O caminho da oração

Há certas coisas que deixam marcas indeléveis em nossas vidas e em nossa
História. O aprendizado e o exercício da oração são boas memórias que fazem parte do
tesouro espiritual da fé e, por isso, muitos de nós recordamos as orações que
aprendemos com nossos pais nos períodos da infância e da adolescência.
O tempo passou, crescemos, nos tornamos adultos e aprendemos inúmeras
orações, mas não nos esquecemos daquelas orações que estão impressas em nossas
almas, pois, de algum modo, essas orações são tridimensionais: elas nos aproximam de
Deus, dos nossos familiares e de nós mesmos, atualizando bons momentos de oração em
família e evidenciando a força da Palavra de Cristo que nos diz: “Onde dois ou três
estiverem reunidos em Meu Nome, Eu estou ali, no meio deles!”. (Mt 18, 20).
A memória é algo fantástico que nos assegura que os bons momentos não
morrem. Desse modo, mesmo que não tenhamos mais a nossa mãe terrena ao nosso
lado, por meio do exercício da memória, nós podemos voltar a ser crianças ao lado da
nossa mãe, cantando, com a simplicidade da alma, uma doce canção para a Virgem
Santa Maria: “Mãezinha do céu, eu não sei rezar. Quero te dizer: eu quero te amar. Azul
é o teu manto, branco é o teu véu. Mãezinha eu quero te ver lá no céu”.
Mesmo sendo um adulto, eu sinto saudades de ser criança e, por isso, procuro
sempre me lançar nas mãos confiantes de Deus tal qual um menino que não hesita em se
lançar nos braços de seu pai. Por conseguinte, quando nada dá certo e não sei o que
fazer, só sei dizer: “Senhor, estou perdido. Conduza-me com a Sua mão. Mostre-me o
caminho que devo seguir e permaneça comigo, aquecendo o meu coração nos bons e
maus momentos da vida”.
Agindo assim, eu estou aprendendo que rezar, fazer oração, não é uma tarefa
fácil. O hábito de rezar exige de nós os gestos de disposição, doação e compromisso.
Exige também organização, silêncio e perseverança. Em termos humanos, nós gostamos
das ocasiões em que as pessoas nos tratam com atenção, zelo e carinho. De um modo
semelhante, em nossa vida de oração, devemos sempre ponderar: Oferecemos a Deus o
que temos de melhor? Entregamos a Ele todo o nosso amor e o nosso carinho? Nossa
oração é, de fato, um diálogo com o Senhor?
A convivência com os nossos familiares, amigos e pessoas próximas pode ser
um bom parâmetro para nosso relacionamento com Deus. Na amizade e na convivência
familiar, o que não falta são motivos para uma boa conversa e assim deve ser também
na vida de oração.
Se não cuidamos, corremos o sério risco de ficarmos estagnados nas orações de
petição sem avançarmos para as águas mais profundas da fé. Se pedimos e não
recebemos, devemos recordar os ensinamentos de Santo Agostinho que nos afirma:
“Pedimos e não recebemos? É porque pedimos mal, pedimos coisas más e somos
maus”.
O vento do Espírito Santo nos conduz ao oceano da oração e nos faz vislumbrar
a necessidade de aprendermos a agradecer, louvar e glorificar a Deus. A docilidade ao
Paráclito nos faz ainda perceber que a gratidão é uma virtude que deve estar presente
em nossas orações como o pulsar do coração. Movidos pelo doce Espírito, estamos

capacitados a dizer: Obrigado, Jesus, pelo dom da vida, pela família que me destes, pelo
dom da saúde, pela graça de participar de Vossa Igreja e, principalmente, obrigado pelo
Vosso Amor.
Para que possamos realizar uma oração simples, fecunda e determinante, são
necessárias algumas condições. Eis o que nos ensina o Senhor: “Quando fores rezar,
entra no teu quarto, fecha a tua porta e reza a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê em
lugar secreto, te recompensará.” (Mt 6, 6).
O local escolhido para realizar uma oração deve ser acolhedor, arejado e deve
nos propiciar silêncio. O silêncio é a atmosfera da oração. O silêncio é necessário para
se escutar a Deus. No mundo atual, carecemos de silêncio, estamos cercados de ruídos e
de muito barulho e parece que nossos ouvidos estão sempre zunindo. Precisamos, com
urgência, redescobrir o valor e a importância do silêncio com a consciência de que Deus
está presente no silêncio.
Um referencial que nos ajuda a perceber o alcance do nosso amor e da nossa
entrega por Deus é o bom hábito da oração, ou seja, a temperatura da nossa oração. Se
rezamos, em diversos momentos, estamos alimentando nossa união com Deus. Mas, se
só rezamos vez por outra, com atropelos e de qualquer modo, é bom cuidar, pois algo
não está bem.
É sempre muito bom poder ver as pessoas nas igrejas em oração, diante do
sacrário e participando da Santa Missa, que é a oração por excelência. É gratificante
encontrar casais com os seus filhos rezando o terço no ambiente familiar ou pelas ruas
de nossas cidades, testemunhando que a vida de oração é um itinerário, um caminho de
identificação com o Senhor. Como sabemos, todo caminho é feito de momentos de
cansaços, alegrias, dificuldades, noites escuras, dias de sol e de chuva, dias de verão, de
outono, de inverno e de primavera.
A oração é o alicerce que sustenta a vida da família, o combustível da alma, o
manancial da humildade, a fonte da esperança e farol que ilumina a nossa existência.
Humanamente falando, sabemos o quanto um carro facilita a nossa vida. Andando de
carro, economizamos tempo, mas, sem combustível, um carro não anda. Na vida
espiritual também é assim, pois, é por meio da oração que mantemos o tanque do
combustível da santidade sempre cheio, proporcionando o movimento que nos conduz
às periferias humanas e existenciais do nosso tempo.
Para concluir, eu quero lhe questionar: você tem um plano de oração? Você tem
reservado tempos e momentos diários para estar junto de Deus? A sua oração é,
realmente, um fecundo diálogo com o Senhor?
Agora, eu vou lhe dar um conselho: saiba colocar a oração em sua vida. Comece
com orações simples e curtas, mesmo que sejam breves jaculatórias. Mas não pare por
aí e, com o passar do tempo, escute a voz do seu coração lhe dizendo: “Avance na senda
da justiça e renove o seu cotidiano com a presença de Deus”. Em outras palavras:
aproveite todas as oportunidades que a vida lhe oferece para elevar o pensamento a
Deus, para entabular com o Senhor uma inesquecível boa conversa. Assim, sem
necessidades de palavras, você irá professar que a sua própria vida é uma simples,
profunda, significativa e determinante oração.

Aloísio Parreiras

2020-08-12T19:07:55-03:0012/08/2020|