MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA

Toda pessoa que adquire a consciência de que Deus é o destino absoluto de
nossas vidas abraça a fé sem reservas e não admite a possibilidade de se calar por
respeito humano diante de situações onde o Cristo e o Seu Evangelho são negados e
vilipendiados. Ao contrário, professa a sua pertença a Deus e à Igreja e, mesmo diante
das perseguições, não cala a sua voz no anúncio da fé e da Verdade e na denúncia dos
pecados, dos erros e de todo o mal.
Na História da Igreja, desde os primeiros séculos, nós encontramos inúmeros
relatos de santos que se transformaram em mártires, pois morreram testemunhando o
amor a Cristo. Entre outros, podemos citar: São Tiago Maior, Santo Estevão, Santa
Perpétua, Santa Felicidade, São Pedro, São Paulo, São Maximiliano Maria Kolbe, São
Tomás More e Santa Benedita da Cruz.
São João Batista, o último profeta do Antigo Testamento, o precursor do Cristo,
é um desses mártires que brilha na constelação da Igreja, iluminando a Comunhão dos
santos, e, por isso, no dia 29 de agosto, a tradição cristã faz memória ao martírio de São
João Batista, “o maior entre os nascidos de mulher”, segundo o elogio do próprio Cristo
(Cf. Lc 7,28).
O martírio por decapitação do profeta por excelência, na fortaleza de
Maqueronte, sobre o Mar Morto, é para nós uma prova evidente de que o martírio
prolonga e perpetua na história da Igreja o sólido testemunho da fidelidade cristã.
Recordando a força do martírio de São João Batista, podemos afirmar que ele é “um
sinal preclaro da santidade da Igreja”. (Papa João Paulo II, Veritatis Splendor, nº 91).
Ou ainda: Ele “representa o ápice do testemunho a favor da verdade moral”. (Papa João
Paulo II, Veritatis Splendor, nº 93).
São João Batista, o profeta do dealbar do Novo Testamento, durante toda a sua
vida imolou sua existência pelo anúncio do Messias prometido e esperado, consumindo
suas energias na defesa da verdade e da justiça. Desde o ventre de Isabel, sua idosa mãe,
no período de vivência no deserto, e em todos os dias de sua vida, São João Batista foi a
voz enviada para anunciar o Verbo encarnado. Pela sua fidelidade aos projetos de Deus,
São João Batista nos ensina que a voz em si mesma é nada, mas quando a nossa voz está
a serviço da Palavra, a serviço do Reino e da Boa Nova, essa mesma voz se constitui em
um poderoso instrumento em prol da salvação.
A voz do Batista que bradava no deserto foi também utilizada na denúncia dos
erros, das injustiças, das inverdades e de todas as formas de pecado. Por ter sido um
autêntico profeta, João Batista testemunhou a verdade sem condescendências e não se
calou diante das transgressões dos Mandamentos. Mesmo diante dos poderosos e do rei
Herodes, a voz do precursor não se calou; ao contrário, bradou efusivamente,
denunciando: “Herodes, não te é lícito possuir a mulher de teu irmão”. (Mc 6, 18).
Diante da denúncia de adultério, os inimigos se inquietaram e quando chegou o dia
propício para a vingança, a pedido de Herodíades e de sua mãe, João Batista foi
decapitado na prisão.
Calaram a voz do profeta, arrebentaram as cordas vocais do amigo do Esposo,
cortaram a cabeça daquele que apontou o próprio Cristo, a Cabeça da Igreja. Mas, por

outro lado, desde o dia de sua morte, a voz do profeta precursor adquiriu uma renovada
força que ecoou e ainda ecoa na história da Igreja, bradando: “Quem tem a esposa é o
esposo, mas o amigo do esposo que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do
esposo. Essa é a minha alegria e ela é completa!” (Jo 3, 29). Nossa alegria será autêntica
e completa quando estivermos prontos a dar em todos os momentos, mesmo à custa de
perseguições, de sofrimentos e de sacrifícios, um coerente testemunho de adesão ao
Reino de Deus.
Pelo seu testemunho profético, São João Batista é para cada um de nós um
modelo de discípulo e missionário de Jesus. Olhando para São João Batista, nós
aprendemos que quem se deixa atrair pelo Cristo e está disposto a segui-Lo até ao
sacrifício da própria vida, experimenta pessoalmente que são “felizes os que são
perseguidos por causa da justiça do Senhor; porque o Reino dos Céus há de ser deles!”
(Mt 5,10).
Olhando para São João Batista, nós detectamos que o caminho de nosso
Redentor é o caminho do amor pleno que supera a morte, pois quem vive em Deus e
com Deus já aqui na terra, com humildade e simplicidade, sabe demonstrar aos seus
contemporâneos o esplendor do rosto divino do Cristo. Olhando para São João Batista,
nós notamos o que pode ser ouvido nos interstícios das palavras: “Houve um homem
enviado por Deus. Seu nome era João. Este veio como testemunha, para dar testemunho
da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar
testemunho da luz!” (Jo 1, 6-7).
Alicerçados no exemplo de São João Batista, saibamos gastar nossas forças,
energias, dons e talentos e a própria vida no empenho missionário de preparar os
caminhos do Senhor, testemunhando com coragem a Sua verdade e o Seu amor a todos.
Invoquemos a intercessão de São João Batista para que, neste Terceiro Milênio da era
cristã, sejamos intrépidos e entusiásticos mensageiros da Boa Nova do Evangelho.
Vamos terminar, rezando: “Ó Deus, dai-nos aquela retidão dos vossos caminhos que
São João Batista, voz que clama no deserto, ensinou e confirmou com seu sangue. Por
Cristo, nosso Senhor!”.

Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)