O DOM DO REINO DE DEUS

No desenvolvimento de Sua vida pública, Cristo dirigia-se aos Seus discípulos e
aos Apóstolos com palavras simples e claras que todos podiam compreender, revelando-
lhes os sinais, o valor e a importância do Reino de Deus e as transformações que a
adesão ao Seu Reino produz em todos aqueles que o abraçam sem reservas.
No capítulo treze do Evangelho de São Mateus, nós encontramos o relato de sete
parábolas que abordam a temática do Reino de Deus e que foram contadas e explicadas
pelo próprio Cristo. Por meio da parábola do tesouro escondido no campo e da parábola
da pérola preciosa, o nosso Redentor nos apresenta dois protagonistas: um camponês e
um rico comerciante.
Essas duas pessoas caminhavam por caminhos distintos: o camponês não estava
à procura de um tesouro escondido, mas o comerciante estava, sim, à procura de uma
pérola de grande valor. Alcançaram um grande êxito, ou seja, a descoberta de algo
extremamente precioso e, por isso, ambos não hesitaram em vender tudo o que
possuíam para comprar o tesouro que encontraram, evidenciando que a posse do tesouro
passou a ser o objetivo principal de suas vidas.
Utilizando-se dessas duas parábolas, Cristo nos ensina o que é o Reino dos Céus,
como podemos encontrá-lo e o que fazer para o possuir. Ele também destaca quais são
as duas características relativas à posse do Reino de Deus: a busca e o sacrifício. É
nítido que o Reino dos Céus é oferecido a todos, pois é um dom, um presente, uma
graça, mas a adesão a esse Reino exige de nós um singular dinamismo: procurar,
caminhar, trabalhar, perseverar e cuidar. A primeira e necessária atitude é desejar
alcançar o Bem por excelência e encontrar a graça que renova completamente a nossa
existência.
Quando paramos para meditar nessas duas parábolas, com o auxílio do Espírito
Santo, nós percebemos que o Reino dos Céus se faz presente na Pessoa de nosso Senhor
Jesus Cristo, pois Ele é a pérola de grande valor, o tesouro escondido. Ele é a descoberta
essencial, que provoca uma transformação decisiva em nossos corações, preenchendo a
nossa vida de luz, sentido, beleza, importância e significados.
Diante dessa feliz descoberta, tudo aquilo que antes julgávamos imprescindível
perde o seu valor, pois nada pode ser comparado à presença de Deus em nossas almas.
Ele é o nosso tesouro absoluto e, por amor a Ele, abrimos mão de todas as coisas que
impedem nossa pertença ao Seu Reino. Diante dessa feliz descoberta, “a alegria do
Evangelho enche o coração e a vida inteira de quantos se encontram com Jesus. Aqueles
que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do
isolamento. Com Jesus Cristo, a alegria nasce e renasce sempre.” (Papa Francisco,
Exortação Apostólica  Evangelii Gaudium , nº 1).
Face à revelação de que existe um Deus que nos ama infinitamente e de que Ele
é extremamente misericordioso conosco, nós adquirimos a consciência de que não
podemos poupar sacrifícios, desprendimentos e renúncias para permanecermos unidos a

Ele por meio da vivência sobrenatural da graça, pois somente em estado de graça, nós
podemos escutar a doce e decisiva voz do Espírito Santo sussurrando em nossos
ouvidos: “Foi-te revelado, ó homem, o que é o bem e o que o Senhor exige de ti:
principalmente praticar a justiça e amar a misericórdia, e caminhar solícito com teu
Deus”. (Miq 6, 8).
A graça, a participação na vida de Deus, é uma pérola de valor infinito. Por
conseguinte, quando descobrimos o inestimável valor da graça, nós abrimos mão do
egoísmo, da soberba, do mal, do pecado e do desamor e passamos a extravasar a alegria,
o entusiasmo, a humildade, a caridade, a misericórdia e o bem, ou seja, testemunhamos
a felicidade dos enfermos que foram curados e a dos pecadores que foram perdoados.
Em outras palavras: mudamos de vida, adentramos o terreno da luz e deixamos claro
quais são as coisas que dão sentido à nossa História, quais são as coisas que dão sabor e
luz a tudo, inclusive aos sofrimentos, às noites escuras e às dificuldades.
Quando descobrimos em Cristo a presença dos sinais do Reino de Deus, a beleza
da Sua humanidade e divindade e, acima de tudo, a Sua entrega, a Sua doação pela
nossa salvação, nós abraçamos o Reino de Deus e passamos a afirmar juntos com São
Paulo: “Essas coisas, que eram ganhos para mim, considerei-as prejuízo por causa de
Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o
conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa d’Ele, perdi tudo e considero
tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a Ele” (Fl 3,7-9).
Quando descobrimos, na face de Cristo, o rosto da misericórdia de Deus, não
precisamos mais continuar procurando o que nos faz felizes, pois Ele é a razão da nossa
felicidade, mas, por outro lado, nós precisamos corresponder ao Seu amor, entregar em
Suas mãos os nossos corações e permitir que Ele dê forma a toda a nossa vida, com a
certeza de que “no entardecer da vida, nós seremos julgados pelo amor. Aprendamos a
amar como Deus quer ser amado”. (São João da Cruz, Avisos Espirituais, nº 60).
Na vivência da fé e da santidade, em todas as situações em que o nosso próximo
nos disser que não é feliz ou que a sua vida não tem sentido, ou ainda nos questionar:
“Vistes porventura o amor de minha vida?”. (Cânt 3,3), saibamos dizer-lhe com a força
propulsora do amor: “Que procures Cristo. Que encontres Cristo. Que ames a Cristo.
São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira?” (São Josemaría
Escrivá, Caminho nº 382). Saibamos também lhe dizer com a caridade da verdade:
“Não há nada melhor no mundo do que estar em estado de graça!”. (São Josemaría
Escrivá, Caminho nº 286).
No exercício da pertença a Deus e à Igreja, o Cristo nos ajuda a entender que “o
Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo
tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem
os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam”. (Mt 13, 47-48). Desse
modo, aprendemos que o bem e o mal se fazem presentes na sociedade e em nossas
vidas, mas nós possuímos o dom da liberdade para realizarmos a escolha certa, aderindo
ao bem continuamente.

Cristo quer contar conosco no serviço de lançar as redes da Igreja no oceano do
mundo com o objetivo de conquistar novos discípulos missionários que abracem, com
amor, as exigências do Reino de Deus. Saibamos dizer sim ao Cristo, a fim de que
possamos continuar contemplando a alegria do Evangelho no semblante do nosso
próximo que aderiu ao amor de Cristo. Agindo assim, nós iremos atualizar em nossos
corações o entusiasmo que transbordou de nossas almas quando descobrimos a
proximidade e a presença confortadora de Jesus na senda de nossas vidas. Desde aquele
dia, a presença renovadora e inquietante de Cristo transformou e abrasou o nosso
coração, abrindo-nos às necessidades e ao acolhimento dos irmãos, sobretudo dos mais
fracos, fortalecendo o nosso ideal de santidade na vivência dos valores do Reino dos
Céus.

Aloísio Parreiras
2020-07-26T22:21:51-03:0026/07/2020|