O ITINERÁRIO DE EMAÚS

As aparições do Cristo vivo e ressuscitado são cátedras de onde brotam fecundos ensinamentos. O primeiro desses ensinamentos é a percepção de que a presença do Cristo preenche o nosso coração da paz e da alegria que não podem ser contidas e, por isso, o impulso missionário, a necessidade de compartilhar essa boa nova com o nosso próximo, é uma urgência no itinerário da santidade.

Se pararmos para meditar nas aparições do Cristo ressuscitado, à luz da fé, iremos sentir que a misericórdia de Deus, em favor dos homens, é uma ação contínua, um hoje que não tem ocaso. No hoje da História da Salvação, nós percebemos que, no Domingo da ressurreição, Jesus Cristo foi ao encontro dos dois discípulos de Emaús e caminhou com eles, como um viajante, um peregrino desconhecido. Desde o início da caminhada, Cristo, por meio de palavras e de gestos, revelou a Cléofas e seu companheiro: “Eu sou o primeiro, o último e o vivente. Estava morto, mas agora vivo! ” (Ap 1,17-18). Mas os sentimentos de perda e de tristeza que foram provocados pela Paixão e Morte de Jesus eram barreiras que estavam impedindo a visão da vitória definitiva da vida sobre a morte.

A caminhada de Emaús foi marcada por passos lentos, pelo silêncio, pelo desânimo, pelo descompasso e pela ausência de ideais. Naquele momento, parecia que o passado era o único tempo que existia, o presente era incerto e o futuro indeterminado. Naquele caminho que parecia interminável, naquela caminhada regada de lágrimas, naquela senda que parecia conduzir a nenhum lugar, Cléofas e seu companheiro se deixaram sucumbir pelo cansaço e, por isso, deixaram cair no esquecimento uma sábia advertência: “Não descuides do dom da graça que há em ti! ” (1 Tm 4,14).

Mas o descuido não foi definitivo, pois, mesmo que não percebessem, os seus corações estando velando, vigiando, ou seja, com as luzes acesas e, deste modo, o pavio da fé ainda fumegava. Aquecidos pelos raios do sol, eles começaram a lutar contra o cansaço e o desânimo. No início, a batalha parecia estar perdida, mas após beberem uma boa quantidade de água, eles se recordaram dos ensinamentos que ouviram de seus pais e dos ensinamentos do próprio Cristo, que lhes assegurava que estaria sempre com eles. De um modo misterioso, o vento parecia sussurrar: “O Senhor foi convosco, porque vós fostes com Ele. Se o buscardes, achá-lo-eis; mas, se o abandonardes, Ele vos abandonará! ” (2Cr 15,2).

O caminho de Emaús atravessa a nossa história, todos os séculos, a nossa existência e a senda da Igreja e, por isso, uma lição sempre atual em Emaús é a convicção de que o Senhor ressuscitado é a esperança que nunca esmorece, a alegria que é permanente, a caridade que nunca se esquece de nós. Hoje, agora, este exato momento, é uma boa ocasião para ouvirmos a voz de Cristo que procura um abrigo seguro em nossos corações. Mas antes, Ele exige de nós tempos de pausas para realizarmos um diálogo, uma conversa que prenda a nossa atenção, priorizando unicamente o essencial.

Uma segunda lição que somos convocados a aprender com os dois discípulos de Emaús é que, sem a presença de Deus em nossas vidas, somos apenas caminhantes sem destino, uns peregrinos sem direção. Diante das dificuldades, das noites escuras e das ausências, é essencial que saibamos perceber que a ressurreição de Jesus é a nossa força, o manancial que rega o terreno árido da nossa justiça tornando-o fecundo.

Na caminhada da fé, muitos de nós atravessamos dias difíceis, noites de insônia e de amargura. Nestes momentos, é de suma importância que saibamos manter a chama do amor acesa a fim de que ela mantenha o nosso coração aquecido e renovado. Na caminhada da fé também existem muitos sinais reveladores da presença de Deus em nosso meio. Os principais sinais são a Sagrada Escritura, a Eucaristia e os gestos de amor que evidenciam os raios da Divina misericórdia que nos alcançam em todo tempo e lugar.

A graça, a presença do Deus vivo em nós, é a essência do amor e, ao mesmo tempo, é o centro para o qual devem convergir todos os campos da existência humana. Nos nossos dias, nos modernos caminhos de Emaús, Cristo continua a nos dizer: “Sois insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas anunciaram! ” (Lc 24, 25). Agindo assim, Ele nos demonstra que “a graça não exclui a correção, e a correção não nega a graça”. (Santo Agostinho).

Uma terceira lição que devemos aprender em Emaús é que, por meio das Sagradas Escrituras, Deus nos orienta e ensina. Ler as Escrituras é se predispor a ouvir a Deus, pois “a Escritura não é uma coisa do passado. O Senhor não fala no passado, mas fala no presente, fala hoje conosco, dá-nos luz, mostra-nos o caminho da vida, dá-nos comunhão e assim nos prepara e nos abre à paz”. (Papa Bento XVI, “Audiência” em 29 de março de 2006). Por intermédio das Escrituras, podemos perceber que a comunhão é verdadeiramente uma Boa Nova que extravasa nosso ser e nos leva a suplicar: “Permanece conosco, Senhor! ” (Lc 24, 29).

O altar da Santa Missa sempre será o altar de Emaús, o lugar do encontro determinante que transforma vidas, recuperando oportunidades. É ali, no altar sagrado, que se ergue esplendorosamente sobre o mundo, que nós vislumbramos o rosto do Cristo vivo e ressuscitado que caminha conosco, tornando-Se, Ele mesmo, o Pão que sacia a nossa fome de eternidade. Por conseguinte, a Fração do Pão, a Sagrada Comunhão, deve ser o gesto prioritário da nossa identificação com o nosso Redentor. Diante da Mesa Eucarística, nós podemos professar: “Jesus está no Santíssimo Sacramento como meu Salvador. Chega-se a mim para comunicar-me as Graças da Redenção, aplicar-me os Seus Méritos, fazer correr o Seu Sangue divino sobre o meu corpo e minha alma”. (São Pedro Julião Eymard, “A Divina Eucaristia”, volume 5).

Neste belo e singular caminho de Emaús, é necessário ainda que aprendamos que a ressurreição de Jesus Cristo é um forte apelo à realização de um fecundo apostolado, pois a plena certeza de que somos amados por Deus nos impulsiona a novas messes, às periferias que carecem de acolhimento e às cidades que se perdem no meio de tantas luzes sem brilho. Inspirados nos discípulos de Emaús, nós temos que permitir que o Espírito Santo nos conduza a um novo Pentecostes que nos leve a testemunhar com coragem e firmeza: “É verdade, o Senhor ressuscitou! ” (Lc 24,34). Ele ressuscitou e é sempre novo, moderno, atual e eterno. Como não compartilhar com os nossos coetâneos este tesouro desvendado, esta pérola preciosa, esta certeza decisiva?

Cléofas e o seu companheiro são santos, os santos discípulos de Emaús que nos convidam a caminhar de cabeça erguida mesmo em meio às dificuldades que parece que não passam. Cléofas e o seu companheiro são sinais da esperança que brilham na história da salvação, indicando-nos o rumo certo, a trilha ideal, o mapa que nos conduz ao caminho da vida que é sempre ponto de chegada e de partida, ponto de recuperar as forças e retomar o itinerário da conversão, que é sempre único, pessoal, desafiador e intransferível.

Deixemo-nos contagiar pela atmosfera de santidade que emana do caminho de Emaús. Aprendamos com Cléofas e o seu companheiro a abrir nossos corações para ouvir o que Cristo tem a nos dizer. Ouçamos Suas admoestações e sintamos, no recanto da nossa alma, a certeza de que hoje e sempre precisamos de recolhimento e de silêncio para escutarmos a voz de Deus. Em íntima união com o Cristo vivo e ressuscitado, caminhemos, com júbilo e alegria, anunciando ao nosso próximo: “Por maiores que sejam os teus sofrimentos, tua vitória sobre eles está no silêncio”.

Em silêncio, deixemos que a luz do Cristo ressuscitado transborde em nosso ser, a fim de que, também por meio de nós, os sinais da morte sejam superados pelos sinais da vida, pois esse mundo, que está envelhecido pelo pecado e pela desordem, precisa, urgentemente, da contemplação da luz que emana do Sagrado Coração de Jesus. Precisa, acima de tudo, fazer uma necessária parada na estalagem de Emaús, a fim de que possa contemplar o novo dia da esperança que brilha no céu da nossa história desde o Domingo em que o Cristo venceu a morte e nos resgatou para a eternidade sem fim.

 

Aloísio Parreiras

2020-04-25T11:49:53-03:0026/04/2020|