LUZES E SOMBRAS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Luzes e sombras são realidades que sempre se fazem presentes em nossa História e no desenvolvimento das sociedades, com seus antagonismos, teses e antíteses. Luzes e sombras habitam o nosso interior, pois como nos ensina São Paulo: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. (Rm 7,19).

A luta constante para superar as trevas e evidenciar os sinais da luz é um exercício diário no caminho da santidade. A dualidade entre sombras e luzes é mais visível nos períodos de guerras, de catástrofes e de pandemias e, por isso, nesses dias em que estamos atravessando a pandemia da Covid-19, nós percebemos a manifestação do bem e do mal, do amor e do egoísmo, do individualismo e da coletividade, da santidade e do pecado, enfim, a manifestação de luzes e sombras, pois onde existem seres humanos existem acertos e erros.

Se não cuidamos, o isolamento social desses dias nos levará a sentir dores de cabeça, irritabilidade, dores musculares, stress, depressão e formigamentos. Mas, por outro lado, se cuidamos, principalmente da nossa vivência e perseverança na fé, esses dias serão dias de maior intimidade com o Cristo, dias de reflexões, orações e de encontro com Deus e o nosso próximo.

Claro é que, em muitos momentos, no cansaço desses dias, podemos pensar em desistir de lutar contra as nossas limitações e erros, pois somos humanos e nem sempre vislumbramos avanços na luta contra o pecado e o mal. Nessas situações, temos que ter a convicção de que “é melhor andar mancando dentro do caminho do que avançar a passos largos fora dele. Pois quem manca no caminho, embora avance pouco, aproxima-se da meta; ao passo que quem avança fora dele, quanto mais corre, mais se afasta”. (Santo Agostinho).

Inúmeras sombras foram escancaradas, nesse tempo de pandemia, no Brasil e no mundo. Desvios de verbas públicas que deveriam ser empregadas na compra de respiradores e de equipamentos de proteção individual, favorecimento de empresas sem licitações e mudanças legislativas que afrouxam o controle sobre a destinação do dinheiro público são marcas da corrupção que nos assustam, gerando desigualdades e injustiças, demonstrando que a corrupção é pior do que o pecado, “pois um pecador pode pedir perdão, um corrupto esquece-se de pedi-lo. Por que? Porque já não tem necessidade de ir mais longe, de procurar pistas para lá de si mesmo: está cansado, mas saciado, cheio de si. Com efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a indiferença”. (Papa Francisco).

Outras sombras, desses nossos dias, são o aumento dos casos de violência contra as mulheres e as crianças que, em muitas situações, ficam presas, confinadas com os seus agressores, sem a oportunidade de clamar por socorro. Sombras sociais visíveis são também o desemprego e o crescente aumento das necessidades vitais dos pobres e dos excluídos, demonstrando que “o vírus atinge a todos, sem diferença de nacionalidade nem pertença religiosa ou social, mas são os pobres que pagam e pagarão no futuro o preço mais alto”. (Papa Francisco).

Graças à correspondência de muitas pessoas ao amor e à misericórdia de Deus, esse tempo de pandemia tem evidenciado inúmeras luzes, ou seja, sinais do bem, da misericórdia, da caridade e da justiça. Esses sinais de luzes testemunham que os fiéis cristãos estão agindo agora, de imediato, para mudar essa situação e socorrer os mais necessitados. Nesse sentido, os movimentos e ações de solidariedade estão sendo armas essenciais para incrementar nossa pertença a Deus e à Igreja e fortalecer a nossa imunidade contra a indiferença durante essas crises atuais. Nesses tempos de pandemia, ações solidárias têm unidos vizinhos, paroquianos, comunidades, professores, catequistas, amigos e desconhecidos, que se colocam como voluntários para ajudar ao próximo doando cestas básicas, materiais de higiene e limpeza, superando os sinais do medo com o anúncio da esperança.

Nesses últimos dias, contemplamos um sólido sinal de luz, pois nós conhecemos a estória do jovem religioso da Comunidade Toca de Assis, o Irmão Simplício, de apenas 28 anos, que faleceu no dia 29 de maio, em decorrência da Covid-19, depois de se doar ao serviço das pessoas em situação de ruas em Fortaleza, no Ceará.  Durante o período de internação, antes de ficar inconsciente, o Irmão Simplício enviou uma mensagem de áudio para os amigos, citando uma frase de São Vicente de Paula: “É um privilégio morrer pela causa dos pobres, pois eles nos abrirão as portas do céu!”.

Esse exemplo de entrega, doação e oferecimento do Irmão Simplício deixa visível para todos nós a certeza de que a noite escura dos santos não é igual à noite dos pecadores. Nos santos, há misericórdia, luzes, caridade, esperança, fé, fortaleza, sacrifícios e renúncias. Nos pecadores, sobretudo nos corruptos, há somente noites sem possibilidades de alvoradas.

Alicerçados no testemunho do Irmão Simplício e de tantos outros santos ocultos que estão clareando o planeta Terra com os seus exemplos e palavras, temos que perceber que “agora que todas as nossas seguranças humanas desapareceram, o mundo precisa que nós lhe demos Jesus. Precisa do nosso testemunho do Evangelho, o Evangelho de Jesus. Só podemos dar esse testemunho com a força do Espírito Santo. Precisamos que o Espírito nos dê novos olhos, abra a nossa mente e o nosso coração para enfrentar este momento e o futuro com a lição aprendida: somos uma só humanidade. Não nos salvamos sozinhos. Ninguém se salva sozinho. Ninguém”. (Papa Francisco, Mensagem aos membros da Renovação Carismática Católica, em 31 de maio de 2020).

Luzes e sombras estão ao nosso redor no dia a dia, mas a escolha por uma ou outra realidade é uma decisão que cabe a cada um de nós. Às vezes, pode até parecer que existem pretextos para aumentar a nossa ansiedade, insegurança e o medo, mas ninguém tem o direito de estar sem esperança. Mesmo que estejam escancarados, diante de nossos olhos, inúmeras sombras e sinais de morte, ainda que os jornais diários tenham se tornado comunicadores de desgraças, nós, mais do que nunca, temos que manifestar os sinais e as razões da nossa esperança, os sinais da luz.

Agindo assim, iremos testemunhar que “quando sairmos dessa pandemia, não poderemos continuar fazendo o que estávamos fazendo e como estávamos fazendo. Não, tudo será diferente. Todo sofrimento não terá servido para nada se não construirmos juntos uma sociedade mais justa, mais equitativa, mais cristã, não de nome, mas na realidade, uma realidade que nos leve ao comportamento cristão”. (Papa Francisco, Mensagem aos membros da Renovação Carismática Católica, em 31 de maio de 2020).

Que o Deus da esperança, do amor e da paz permaneça conosco nessa caminhada e nessa batalha contra essa pandemia e no testemunho fecundo dos sinais da luz, a fim de que o mundo creia que tudo isso vai passar. Alicerçados em Deus e na mediação da Virgem Santa Maria, façamos hoje, amanhã e sempre, tudo aquilo que for justo, bom e honesto, com a certeza de que, com a graça de Cristo e o nosso humilde, mas necessário auxílio, o clarão da esperança e, acima de tudo, a luz do Cristo vivo e ressuscitado, irão continuar irradiando no céu de nossas vidas e de nossa História.

Aloísio Parreiras 
2020-06-04T18:59:31-03:0004/06/2020|