“MOSTRAI-NOS, SENHOR, A VOSSA MISERICÓRDIA”

No decorrer de nossas vidas, nós podemos atravessar momentos de dificuldades, de tristeza, de tempestades e de desânimo quando parece que a solução não vem, ou seja, não encontramos uma única janela que esteja aberta para deixar entrar um sopro de esperança. Os meses, as semanas, os dias e as horas passam e a tão esperada resolução dos problemas, o fim da tempestade e o início dos novos tempos não são vislumbrados de imediato.

Esse difícil momento da História que nós estamos vivenciando, em função de uma pandemia, é um desses momentos em que, mesmo sem querer, parece que estamos atravessando um deserto com um calor escaldante, sem água para aplacar a nossa sede. Se não cuidamos, nesse deserto, somos prisioneiros do desconforto, da aridez, do pessimismo e da tristeza, tornando-nos pessoas saudosistas que só vislumbram alegrias no passado, repetindo com frequência: Eu era feliz e não sabia!

Para fazer contraponto a essas atitudes pessimistas e enfrentarmos o medo com sabedoria, nós precisamos buscar um amparo seguro na Pessoa de Cristo e em Seu amor, pois a cada um de nós, seja qual for a condição em que se encontre, até a mais dramática e complexa, o nosso Redentor diz: “Não temais!”.

Somente unidos ao Cristo, nós podemos esperar no Senhor, exercitando a oração, o diálogo confiante com Deus, mesmo em meio às tempestades, com a consciência de que “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus”. (Rm 8, 28). Pelo aprendizado da oração, nós descansamos em Cristo que é a nossa paz, nossa verdade e nossa justiça, realizando um simples ato de abandono nas mãos providentes do Senhor, superando assim as barreiras da escuridão e da tristeza, da dúvida e do desespero.

Penetrando o terreno sagrado da fé, sentimos os raios da divina misericórdia que nos concedem uma nova esperança, projetando a visão de uma nova alvorada que nos permite escutar a doce voz de Jesus sussurrando em nossos ouvidos: “A humanidade não encontrará paz, enquanto não tiver confiança na misericórdia divina”. (Diário de Santa Faustina, página 132).

Nessa escuta dos ensinamentos de Jesus Cristo, adquirimos a consciência de que a misericórdia não abandona quem fica para trás. Ao contrário, a misericórdia cria possibilidades de reencontrar quem ficou para trás, carregando-o no colo sempre que for preciso; afinal, “as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as Suas misericórdias não têm fim; novas são a cada manhã; grande é a Tua fidelidade!”. (Lam 3, 22).

Todos os dias, pela perseverança na oração e pela meditação das Sagradas Escrituras, somos capacitados a vencer a tendência de não enxergar a bondade, a ternura e a misericórdia de Cristo. Conhecendo a Palavra de Deus e observando os Seus passos ao longo da História da Salvação, nós reconhecemos que a misericórdia divina resplandece no Verbo encarnado, pois é Ele quem perdoa os nossos pecados, cura as nossas feridas, nos salva da morte e nos abençoa com amor e paz, preenchendo as nossas vidas com muitas graças. Agindo assim, Ele demonstra que é misericordioso e, por isso, não nos castiga como merecemos, mas nos acolhe com carinho, compaixão e caridade.

Encontrar a Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus, pois “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”. (Papa Francisco, Misericordiae Vultus, nº 1). Desse modo, é em Cristo e em Suas palavras, gestos e obras que contemplamos os sinais da divina misericórdia. Foi realmente para isto que Ele veio ao mundo: para nos falar do Pai, para O dar a conhecer a nós, e conceder novamente aos nossos corações a alegria de pertencer a Ele, a esperança de sermos perdoados e restituir a nossa plena dignidade de seres humanos que são imagem e semelhança de Deus.

“A misericórdia é o atributo divino por excelência”. (São Tomás de Aquino). Por conseguinte, em nossa vida diária caracterizada por dificuldades, problemas e situações por vezes dramáticas, nós somos convidados a clamar ao Senhor, insistentemente, dizendo: “Mostrai-nos, Senhor, a Vossa misericórdia e dai-nos a Vossa salvação!”. (Sl 85,8). Salmodiando, iremos perceber que, mesmo nas dificuldades, o amor de Deus se faz presente em nosso cotidiano.

Desvendar a misericórdia de Cristo é um mistério, pois a misericórdia é uma expressão do infinito amor de Deus por nós. Na correspondência ao amor de Jesus, nós temos a revelação de que Deus sabe sempre o que é melhor para o Seu Povo e, no itinerário da fé, Ele nos solicita o nosso sim para transformar a nossa existência, abrindo-nos o caminho rumo a uma plenitude de significado, tornando-a assim nova, rica de alegria, de júbilo e de esperança confiável.

Nas noites escuras, nos furacões da História e nos terremotos da vivência da fé, é no Sagrado Coração de Jesus que iremos encontrar as marcas da divina misericórdia que nos revelam que, nas perseguições e nas dificuldades, devemos crescer sempre mais na intimidade com o nosso Redentor por meio da familiaridade com a Sagrada Escritura e com os sacramentos. Agindo assim, iremos testemunhar os sinais da nossa fé e seremos quase um livro aberto que descreve a experiência da vida nova no Espírito Santo, evidenciando que, de alguma maneira, nós somos a porta da misericórdia que está sempre aberta para acolher a todos aqueles que carecem da água salutar que jorra pura e límpida da Fonte do Coração do Senhor.

Virgem Santa Maria, Mãe da Misericórdia, ajudai-nos a conservar sempre viva esta confiança na misericórdia do vosso Filho, nosso Redentor. Ensinai-nos, Mãe, a manter a chama da esperança sempre acesa, mesmo em meio aos vendavais das pandemias e aos tsunamis da depressão, da solidão e do vazio existencial. Amparai-nos, ó Mãe, com a vossa poderosa intercessão, a fim de que possamos permanecer firmes e unidos na vivência da comunhão dos santos, suplicando ao nosso próximo: “Peço-vos que não desanimem com as tribulações”. (Ef 3, 13). E no bom combate em prol da fé “tenham ânimo em seus corações!”. (Cl 2,2).

Aloísio Parreiras
2020-07-17T08:13:41-03:0017/07/2020|