O CHAMADO DE DEUS

Pelos relatos do Evangelho, nós podemos contemplar o chamado, a proposta ao Seu seguimento que Cristo apresentou aos Doze Apóstolos, no desenvolvimento de Sua vida pública, após ter compaixão das multidões que estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor. Por meio do chamado dos Apóstolos, Cristo nos demonstrou que toda vocação é um chamamento, uma proposta de amor realizada pelo próprio Deus que nos apresenta inúmeros desafios, mas, ao mesmo tempo, nos assegura que Ele permanecerá conosco desbravando novas messes.

Também hoje, em pleno século XXI, o Cristo dirige o seu olhar amoroso para todos nós e nos convida a caminhar com Ele, discernindo o que Ele espera de nós. Caminhando ao lado de Cristo, nós aprendemos que toda vocação é uma tarefa, um exercício contínuo que exige sacrifícios e renúncias, mas, ao mesmo tempo, traz uma verdadeira alegria e um fecundo crescimento espiritual, porque é alimentada pela intimidade com Jesus Cristo e por um amor irreprimível pelo nosso próximo.

Toda vocação é um gesto de gratuidade de Cristo que, apesar de não precisar, quer contar conosco no serviço da alegria do Evangelho. Desse modo, compete a cada um de nós o dever de trabalhar cotidiana e silenciosamente, no intuito de descobrir qual é a nossa vocação, para que possamos realizá-la plenamente, com o ideal de transmitir ao nosso próximo todas as coisas que recebemos das mãos generosas do Senhor.

Todos nós temos uma vocação, um chamamento pessoal e intransferível que o Altíssimo nos faz em Seu amor. Essa vocação traz consigo desafios e responsabilidades. Os principais desafios que Cristo apresentou aos Apóstolos era anunciar o Evangelho, curar os doentes e purificar os leprosos. E eles obedeceram ao Senhor, largaram as suas redes, abraçaram a santidade e passaram pelo mundo fazendo o bem. Contemplando o exemplo dos Apóstolos, nós evidenciamos que, se queremos ser felizes, “temos que sair de nós mesmos, complicar a vida, perdê-la por amor de Deus e das almas”. (São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n º 19).

No desenvolvimento de nossa vocação, aprendemos que a vida não nos pertence, e sim a Cristo e ao nosso próximo, pois “a vocação é um fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor uns aos outros que se faz serviço recíproco, no contexto de uma vida eclesial. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si. A vocação brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno”. (Papa Francisco, Mensagem para o 51º Dia Mundial de Oração pelas Vocações).

Toda vocação é uma obra do Espírito Santo em prol da comunidade à qual pertencemos e em prol da Igreja. Quando descobrimos qual é a nossa vocação, deixamos de perder tempo com as coisas acessórias e abraçamos, resolutamente, tudo aquilo que nos faz estar mais perto do Altíssimo. Quem exerce a sua vocação, aprende a “servir ao Senhor com alegria!”. (Sl 99,2). Aprende também que a vocação é um compromisso concreto, total e real que abraça a nossa existência e a põe ao serviço da edificação do Reino de Deus. Quando somos dóceis ao Espírito Santo, aprendemos a dizer sim ao Senhor, professando: “De bom grado, darei o que tenho e dar-me-ei a mim mesmo totalmente, em Vosso favor!”. ( 2 Cor 15, 15).

Momento feliz de nossa história é o instante em que contemplamos toda nossa vida, à luz do fiel cumprimento dos planos do Senhor, com a consciência de que Deus espera muito de nós. Nesse momento, sem proferir palavras, o nosso coração balbucia: “Eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade!” (Hb 10,7), pois “o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou!” (Jo 4,34).

Conscientes de que toda vocação é uma graça que Deus concede não só a uma pessoa, mas a todos os seres humanos, nós somos intimados a repartir os frutos – visíveis e invisíveis – oriundos dessa mesma vocação; afinal, “há uma vontade de Deus conosco e para nós, que deve tornar-se a medida do nosso querer e do nosso ser!”. (Papa Bento XVI, “Jesus de Nazaré, capítulo 5”).

No processo de discernimento da nossa vocação, nós atravessamos três estágios: ouvir o chamado de Deus, meditar, no silêncio, a proposta do Senhor e corresponder, sem medo ou reservas, a tudo aquilo que Ele nos pede, ou seja, com plena confiança. Nem sempre é fácil identificar qual é a nossa vocação e, muitas vezes, quando a encontramos, corremos o sério risco de achar que ela é um peso insuportável, uma carga difícil de carregar. O importante nessas situações é saber exercitar a virtude da fé, afirmando: Senhor, tu sabes mais, e sabes melhor do que eu, o que é melhor para mim!

Quando somos perseverantes no seguimento dos projetos de Deus, permitimos que nossa vocação cresça e floresça em nossas almas e em nossos corações; em consequência, Deus vem em nosso auxílio, cobre-nos de graças e bênçãos e fortalece os nossos passos na senda da esperança. Pela reta adesão aos projetos que Deus traçou para nós, caminhamos com passos firmes em direção ao céu. Dizendo sim ao convite vocacional que o Cristo nos faz, adquirimos a consciência de que a fidelidade à nossa vocação é o verdadeiro bem, o autêntico e precioso tesouro que somos chamados a repartir.

Quando descobrimos qual é a nossa vocação e a realizamos, nós deixamos de ser míseros náufragos em meio ao oceano do mundo, dado que, após anos e anos de espera, em um súbito momento, ao sentir e ouvir um sopro de esperança, nós levantamos a nossa cabeça em direção ao infinito e vislumbramos um luminoso farol, uma nova alvorada que ameaça o nosso silêncio, exigindo de nós um alto e sonoro grito de resposta.

Sem perder tempo, diante da luz desse singular farol, não podemos ficar calados e não podemos ficar estáticos, parados com assombro no mesmo lugar, pois, quando avistamos um paraíso de possibilidades e um oásis de realizações, não querer nadar com largas braçadas em direção a ele é uma imensa burrice, diria mesmo que é uma grande insanidade.

Cumprir a vocação que Deus nos outorgou é o caminho mais curto para estar junto a Ele. É na adesão à nossa vocação que descobrimos que Deus é amor. É na adesão à nossa vocação que sentimos que está oculto em nós um continente de esperanças, um oceano de possibilidades. Ao exercer a nossa vocação em todos os momentos, nós estamos desbravando esse continente de esperanças, atravessando esse oceano de possibilidades. Estamos também nos libertando da autodestruição do egoísmo, permitindo que a única Verdade adentre pelo nosso coração, renovando a nossa pertença a Deus e à Igreja.

Peçamos à Virgem Santa Maria, a Mãe e Rainha das vocações, que nos ensine a libertar a nossa vocação, para que, por meio de nossas vidas e testemunho, sejam revelados para a nossa comunidade os traços específicos do amor que Deus imprimiu no fundo de nossas almas. Mãe Maria, intercedei pelas comunidades cristãs, a fim de que, renovadas pelo Espírito Santo, tornem-se um manancial de vocações autênticas para o serviço do Povo santo de Deus.

 

Aloísio Parreiras

2020-06-13T09:34:18-03:0014/06/2020|