e faminto. Ele conhece a nossa pobreza e nos consagra para manifestar a Sua glória, tornando-nos aptos para o serviço do Seu Reino mediante a efusão do Espírito Santo.

Eis porque, hoje a Santa Igreja exulta de alegria: estes treze filhos seus, mediante a imposição de minhas mãos, recebem uma nova efusão do Espírito Santo para serem participantes do único Sacerdócio de Cristo no grau do Presbiterado, para serem cooperadores da ordem episcopal e “anunciar e consumar em todo o mundo a obra da salvação” (Prex ordinationis).

Como são insondáveis as misericórdias do Senhor! Antes mesmo de nos formar nas entranhas maternas, o Senhor nos conheceu, nos santificou e nos preparou para sermos profetas entre as nações. Jesus vai dizer ainda mais: “Já não vos chamo servos, mas amigos”. Sim, o Senhor nos chamou amigos, nos chamou para a Sua intimidade. O que seria do ministério sagrado sem a intimidade com o Senhor, sem a amizade do Senhor, sem a nossa entrega? Ao acolher com misericórdia o arrependimento de Pedro, o Senhor lhe pergunta: “Pedro, és meu amigo?” À humilde resposta de Pedro arrependido o Senhor acresce: “Apascenta as minhas ovelhas”. É precisamente da intimidade divina, que vem a máxima autoridade do sacerdote para partilhar com o povo santo de Deus os tesouros da Palavra, as riquezas inefáveis do Mistério Pascal e a fúlgida beleza dos laços da comunhão.

Sem a intimidade divina o ministério da palavra se tornaria mera doutrinação, os sacramentos se assemelhariam a simples ritos mágicos e o serviço da comunhão degeneraria em sede de poder sobre a comunidade de irmãos. Sem a amizade sincera e profunda com Cristo, o ministro sagrado facilmente deixaria de servir o povo para servir-se do povo. Nessa intimidade encontramos o sentido de nossa entrega que recebe a chancela celeste pela imposição das mãos do bispo.

 

  1. Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7,17)

Tomado de entre os homens, o sacerdote é constituído em favor dos homens, nas coisas que se referem a Deus” (Hb 5,1). Não se trata de um projeto de realização pessoal, mas de uma vocação a servir a um projeto desenhado pelo próprio Deus. O padre só se realiza, só é feliz, quando deixa de buscar sua realização pessoal e, negando-se a si mesmo, toma a cruz de Cristo e O segue. Mas é precisamente na sua união com o projeto de Deus realizado na Cruz salvadora que o padre encontra a fonte da sua felicidade. Por isso o seu compromisso não é e não pode ser transitório. No Reino de Deus, as decisões tomadas na nossa fragilidade adquirem sabor de eternidade. A felicidade do padre não é mera realização humana, mas bem-aventurança.

O Apóstolo dos gentios, com efeito, nos diz: “Somos embaixadores a serviço de Cristo” (2Cor 5,20). Ele declara assim o sentido exato do poder e da dignidade sacerdotais. Certo, os sacerdotes são sempre homens falíveis, capazes de errar, mas isto não os impede de ser ungidos do Senhor, “consagrados para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino” (LG 28). Somos sacerdotes para a eternidade, consagrados para sempre em favor dos homens.

Jesus, único Mediador entre Deus e os homens, quis instituir o sacerdócio ministerial na última ceia precisamente para perpetuar no mundo, de modo visível, a sua obra de intercessão, de salvação, de santificação. É o próprio Senhor Jesus quem escolhe “os dispensadores dos mistérios divinos, reveste-os com variedade de dons e carismas para que, sempre e em toda a parte, ofereçam o sacrifício perfeito, e edifiquem, com a palavra e os sacramentos, a Igreja peregrina e santa, comunidade da Nova Aliança e templo vivo do vosso louvor” (do Prefácio).

É de tal modo sublime o sacerdócio ministerial que “Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus” (Hb 5,4). Configurado ao Senhor, o sacerdote age in persona Christi capitis, atua na pessoa de Cristo Cabeça da Igreja. Por ele, Cristo congrega na unidade. Por ele Cristo prega e ora. Por ele, Cristo santifica através dos sacramentos. É pela bondade de Deus que em cada momento decisivo da nossa vida há de estar presente um sacerdote.

Como não lembrar que o sacerdote acompanha os homens em todas as etapas da vida? Acolhe a criatura recém-nascida à fonte batismal para lhe dar a graça da filiação divina. Administra-lhes os sacramentos que os sustentam no caminho para Deus, inicia-os na compreensão das coisas de Deus e indica-lhes o caminho do bem mediante o ministério da palavra. Abençoa os nobres ideais, sustenta-lhes os passos e os conforta na agonia.

É um trabalho muitas vezes penoso, oculto na penumbra das suas horas de oração. Não é raro que seja incompreendido. Jamais devidamente estimado, entretanto preciosíssimo e indispensável no plano divino da nossa salvação!

O dever de gratidão pelo dom do sacerdócio se impõe a todo cristão, sobretudo para com Jesus, mas depois, também para com os que desempenham retamente esta missão sublime. Tal gratidão deve manifestar-se no reverente respeito, na filial docilidade para com os ministros de Deus, mas também na oração e no trabalho assíduo em favor das vocações e da santificação dos sacerdotes. Assim nos ensinou o próprio Jesus: “Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Mt 9,38).

 

III.      “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15, 15)

Permiti-me, irmãos caríssimos, dirigir em tom paterno e direto algumas palavras aos futuros padres.

Caríssimos diáconos André, Daniel, Danny Miguel, Felipe, Gustavo, Jesús Enrique, Lucas Medeiros, Lucas Meneses, Paulo Henrique, Paweł, Rafael Enrique, Silas César e Thaisson, sois hoje a alegria da Igreja de Brasília. Por isso vos dirijo estas palavras quase ao ouvido de cada um. São como que uma confidência e uma súplica, solene e afetuosa, muito pessoal.

Filho querido, hoje o Senhor, te acolhe no círculo daqueles que receberam a sua palavra no Cenáculo; acolhe no círculo daqueles que Ele conhece de um modo todo especial e que por isso chegam a conhecê-Lo de modo particular. Hoje o Senhor te concede aquela faculdade que quase amedronta, de fazer aquilo que só Ele, o Filho de Deus, pode legitimamente dizer e fazer: Eu te perdoo os teus pecados. Ele quer que tu – por Seu mandato – possas pronunciar com o seu “Eu” uma palavra que não é meramente palavra, mas ação que produz uma mudança no mais íntimo do ser. Tu sabes bem que, por detrás de tais palavras, está a Sua Paixão por nossa causa e em nosso favor. Sabes bem que o perdão que ainda hoje poderás conceder tem o seu preço. Fomos resgatados a caro preço: o Seu sangue, a Sua Paixão. Por ela, nosso Senhor desceu até ao fundo tenebroso e sórdido do nosso pecado. Ele por nós se fez pecado, desceu até à noite escura da nossa culpa. E somente por isso essa noite pode ser transformada em luz meridiana. Através do mandato de perdoar, Ele te permite lançar um olhar ao abismo do homem e à grandeza do Seu padecer por nós, grandeza esta que nos consente intuir a imensidão do Seu amor. Por isso não te canses de ser generoso no perdão oferecido, não te canses de dedicar tempo ao ministério da misericórdia.

O Senhor, aqui e agora, te confidencia o Seu desígnio de amor: “Já não és servo, mas amigo”. Neste Cenáculo, Ele te confia as palavras da Consagração na Eucaristia, o mandato de oferecer por Ele, com Ele e nEle o mesmo sacrifício do Calvário. Efetivamente, hoje a Igreja te configura a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, ou seja, te consagra pelas minhas mãos como verdadeiro sacerdote do Novo Testamento. Com este título, que no sacerdócio te faz cooperador da ordem episcopal, serás pregador intrépido do Evangelho, Pastor do Povo de Deus; presidirás aos atos de culto, de maneira especial na celebração do sacrifício do Senhor.

Não te esqueças de que, exercendo o ministério da sagrada Doutrina, tomas parte na missão de Cristo, único Mestre, que te diz: “Eis que ponho as minhas palavras na tua boca” (Jer 1,9). Foge das ideologias e do erro: dispensa a todos a Palavra de Deus, que tu mesmo recebeste com alegria. Lê e medita assiduamente a Palavra do Senhor, para acreditares naquilo que já leste, ensinares o que aprendeste na fé e viveres o que ensinaste. E este seja o alimento do Povo de Deus; que as tuas homilias cheguem ao coração das pessoas, porque saem do teu coração. Deste modo a tua pregação será alegria e ajuda para os fiéis de Cristo; o perfume da tua vida será o testemunho! Santo Antônio, santo doutor e exímio pregador da Ordem dos Frades Menores já dizia: “Cessem, eu vos suplico, as palavras; falem as obras”! Do contrário as obras que deveriam seguir às palavras correm o risco de ofuscar o que pregas.

Darás continuidade à obra santificadora de Cristo. Mediante o teu ministério, o sacrifício espiritual dos fiéis se aperfeiçoa, porque fica vinculado ao sacrifício de Cristo, que através das tuas mãos, em nome da Igreja inteira, é oferecido de modo incruento no altar, durante a celebração dos Santos Mistérios. “Quando celebrares a Missa — diz o Papa Francisco — reconhece aquilo que fazes. Não o faças de modo apressado! Imita o que celebras — não se trata de um rito artificial — pois assim, participando no mistério da morte e ressurreição do Senhor, trazes a morte de Cristo nos teus membros e caminhas juntamente com Ele numa vida nova. O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue de Cristo”.

Mediante o Batismo agregarás novos fiéis ao povo de Deus. Não negues o Batismo a quem to pedir! Através do óleo santo, darás alívio aos enfermos. Celebrando os ritos sagrados e elevando nas várias horas do dia a oração de louvor e de súplica, serás a voz do Povo de Deus e da humanidade inteira. Sacerdote da nova aliança, a tua oração é a oração da Igreja. Oferece sem cessar o sacrifício de louvor na oração pessoal e na santificação assídua das horas do dia.

Consciente de teres sido escolhido entre os homens e constituído a seu favor para atender as coisas de Deus, cumpre com alegria e caridade sincera a obra sacerdotal de Cristo, com a única intenção de agradar a Deus, e não a ti mesmo.

Procura ter sempre diante dos olhos o exemplo do bom Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir; não para permanecer nas tuas comodidades, mas para sair, procurar e salvar o que estava perdido.

Entrega-te, filho caríssimo, ao teu Senhor, sê bom samaritano dos pobres e sê irmão dos demais presbíteros, que te acolhem hoje no presbitério da Igreja Brasiliense.

*  *  *

Permiti-me concluir com palavras dirigidas em 2008 por Bento XVI a alguns sacerdotes que estava para ordenar: “Caros Ordinandos, no futuro deveis voltar sempre a este momento, a este gesto que nada contém de mágico e, no entanto, é tão rico de mistério, porque aqui se encontra a origem da vossa nova missão. Nessa oração silenciosa tem lugar o encontro entre duas liberdades: a liberdade de Deus, que age através do Espírito Santo, e a liberdade do homem. A imposição das mãos exprime concretamente a modalidade específica deste encontro: a Igreja, personalizada pelo Bispo em pé com as mãos estendidas, pede ao Espírito Santo que consagre o candidato; de joelhos, o diácono recebe a imposição das mãos e confia-se a esta mediação. O conjunto de gestos é importante, mas infinitamente mais importante é o movimento espiritual, invisível, que ele exprime; movimento bem evocado pelo santo silêncio, que abarca tudo dentro e fora”.

Neste movimento espiritual, vos acompanha a Virgem Maria, como acompanhou os primeiros passos do Menino Jesus, venerado aqui neste Santuário.

A ele, o vivente, seja o louvor, a honra e toda a glória, hoje e pelos séculos eternos. Amém! Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

+ Dom José Aparecido, Administrador Diocesano da Arquidiocese de Brasília.

2020-08-15T20:55:47-03:0015/08/2020|