NOSSA SENHORA DAS DORES

Eu sou proveniente de uma Paróquia onde encontramos, ao lado do Sacrário, uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Esta imagem nos transmite a noção de que o sacrifício do Altar e o sacrifício da Cruz são o mesmo sacrifício e nos ajuda a recorrer a Nossa Senhora, utilizando o título de Nossa Senhora das Dores, a consoladora Mãe que, de alguma forma, abranda o peso das nossas dificuldades.

Naquele lugar aprazível, muitos de nós, paroquianos, ou as pessoas que visitam a Paróquia, nos momentos de prova e de tempestades, recorremos à poderosa intercessão de Nossa Senhora, a fim de que Ela nos ajude a santificar as dores cotidianas com renovada santidade, fé, sabedoria e esperança.

Nossa Senhora das Dores, a Senhora das Dores, ou a Mãe Dolorosa é um dos títulos que é conferido à Virgem Maria no desenvolvimento da História da Igreja. Este título se refere às sete dores que Nossa Senhora sofreu ao longo da sua vida terrestre, principalmente nos momentos da Paixão e Morte de Cristo.

A imagem de Nossa Senhora das Dores, com espadas cravadas em seu peito, é extremamente significativa e nos ajuda a meditar no alcance das dores de Maria aos pés da Cruz de Jesus. Nesse momento do mundo, nesses dias da pandemia da Covid-19, a imagem da Mãe das Dores é para nós um sinal de que não estamos sozinhos nessa noite escura, pois a Mãe das Dores está ao nosso lado, sofrendo conosco e ajudando-nos a oferecer as pequenas e grandes cruzes do dia a dia pela conversão dos pecadores e pela reparação das ofensas sofridas pelo Sagrado Coração de Jesus.

No Evangelho, nós não encontramos a Virgem Maria nos momentos em que Jesus se revela ser Deus, sobretudo por meio dos milagres, pelo perdão dos pecados e pela expulsão dos demônios, mas Ela se faz presente na dor suprema de Cristo nos momentos de Sua Paixão, Crucifixão e Morte.

Utilizando a nossa imaginação, podemos refletir na cena descrita por São João Evangelista: Cristo, suspenso na Cruz; e, aos pés da Cruz, Sua piedosíssima Mãe. Em silêncio, Nossa Senhora das Dores acompanha o sofrimento redentor do Cristo. Penetremos na profundidade do olhar de Nossa Senhora da Cruz, que está fixo em nosso Redentor. O que ele nos diz? O olhar de Nossa Senhora da Cruz nos diz: “Muitos vejam, respeitem, adorem e esperem em Deus, confiantes” (Sl 39,4).

Esse olhar da Senhora das Dores ainda nos diz: “Com prazer, faço a vossa vontade, guardo em meu coração a vossa vontade” (Sl 39,9). Durante as três horas em que Cristo ficou suspenso na Cruz, Nossa Senhora das Dores reiterou o seu “sim” e soube, como ninguém, associar-se ao sacrifício de Jesus Cristo. Com amor, olhemos para a íris do olho direito de Nossa Senhora da Cruz e vejamos o que lá está expresso: “Quero ofertar-vos o meu sacrifício de coração e com muita alegria” (Sl 53,8).

Com gratidão, olhemos agora para a íris do olho esquerdo de Nossa Senhora da Cruz e notemos o que lá está expresso: “O meu Deus e meu Senhor é minha força e me faz ágil como a corça” (Hab. 3,19). Descobrimos, assim, de onde a Virgem Maria retirou as forças necessárias para resistir, de pé, a tanta dor e a tanto sofrimento. Há um nexo muito estreito entre o sofrimento de Cristo e o sofrimento da Santíssima Virgem. Mesmo em Seu sofrimento, Cristo consolou a Sua Mãe, do mesmo modo que, mesmo sofrendo na alma as dores da Paixão de Cristo, Nossa Senhora, com sua presença, silêncio e profundos gestos de fé, consolou seu amado Filho.

Nossa Senhora das Dores conhece profundamente o que é a dor e o sofrimento e, por isso, Ela vela continuamente por nós, em nossas enfermidades e fraquezas. É contemplando o exemplo da Virgem dolorosa que aprendemos a cumprir a vontade de Deus em nossas vidas, principalmente quando Ele nos pede que abracemos a cruz. “Admira a firmeza da Santa Mãe ao pé da Cruz, com a maior dor humana – não há dor como a sua dor – cheia de fortaleza. E pede-lhe dessa firmeza, para que saibas também estar junto da Cruz” (São Josemaría Escrivá, Caminho, n.º 508).

É junto de Nossa Senhora das Dores que buscamos forças para superar a perda de um parente ou de um amigo e os sinais de morte que nos cercam em tempos de pandemias. É, também, junto de Nossa Senhora, a Mãe sofredora, que entendemos o valor salvífico do sofrimento.

Se acaso a vida nos indicar sua face dolorosa, não nos apavoremos e cuidemos da fé, amparados em Nossa Senhora das Dores, pois “a presença de Maria junto da Cruz é o sinal de que a Mãe seguiu até o fim o itinerário doloroso, traçado pelo Espírito Santo pela boca de Simeão”. (Papa João Paulo II, Audiência em 09 de dezembro de 1998).

No final do ano de 2004 e, principalmente, nos primeiros meses do ano de 2005, acompanhamos os sofrimentos do Papa João Paulo II que, em nenhum momento, quis ocultar suas dores e limitações. Ao contrário, desde o começo, ele fez questão de nos ensinar que o sofrimento pode e deve ser convertido em oração. Ele também nos ensinou que, para aqueles que amam o Senhor, o sofrimento é fonte de redenção. Onde o nosso amado e saudoso Papa João Paulo II encontrou tamanha força? Certamente, no exemplo de Nossa Senhora das Dores.

Nossa Senhora das Dores é também chamada de Nossa Senhora da Consolação, pois Ela é a Mãe que nos consola, fortalece, conforta e alenta a nossa esperança. Junto de Nossa Senhora da Consolação, adentrando a escola de Maria, nós adquirimos a consciência de que para todo o mal há uma cura, para cada dor há um tratamento, para toda a doença há um cuidado paliativo e para cada solidão há um Deus que nos acolhe, perdoa e renova.

Para concluir, utilizemos a oração que o Papa Pio XI escreveu para o encerramento do Jubileu da Redenção. De joelhos, diante da Cruz, dirijamo-nos a Senhora das Dores, clamando: “Ó Mãe de piedade e de misericórdia, que acompanhastes o vosso Filho, quando realizava a redenção do gênero humano no altar da Cruz, como nossa Corredentora, associada às Suas dores. Ó Mãe, conservai e aumentai em nós os frutos da Redenção e da Vossa compaixão. Amém!”.

 

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-09-15T10:44:25-03:0015/09/2020|