LIÇÕES DAS BODAS DE CANÁ

O Evangelho das Bodas de Caná, um episódio narrado por São João, testemunha ocular desse acontecimento, é um convite a irmos ao encontro do nosso Redentor e, ao mesmo tempo, nos revela a missão, a participação da Virgem Santa Maria no projeto salvífico de Deus. As Bodas de Caná constituem o início dos sinais (Jo 2,11), ou seja, o primeiro milagre realizado por Cristo, com o qual Ele manifestou, em público, a Sua glória, suscitando a fé dos discípulos.

A transformação da água em vinho, o início da vida pública de Jesus, marcou o início dos sinais messiânicos, anunciando a Hora da glorificação de nosso Redentor. É interessante verificar que, no relato de São João Evangelista, a Virgem Santa Maria é mencionada antes de Cristo. Eis o relato do discípulo amado: “No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá. Também Jesus e Seus discípulos foram convidados para o casamento”. (Jo 2, 1-2).

Pelos relatos dos Evangelhos, nós verificamos que, no desenvolvimento da vida pública de Jesus, a Virgem Maria não se fez presente durante a realização dos milagres de Cristo, exceto em um deles, o milagre das Bodas de Caná, onde a missão da Mãe de Jesus é determinante, pois foi Ela quem percebeu a falta do vinho e comunicou ao Filho o fato que poderia causar um constrangimento aos noivos. Quando o Cristo respondeu que “a Sua hora ainda não chegou”, Ela apressou-se, com urgência materna, dizendo aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser! ”. (Jo 2,5). Agindo assim, Nossa Senhora demonstrou que conhece, melhor do que ninguém, as profundas intenções do coração de Jesus. Percebendo a falta do vinho, antes mesmo que os noivos, a Virgem Maria demonstrou também que conhece as nossas necessidades melhor do que nós mesmos.

O acontecimento das Bodas de Caná é uma cátedra de onde podemos extrair fecundas lições de espiritualidade que nos revelam o caminho para a nossa correspondência ao amor de Deus e de Nossa Senhora. A primeira lição que devemos aprender com as Bodas de Caná é a revelação de que a Virgem Santa Maria está sempre atenta às nossas necessidades e urgências. Ela é a Mãe intercessora, aquela que, por meio de uma sensibilidade única, sabendo olhar as nossas carências, vai dizer ao Filho que está faltando algo que é essencial para a nossa vida humana ou espiritual. Colocando-se ao nosso lado, Ela evidencia que está sempre pronta para interceder por todos aqueles que se encontram em dificuldades.

Nas nossas dificuldades e contrariedades, a Virgem Maria continua intercedendo por nós diante de Cristo, dizendo: “Eles não têm mais vinho! ” (Jo 2, 3). Hoje, para muitas pessoas falta quase tudo, pois estão em situação de pobreza; como existem também comunidades cristãs pobres, que precisam de ajuda para desenvolver o precioso serviço da evangelização. Existem, de verdade, muitas necessidades pessoais ou comunitárias, mas jamais faltará às pessoas, ou comunidades, a presença materna de Nossa Senhora, intercedendo pelo tão esperado bem. Como nos ensina São Josemaria Escrivá: “Maria quer sem dúvida que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que recorramos à sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe. Mas é uma mãe que não se faz rogar, que até se antecipa às nossas súplicas, porque conhece as nossas necessidades e vem prontamente em nosso auxílio, demonstrando, com obras, que se lembra constantemente de seus filhos”. ( É Cristo que passa, nº 141).

No aprendizado da fé, na conquista das virtudes, no combate contra o pecado e na luta em prol da concretização da verdade, da justiça e do bem, Deus quer contar com a nossa ajuda. Ele deseja que colaboremos com aquilo que nós temos, mesmo que sejam somente um ou dois talentos. Essa é a segunda lição que aprendemos com as Bodas de Caná, pois o Cristo poderia ter produzido o vinho do nada, mas Ele preferiu que os serventes trouxessem as talhas e as enchessem com água. Ou seja, Deus continua fazendo milagres todos os dias, mas Ele age, oportunamente, após contar com a nossa colaboração. Ele atende, de um modo especial, os nossos pedidos quando eles são apresentados pelas bondosas mãos de Nossa Senhora, nossa Mãe intercessora.

“A fartura das Bodas de Caná é, pois, um sinal de que começou a festa de Deus com a humanidade, a Sua auto oblação pelos homens”. (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré. Desde o Batismo à Transfiguração, página 129). Com este sinal, a transformação da água em vinho, Cristo revelou ser o Esposo messiânico, que veio estabelecer conosco uma nova e eterna Aliança. E o vinho é o símbolo desta alegria de amor; mas Ele faz alusão também ao Sangue, que Jesus derramou na Cruz, para selar o Seu pacto nupcial com a humanidade.

Uma terceira e importante lição que aprendemos com as Bodas de Caná é que a Virgem Maria, a primeira cristã, a discípula missionária por excelência, aproxima-nos sempre mais de Cristo. Ela é o nosso modelo de identificação com a vontade divina e, por isso, quando imitamos o exemplo de obediência, de generosidade e de entrega da Virgem Mãe, nós aprendemos a fazer da nossa vida uma oferta agradável ao Senhor. Quando contemplamos a vida, a doação e o serviço de Maria, nós percebemos que assim “como Maria trouxe no seu seio o Salvador, assim também nós devemos trazê-Lo espiritualmente no nosso coração”.  (Santo Agostinho, Sermão 180, 3).

Todas as palavras, gestos e ações que aconteceram nas Bodas de Caná da Galileia revelam uma singular sintonia entre Maria e o Cristo em um clima rico de símbolos de uma nova, determinante e definitiva aliança. “Fazei tudo aquilo que Ele vos disser! ” (Jo 2, 5). Essas palavras são o testemunho espiritual de Nossa Senhora. São também os conselhos, as orientações e as advertências que Maria nos faz no seguimento cotidiano ao Cristo, pois hoje nós somos os servos das Bodas de Caná que recorrem à poderosa intercessão da Virgem Maria, a fim de podermos encher as tachas que estão vazias e alcançar, de um modo misterioso, a Fonte da água da vida que nos ajuda a vivenciar as alegrias do Evangelho no ambiente festivo do campo da Igreja, no terreno da esperança.

Nas Bodas de Caná, nós somos convidados a caminhar com Maria para chegarmos a Jesus.  Juntos da Virgem Santa Maria, nós colocamos o nosso serviço à disposição de Deus e da Igreja, reafirmando o nosso empenho na edificação do Reino dos céus por meio do exercício da oração, dizendo: “Jesus, Tu foste enviado a uma festa de núpcias de outrem, dos esposos de Caná; aqui, ao contrário, é a Tua festa, pura e bela:  alegra os nossos dias, porque também os Teus hóspedes, Senhor, precisam dos Teus cânticos:  deixa que a Tua harpa preencha tudo!  A alma é a Tua esposa, o corpo é o Teu quarto nupcial, os Teus convidados são os sentidos e os pensamentos. E se um só corpo é para Ti uma festa de núpcias, toda a Igreja constitui o Teu banquete nupcial!” (Santo Efrém).

Aloísio Parreiras
2020-05-09T18:25:32-03:0009/05/2020|