MORRO UM POUCO A CADA DIA

Desde o momento em que nascemos, começamos a caminhada que nos conduzirá em direção à morte, pois, como nos ensina Santo Agostinho: “A morte é a doença incurável que contraímos ao nascer! ” Como católicos, pensamos na vida, participamos da vida e estamos em sintonia com a fonte da vida, que é o próprio Cristo. Nesse contexto, a morte é também para nós um sinal de vida que se revela eterna e plena. Se a morte é o estágio que temos que atravessar para estar com o nosso Redentor, deveria ser natural ansiarmos por esse encontro definitivo; afinal, nós “sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna. Aliás, é por isso que nós gememos, suspirando por ser revestidos com a nossa habitação celeste”. (2 Cor 5,1-2). Aqueles que vivem como se Deus não existisse e não creem na habitação celeste afirmam: “Ó morte, quão amarga é a tua lembrança! ” (Eclo 41,1). Como seres humanos, também nós podemos dizer: “Morro um pouco a cada dia! ” (1 Cor 15,31). Mas, como filhos adotivos de Deus, temos a grata obrigação de bradar que, em Cristo, a morte já foi vencida, pois Ele é a ressurreição e a vida.  Por Cristo, com Cristo e em Cristo, “a morte transformou-se em vitória! ” (1 Cor 15,55). Consequentemente, “se morremos com Ele, viveremos com Ele! ” (2Tm 2,11).

A pedagogia dos dias, que é composta de dias e noites, nascente e poente, sol e lua e início e término de jornada, é bem útil para ilustrar a realidade da morte em nossas vidas. Cada dia é uma nova ocasião para buscarmos a intimidade com Jesus Cristo. Cada nova aurora deve fazer resplandecer em nosso ser a plena convicção de que a graça habitual é o verdadeiro bem que nos conduzirá aos céus! A cada nascer do sol, Cristo, que é a plena luz de nossas vidas, vem nos arguir:  “Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá. Você acredita nisso? ” (Jo 11,26). Nossa resposta ao Cristo tem que ser dada não somente com palavras, mas sobretudo com a realização das práticas de caridade e pelo exercício da prática do bem. A realidade da morte baterá em nossas portas mais cedo ou mais tarde. Diante desse enigma, temos apenas duas opções: aceitação ou rejeição. Independentemente de nossa opção, ela se concretizará também em nós. Sabendo disso, vivemos na terra com os olhos fixos no céu. Vivemos com vigilância e prudência, buscando acumular unicamente tesouros no céu, pois, como nos adverte a sabedoria popular: “Caixão não tem gavetas! ”

Muitas pessoas nos dias de hoje, inclusive muitos cristãos, fazem da morte um tema intocável que deve ser esquecido e relegado somente para os dias de funeral e, assim, fazem com que a morte apanhe de surpresa muitos que não estão preparados. Solidificados nas virtudes teologais da fé e da esperança, devemos demonstrar que morrer em Cristo é uma Boa Nova! Se alguém próximo a nós está atravessando o duro combate da fé, enfrentando as dificuldades advindas com a realidade da morte, saibamos acolhê-lo, segurando firme em suas mãos e professando: “Não tenhas medo da morte. Aceita-a desde agora, generosamente, quando Deus quiser, como Deus quiser e onde Deus quiser! ” (São Josemaría Escrivá, “Caminho nº 739”).

Para concluir, é bom repetir com clareza que a morte não é o fim; ela é apenas o começo, o começo de nossa vida na Igreja triunfante, onde seremos recebidos pelo nosso Redentor, por Nossa Senhora e por todos os santos de Deus. Momento feliz será para todos nós o dia do nosso ocaso, quando Deus nos proporcionar esse encontro definitivo com Ele. Firmes e com grande emoção, poderemos dizer: “Agora, Senhor, podeis deixar ir em paz o vosso servo! ” (Lc 2,29).

Um dia, por meio da morte, chegará para todos e cada um de nós o momento em que peregrinaremos da Igreja militante para a Igreja triunfante! Chegará para todos e cada um de nós o momento de nossa entrada triunfal na Pátria do céu!  Ao reconhecermos que esse sublime momento está cada vez mais próximo, poderemos expressar com convicção: “O momento de minha partida chegou. Empenhei-me no bom combate até o fim, terminei minha carreira, guardei a fé! ” (2 Tm 4,6).

Ao entrarmos na dimensão invisível da Igreja, a caridade nos impulsionará a ficar de joelhos diante de Nosso Senhor Jesus Cristo e poderemos, então, afirmar: Senhor, como bem sabes, eu sou o timoneiro de um navio que enfrentou e venceu inúmeros vendavais e tempestades! Senhor, eu sou o timoneiro de um navio que, orientado pela luz de Tua verdade, se aproxima agora do cais da eternidade! Sou, Senhor, o timoneiro de um navio que está vislumbrando a firmeza e a beleza do Porto Seguro que é a Pátria eterna! Senhor, eu posso e devo, nesse exato segundo, soltar as velas e não precisarei mais firmar a âncora da esperança, pois ela já se realizou! Estou contigo, Senhor e, a partir desse instante, já estou singrando a eternidade dos céus!

Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

 

2019-10-30T19:33:21+00:0030/10/2019|