MAR ADENTRO: DUC IN ALTUM!

Antes daquele primeiro encontro com aquele Homem que transformou a minha vida, eu era um homem do mar, um pescador que tinha um grande conhecimento sobre as ondas, as marés e as correntes marítimas. Eu me assustava com a simples ideia de permanecer o dia inteiro na areia e, por isso, eu gostava de enfrentar as fortes ondas e os desafios soprados pelo mar, contemplando em suas águas a maior manifestação da natureza.

Eu sempre soube que a vida surgiu no mar e era no mar que eu permanecia a maior parte do meu dia me questionando: De onde vem tanta beleza? De onde vêm tanta água e tantos peixes? A grandeza do mar sempre me instigou e, bem cedo, me fez perceber a minha pequenez, a minha caducidade. Diante da grandeza do mar, eu sabia que, de alguma forma, poderia vislumbrar a onipotência de Deus.

O mar sempre foi um fascínio para mim. O porquê eu não consigo explicar, mas, por meio do silêncio do mar, a linha do horizonte sempre me pedia para ir para mais longe e a luz do sol, que irradiava nas águas salgadas do mar, invadiam o meu ser, desafiando-me a enfrentar a força impetuosa dos ventos.

Creio que eu sempre gostei do mar porque sou natural de Betsaida, uma modesta cidade a oriente do mar da Galileia. Deste modo, o mar sempre fez parte da minha vida. Por ser um apaixonado pelo mar, eu montei uma pequena empresa de pesca no lago de Genesaré em parceria com o meu irmão, André.

Naquele dia em que a minha existência mudou totalmente, eu e os meus amigos de pescaria estávamos, juntos do lago de Genesaré, empenhados no nosso trabalho de pescadores quando uma multidão se reuniu para ouvir a Palavra e os ensinamentos daquele Homem. O nosso barco estava ancorado à margem com um outro barco ao lado. Estávamos lavando as nossas redes porque, na noite que havia terminado, não tínhamos pescado quase nada.

Num súbito momento, naquele momento decisivo da minha vida, aquele Homem pediu para entrar em minha barca. Inicialmente, eu fiquei sem reação, eu não sabia o que responder, mas, antes que eu manifestasse alguma resposta, Ele me ordenou que afastasse um pouco o barco da terra. Ele sentou-se e, do barco, ensinava as multidões. Apesar do cansaço da pesca infrutífera, eu resolvi me sentar para escutá-Lo, pois ninguém falava como aquele Homem. Suas palavras eram claras, elucidativas, simples e determinantes. E foi ali, na pequena cátedra do meu barco, que eu escutei pela primeira vez aquela boa nova que irradiava a possibilidade de novos horizontes.

Quando Ele terminou de falar, o meu desejo era pedir que Ele continuasse nos transmitindo outros ensinamentos, mas, para minha surpresa, Ele depositou os Seus olhos em meus olhos e me desafiou: “Avança para águas mais profundas, ‘Duc in altum’, e lançai as redes para a pesca”.

Para mim e os meus companheiros de pesca, foi difícil escutar o pedido daquele Homem, pois passamos a noite pescando e nada apanhamos. Nosso cansaço era visível e já havíamos realizado o serviço de limpeza da rede. Por um instante, eu tive a vontade de Lhe perguntar o que Ele sabia sobre pescaria. Mas, quando eu contemplei o Seu rosto, que irradiava a luz do céu em pleno mar, um clarão que eu não sei definir, invadiu a minha alma e, por isso, eu não hesitei e respondi: Mestre, trabalhamos a noite inteira, mas, confiando em Sua palavra, eu lançarei as redes.

Naquele exato momento, eu tinha consciência de que a minha sabedoria humana, a minha técnica de pescador, os meus conhecimentos marítimos eram nada diante da presença do Mestre. De algum modo, aquele Homem me fez reconhecer que eu sou dependente d’Ele e, por isso, obedecer foi a melhor expressão da minha liberdade, pois, quando puxamos as redes, o peso dos peixes era imenso. Os nossos braços, acostumados que eram às grandes pescarias, quase não suportaram o peso daqueles peixes. Estávamos diante de uma pesca inesperada e tão abundante que quase arrebentou as nossas redes.

Para não perdermos os frutos da pesca, nós fizemos sinais aos companheiros do outro barco e pedimos ajuda. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem. Diante daquela pesca milagrosa, a nossa alegria era imensa. Para extravasar a alegria que invadiu os nossos corações, nós dançamos, nos abraçamos e entoamos velhos cantos do mar. No meio dessa alegria, eu comecei a pensar: esse é, seguramente, o Mestre, o Redentor esperado, o Messias que irá caminhar conosco pelos caminhos da História.

Eu ainda estava fazendo memória das palavras e dos gestos daquele Homem quando alcançamos as margens do lago de Genesaré. Aos poucos, eu fiz um exame de consciência da minha vida, relembrei os meus pecados, imperfeições e defeitos. Quando eu me aproximei d’Ele, uma força, um grande arrependimento, me impeliu a me ajoelhar aos Seus pés e, com lágrimas nos olhos, eu Lhe disse: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!  Eu não mereço permanecer em Sua presença.

Eu queria muito permanecer na companhia do Mestre. O que me fazia desejar permanecer em Seu seguimento não era o milagre da pesca, mas a certeza de que junto d’Ele a minha vida iria adquirir um novo sentido, uma imensa transformação mediante o dom da fé. Mas, por outro lado, a visão das minhas imperfeições estava me impedindo de ir adiante. Por um momento, um sentimento de tristeza invadiu o meu coração, mas a linha do horizonte me solicitava, mais uma vez, para ir bem longe, evidenciando sinais de luzes, uma nova aurora, uma singular alvorada.

Para minha surpresa – e para minha alegria – o Mestre não se deteve diante dos meus pecados. Ao contrário, Ele me acolheu com minhas imperfeições e defeitos. Ele sabia muito bem de que barro eu sou feito, conhecia minha impetuosidade, minhas misérias e minhas falhas. Ele sabia perfeitamente que eu não sou digno d’Ele, inclusive Ele já sabia os erros e as imperfeições que eu cometeria em Seu seguimento em um breve futuro. Porém, o olhar do Mestre foi muito além de tudo isso; Ele contemplou o interior do meu coração, me puxou pelos braços, me levantou e me disse: “Não temas! Doravante serás pescador de homens! ”

Ao ouvir as palavras daquele Homem, ao vislumbrar o rosto do Mestre que é a razão de ser de nossas vidas, a grandeza do mar tornou-se pequena diante da expressão do amor e da misericórdia revelados pelo Cristo. Sim, Ele é acolhedor. Ele é aquele que resgata o que estava perdido, Aquele que não desiste de nós. Diante de tanta compaixão, eu não hesitei, não pensei duas vezes. Eu venci os meus temores e respondi à generosidade do Seu chamado, deixando tudo e seguindo-Lhe. Deixei o meu ofício de pescador, a minha empresa de pesca e os meus pais, pois a luz do mar não mais invadia o meu ser, mas unicamente a luz de Cristo que me enviou a lançar as redes em águas mais profundas.

Aos poucos, no seguimento de Cristo, eu aprendi que a barca de Jesus é a Igreja. Aprendi também que, na obediência ao Mestre, nós encontramos a paz e a fortaleza necessárias para sermos melhores. Aprendi, acima de tudo, que o amor de Cristo é um oceano de misericórdia que nos impulsiona a sermos misericordiosos, não com nossos dons pessoais, mas com a busca e a obediência confiante à Sua vontade. E, finalmente, eu aprendi que a rede de Cristo, a rede da Igreja, é uma rede singular, pois o que nela fica preso acaba sendo libertado.

Eu não me canso de agradecer ao Mestre as graças e os privilégios que Ele me concedeu. Com Ele eu aprendi que grandes peixes são encontrados em águas mais profundas, distantes das margens rasas dos rios, lagoas, lagos e oceanos e, por isso, Ele sempre nos envia em ousadas missões. Antes de partimos em missão, nós devemos ouvir a Palavra do Senhor, permanecer na escuta do Mestre para reforçar, com a ajuda do Espírito Santo, a virtude da fé, fortalecendo a esperança e reavivando a caridade.

Por ter sido obediente ao Mestre Jesus, por ter dito sim ao Seu chamado, eu passei a ser Seu seguidor, discípulo, apóstolo e o primeiro Papa da Igreja. Para minha tristeza, diante da Paixão do Cristo, eu titubeei na fé, errei e até cheguei a negar que era o Seu discípulo. Eu chorei, copiosamente, quando percebi que traí o Homem que transformou a minha existência. Mas chorei de alegria quando eu O vi vivo e ressuscitado. Chorei tanto que as lágrimas formaram sulcos em meu rosto. Sim, Ele apareceu também a mim e evidenciou os sinais do Seu perdão, acolhendo-me em Seu amor e confirmando que, junto d’Ele, eu continuaria a exercer o ofício de primeiro Papa.

Como primeiro Papa da Igreja, eu tenho a autoridade de vos dizer: Escutai as palavras do Cristo que hoje continua dizendo: Mar adentro, ‘Duc in altum’. Esse é o ousado pedido que Ele sempre faz aos homens e mulheres no decorrer dos séculos e das gerações. Olhai, contemplai e observai que o mar do mundo está à espera de novos pescadores de homens e, por isso, lançai as vossas redes no vasto oceano do terceiro milênio.

Confiai-vos a Ele, fixai o vosso olhar no Seu rosto, perseverai na escuta de Sua Palavra. Deixai que seja Ele a orientar cada uma das vossas preocupações, aspirações e buscas, cada um dos vossos ideais, projetos, sonhos e determinações. O vento do mar está hoje, neste exato momento,  vos convidando a novas empreitadas, a novas missões, está vos desafiando a remar mar adentro e a lançar as redes em águas mais profundas onde o Cristo, nosso Porto Seguro, está à nossa espera, a fim de nos conceder o Seu Espírito que nos impulsiona, renova e dinamiza com o vento impetuoso de Pentecostes.

Aloísio Parreiras

2020-04-24T14:47:55-03:0024/04/2020|