NINGUÉM EXPLICA DEUS!

O mundo experimenta velozes transformações e, a cada novo dia, novos modelos substituem antigos paradigmas numa velocidade impressionante. Os avanços da tecnologia e das ciências nos fazem crer que os seres humanos estão no controle de todas as coisas, mas “bastou o menor e mais informe elemento da natureza, um vírus, para nos recordar que somos mortais”. (Pe. Raniero Cantalamessa, Pregação da Liturgia da Paixão, em 10 de abril de 2020).

Mesmo que sejamos seres mortais repletos de falhas e de limitações, nós, pelo bom uso da razão, podemos perceber que Deus existe pela observação do equilíbrio que existe na natureza e pelo ciclo dos dias e das noites. De algum modo, “na grandeza e na beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu Criador”. (Sb 13, 5). Em nossa fragilidade jamais poderemos definir ou explicar quem é Deus, pois a nossa mais perfeita ideia de Deus está a bilhões de anos-luz de distância do que Ele realmente é.

Deus é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem n’Ele; aliás, “todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele”. (Cl 16, 17). Ele criou tudo o que existe no universo, cada detalhe e, por isso, o universo funciona de maneira tão perfeita, tudo tão complexo seguindo regras exatas. Com a força da Sua Palavra e utilizando a Sua Sabedoria, Ele criou a luz, o céu, a terra, os oceanos, as estrelas, os animais, as árvores frutíferas e todas as coisas. Em uma manifestação visível do poder da Sua caridade, Ele chegou ao ápice da criação ao criar os seres humanos. Cada minuciosidade da criação revela que Deus é o Autor da beleza suprema, isto é, Ele é o Belo por excelência.

Deus é inexplicável e, por isso, por melhor e mais adequados que possam ser alguns atributos ou características que atribuímos a Ele, “nada se compara a Deus”. (Ex 15, 11). Deus não possui perfeições, Ele é a Perfeição. Ele é simples e complexo ao mesmo tempo. Simples por ser composto de uma única e exclusiva essência. Complexo porque toda esta perfeição que podemos observar é apenas uma partícula, uma forma bem simplificada de Deus, que é muito mais do que tudo isso.

Deus sempre existiu e o Seu tamanho e a Sua presença é impossível de se medir. Deus inventou o tempo e o espaço, mas Ele não está limitado por eles e já existia quando não havia tempo e espaço. Ele não falha, Ele jamais erra, não faz coisas ruins e não muda. Nós mudamos com o tempo, temos novos aprendizados e mudamos de opinião, mas Deus é constante na Sua perfeição. Ele não teve um começo e jamais terá um fim, Ele mesmo é o Pai da eternidade.

Só existe um Deus, não existem outros deuses. Ele é infinito, imenso, onipotente, onisciente, poderoso, onipresente, transcendente. Numa explosão de amor, Deus nos criou e, por isso, não somos um grão de pó inútil, disperso num tempo e num espaço sem sentido, mas fazemos parte de um sábio projeto que surgiu do amor de Deus. Ele é a origem primeira e a razão última da criação e das criaturas.

Quando não correspondemos ao amor de Deus, quando não percebemos os sinais de Sua presença em nossas vidas e em nossa História, no nosso coração fica faltando um pedaço, um bom pedaço, pois, como nos ensina Santo Agostinho, “o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Deus!”. Deus é único, vivo e verdadeiro. Ele conhece tudo a nosso respeito, conhece os nossos movimentos e os pensamentos que alimentamos em nossa mente, pois nos cerca com pleno e total conhecimento.

Por nos conhecer melhor do que nós mesmos, quando dizemos “eu não consigo mais”, Ele nos diz: Não desisti, esperai, perseverai, vigiai. Quando afirmamos: “isso não é para mim”, Ele nos diz: “Tudo isso é seu!” (2Sm 24, 23). Quando nos deixamos levar pela insanidade e Lhe dizemos “me esquece”, Ele sussurra aos nossos ouvidos: “Eu não me esquecerei de ti!”, (Is 49, 16).

O filósofo e escritor Friedrich Nietzsche disse que Deus está morto; será mesmo? Nietzsche é que está morto e a espiritualidade e a sede por Deus estão mais avivadas do que nunca. Jean Paul Sartre e outros ateus tentaram negar a existência de Deus, os teólogos tentam explicar a Sua essência e, ainda hoje, existem pessoas que pensam que a ciência tornou desnecessárias a teologia e a religião, e por isso, a sociedade deveria reger-se por leis matemáticas ao estilo da física. Agindo assim, eles se esquecem de que “quem deixa Deus fora de suas contas, não sabe contar!”. (São Josemaría Escrivá).

Deus é a Sabedoria por excelência e sem Ele nós somos simples analfabetos, caminhantes sem rumo e sem destino. Ele é a Luz que ilumina a nossa História, o Amor que precisa ser amado. Ele não precisa de nós para ser Deus, pois Ele é Aquele que é, mas nós precisamos de beber da água da Fonte da vida, que Ele nos concede, para alcançarmos a vida eterna, o paraíso.

Deus é o Bom Pastor que está sempre à procura da ovelha perdida, o Pai misericordioso que espera ansioso a volta do filho pródigo, a Casa edificada sobre a rocha que se mantém firme em todo tempo e lugar. Deus é Amor que se revela e nos faz compreender que, mesmo nas tempestades, é possível vislumbrarmos a beleza de um arco íris. Ele tem traços determinantes de Pai, de Mãe e de Irmão. N’Ele, tudo é mais do que significativo. N’Ele tudo é novo, belo, atual, moderno, pleno e infinito.

A matéria, a energia, a vida e a luz têm a marca de Deus. Desse modo, é possível conhecê-Lo e impossível compreendê-Lo totalmente, pois Deus é Deus, pleno amor e misericórdia. Ninguém explica Deus, mas, na obediência e na escuta da voz de Deus, podemos nascer para a fé e começarmos, assim, a perceber que o Cristianismo não é apenas uma doutrina, não é uma simples forma de comportamento. O Cristianismo é o encontro com uma Pessoa, um encontro transformador com o nosso Redentor que nos ensina que a vida vence a morte, a luz supera as trevas e o bem triunfa sobre o mal.

Deus caminha ao nosso lado no cotidiano da fé. Ele escuta as nossas inquietações, conhece-as e, no tempo oportuno, abre as portas onde encontramos as esperadas soluções de nossos problemas. Na senda da nossa História, o Senhor não acelera o passo. Ele caminha ao nosso ritmo, muitas vezes lento, mas a Sua paciência é assim.

Do maniqueu ao judeu, ninguém explica Deus. Do católico ao ateu, ninguém explica Deus. Do evangélico ao plebeu, ninguém explica Deus. Mas temos necessidade de encontrarmos a Deus e de correspondermos ao Seu amor, pois nascemos para conhecer, servir e amar a Deus. Por conseguinte, precisamos amá-Lo tanto assim, ou ainda mais, pois carecemos de um sentido para os nossos dias, precisamos de Deus para sabermos de onde viemos e para onde iremos.

Que o Senhor Deus nos conceda a todos a graça de encontrá-Lo todos os dias de nossa existência. Que Ele nos ajude a perceber a Sua presença ao caminhar conosco em todos os momentos. Com carinho, zelo e amor, Ele nos carrega em Seus braços quando enfrentamos as noites escuras da vida, pois Ele é o nosso companheiro de peregrinação nessa Igreja militante, ensinando-nos a preparar a conquista do Reino dos Céus e ajudando-nos a adquirir a consciência de que Deus não se explica, Deus se vive!

Aloísio Parreiras 

2020-06-05T16:01:20-03:0005/06/2020|