O DOM DA AMIZADE

A amizade é um dom sagrado que vem de Deus, é um bem muito precioso e, por isso, devemos cultivar sólidas e fecundas amizades no decorrer de nossas vidas. A amizade é uma expressão do amor tão significativa que o próprio Cristo cultivou sólidas amizades no decorrer de Sua vida. O Evangelho nos recorda que Ele teve amigos fiéis ao Seu lado, com os quais pôde repartir os Seus nobres sentimentos e o Seu amor incondicional. Entre esses amigos, podemos citar: Pedro, João, Tiago e os demais apóstolos, Lázaro, Marta e Maria de Betânia.

Certo dia, o Cristo disse aos Apóstolos: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando… Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de Meu Pai”. (Jo 15, 14-15). Assim como os Apóstolos e os discípulos das primeiras comunidades cristãs e das gerações que nos sucederam, também nós devemos perceber que ser amigo de Cristo é uma exigência que brota da vivência da fé. Nesse trabalho de solidificação da amizade com o nosso Redentor, devemos recorrer ao imprescindível auxílio da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ao Divino Espírito Santo, a fim de que Ele nos ajude a incrementar nossa união com Jesus por meio dos sacramentos, da oração e do aprendizado da caridade.

Todo aquele que é amigo de Cristo é, necessariamente, um portador da vida sobrenatural da graça que lhe permite anunciar, sem reservas, a sua adesão à Pessoa de Jesus. A amizade com Cristo nos conduz à renovação da nossa vida espiritual, pois, todas às vezes que O encontramos, mediante a prática dos meios de perseverança na fé, nós renovamos a certeza de que somente Ele tem a mensagem de salvação que nos liberta de todas as prisões e de todas as formas de escravidão.  Em união com o Cristo, nós somos livres, mas se nos afastamos de Sua Pessoa, pelo mau uso da nossa razão, somos escravos do pecado.

No amadurecimento da amizade com Jesus, devemos aprender que romper a amizade com o nosso Redentor, perder a vida da graça e aderir ao pecado é a pior coisa que pode nos acontecer, pois “se O afastas de ti e O perdes aonde irás, a quem buscarás por amigo? Não podes viver sem um amigo; e se Jesus não for o teu amigo, estarás muito triste e desconsolado”. (Thomas de Kempis, “Imitação de Cristo, II, 8,3”). Transparecer os sinais da nossa amizade com Jesus faz bem a todos, pois os amigos de Deus são sinais de esperança, luzeiros de misericórdia em meio às sombras do mundo.

Quando cultivamos uma amizade com o Senhor, aprendemos o que de fato é essencial em nossas vidas e professamos que essa amizade não se limita ao tempo ou ao espaço, pois ela nasceu, cresceu e germinou com o firme propósito de ser eterna. Na construção dessa eterna amizade, o Cristo nos ensina que não nascemos para vivermos sozinhos, pois somos seres sociais e sentimos necessidade de conviver com o nosso próximo. Ele também nos ensina que um amigo é aquela pessoa que sempre se predispõe a nos ouvir, acolher, orientar e caminhar ao nosso lado. É aquele que nos incentiva com o seu sorriso e nos envolve com o seu abraço fraterno.

Quando percorremos a senda da amizade juntos de Jesus, adquirimos a consciência de que um amigo é um homem bom, é uma dádiva, um tesouro precioso que nos é ofertado pelo Amigo de todas as horas e de todas as ocasiões. Só em Cristo e em união com Ele, podemos construir verdadeiras e definitivas amizades. Nenhuma amizade permanece, em termos humanos, se não estiver alicerçada em Deus. Por outro lado, nem o passar do tempo, as quarentenas, os isolamentos sociais, e nem mesmo as distâncias físicas são capazes de nos afastar de um verdadeiro amigo.

Um amigo é “a metade da nossa alma”. (Santo Agostinho). Um amigo é aquela pessoa que nos preenche, nos ajuda, nos completa como seres humanos e nos torna felizes. Dessa maneira, os amigos vibram com as pequenas e grandes conquistas de seus amigos. Mas o amigo também é uma presença, mesmo que silenciosa, nas horas de dores e dificuldades. É aquele que sabemos que vai chegar no tempo oportuno, não nos deixará sozinhos e, se for preciso, irá nos ajudar em nossas necessidades afirmando: “Não me agradeça. Foi um prazer lhe ajudar! ”.

As Sagradas Escrituras nos dizem que “um amigo fiel é um abrigo seguro!”. (Eclo 6, 14). Ele “é mais precioso que o ouro e as joias”. (Sl 18,11). Afinal, “um amigo fiel é um jardim fechado, uma fonte guardada”. (Ct 4,12). Por conseguinte, é com a ajuda dos amigos que descobrimos que o diálogo, o perdão, a correção fraterna e a compaixão são atitudes fundamentais na construção da fraternidade que evidenciam que um amigo é um irmão que mora em outra casa, ou até em outro Estado ou país, mas é, de algum modo, uma parte integrante de nossa família. Um amigo é a pessoa que conhece as nossas qualidades e defeitos e, por isso, está capacitado para nos incentivar a sermos bons, justos e leais.  No exercício da lealdade, aprendemos a refletir nos ensinamentos do Livro do Eclesiástico que nos diz: “Não tenhas vergonha de defender o amigo!”. (Eclo 22, 31).

É na vivência da amizade, no aprendizado de ser e ter amigos que adquirimos a certeza de que não há maior privilégio do que ter Cristo como nosso Deus adorado e amado, o sublime Amigo de todas as horas. Que maravilha é poder ter um Amigo que é o Bom Pastor que nos conduz às novas e florescentes messes! Que grande graça é poder ter um Amigo que nos segura pelas mãos e nos ergue quando caímos, acolhendo-nos com um abraço afetuoso! Que grata prerrogativa é poder ter um Amigo que nos abre as portas do Céu e nos diz: “Eu vos chamo de amigos! ”. (Jo 15,15).

Por sermos amigos de Jesus, o inigualável Amigo, cuja amizade não se limita a essa vida e a esse tempo, devemos abrir as portas da fé aos nossos coetâneos, testemunhando que a nossa amizade com o nosso Redentor está fundamentada na caridade, alicerçada nos sacramentos e é concretizada pela prática das virtudes. Dessa maneira, sem medo ou receios, deixemos que o Senhor Jesus nos conduza ao bom convívio da comunhão dos santos, a uma maior entrega de amor no serviço misericordioso da Igreja.

Agindo assim, nós iremos, hoje, amanhã e sempre, aprofundar nossa amizade com o Filho do Deus vivo, declarando-nos, até mesmo nas pequenas coisas, por meio do nosso falar, pensar e agir, que somos amigos do sublime Amigo que nos ensina a cultivar sólidas amizades com a Virgem Santa Maria, São José, todos os santos e com o nosso próximo, a fim de que, por meio da vivência da amizade, possamos adentrar o Reino dos Céus, incentivando sempre os nossos amigos a percorrerem o itinerário da santidade onde a esperança é uma luz que ilumina nossas possibilidades de futuro e, principalmente, de vida eterna.

Aloísio Parreiras
2020-05-15T18:57:08-03:0015/05/2020|