O PODER DO SILÊNCIO

O Sábado Santo é um dia de silêncio, de oração e de recolhimento, pois, neste dia, Cristo, qual semente fecunda, repousou no túmulo, esperando a alvorada da ressurreição. Neste dia de silêncio, nós velamos junto ao sepulcro de Jesus e, por isso, este dia é para nós um dia de meditação, reflexão e silêncio.

O Sábado Santo nos convida ao exercício reflexivo do silêncio. É um dia onde as palavras do salmista adquirem um novo significado: “conserva-te, em silêncio, diante de Deus e espera n’Ele”. (Sl 37,7). Esta é a melhor resposta da fé, a única que convém diante dos sinais de morte que tentam ofuscar os sinais da Luz. Em silêncio, neste dia, podemos e devemos procurar a presença da Virgem Maria, a Virgem do silêncio, com o objetivo de adentrarmos o terreno do sagrado, meditando sobre a força e o valor do silêncio.

Exercitando o silêncio, nós podemos percorrer o Antigo Testamento, no Primeiro Livro dos Reis, em seu capítulo 19, que nos conta que um dia Deus solicitou ao profeta Elias que subisse a montanha, pois, lá em cima, iria lhe falar. Elias subiu e ficou esperando. “Veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Passado o terremoto, veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa… Então Elias ouviu a voz de Deus”. (1 Rs 19, 11-16).

Da descrição do encontro de Deus com Elias, nós percebemos que Deus não nos fala no barulho, e sim no silêncio, ou seja, Deus escuta e fala no silêncio da alma e do coração. Assim como Elias, nós devemos nos contagiar pelo silêncio de Deus. Temos necessidade deste silêncio, pois o nosso mundo é extremamente ruidoso e, por isso, não favorece o recolhimento e a escuta da voz do Senhor. Muitas pessoas, erroneamente, fogem do silêncio porque têm medo de se encontrar consigo mesmas. Fugir do silêncio é uma insanidade, pois Deus se esconde e se revela no silêncio.

O silêncio é muito mais eficaz e eloquente do que palavras ditas. Santo Agostinho nos conta que, em seu processo de conversão, pegou um livro e o abriu e, em silêncio, leu a primeira seção sobre a qual caíram os seus olhos. O trecho que ele leu, em silêncio, foi: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para satisfazer seus desejos”. (Rm 13, 14). Naquele momento, por meio do silêncio, a luz da fé inundou o seu coração e a escuridão da dúvida dissipou-se.

O processo de conversão de Santo Agostinho nos revela que não há silêncio de Deus a não ser para aqueles que não querem ouvir. De algum modo, mediante o silêncio, Agostinho ouviu a voz do Pai que nos diz: “Este é o Meu Filho amado em quem encontro meu agrado, escutai-o! ”. (Mt 17,5). Deus nos fala, nos ouve, mas, muitas vezes, somos nós que não sabemos fazer o necessário silêncio para escutá-Lo ou a nossa fé não é suficiente para fazermos silêncio, a fim de que possamos contemplar o mistério que nos envolve.

São João da Cruz nos ensina: “Uma Palavra disse o Pai, que foi seu Filho; e di-la sempre no eterno silêncio e, em silêncio, ela há de ser ouvida”. (Ditos de Amor e Luz nº 98). Quando a Palavra de Deus é ouvida, notamos que no silêncio habitam a graça, o amor e a misericórdia de Cristo. A Virgem Santa Maria estava em oração, em silêncio interior, quando recebeu a anunciação do Arcanjo Gabriel, comunicando a encarnação do Verbo Eterno. Ela também vivenciou o silêncio no Presépio, no nascimento de Jesus, e nos trinta anos de Sua vida oculta em Nazaré. Posteriormente, no desenvolvimento da vida pública de Cristo, Maria guardava todas as coisas em seu coração. Contemplando o silêncio de Maria, nós aprendemos que a graça renovadora de Deus só pode ser acolhida no silêncio, na quietude, na contemplação.

Na vida de Cristo, sobretudo no desenvolvimento de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, o silêncio adquiriu um profundo significado. No processo da Paixão, o Verbo emudeceu para expressar o alcance de Seu amor. Suspenso no madeiro da Cruz, o sofrimento que lhe causou tanto silêncio fê-lo lamentar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”. (Mc 15,34). Quando refletimos nestas palavras, temos a certeza de que a vivência do silêncio de Cristo na Cruz é profundamente reveladora da situação de toda pessoa que reza e atinge o ápice da oração. Assim como Cristo, depois de ter ouvido e expressado a Palavra de Deus, devemos exercitar o silêncio com simplicidade, pois o silêncio é a expressão da própria Palavra divina.

Em Cristo, o Servo sofredor, o silêncio é permeado da contemplação do mistério de Deus, em uma atitude de correspondência, de total disponibilidade à vontade do Pai. O silêncio de Cristo é a revelação de que Deus é silencioso e, por outro lado, o silêncio é o tempo reservado à Sua ação transformadora. O silêncio é o moinho que movimenta a sabedoria e a santidade. O silêncio não é a mera escassez de palavras, mas é, sim, o espaço sagrado para o encontro com Deus, o território sagrado que só podemos pisar com as sandálias da humildade. O silêncio é ainda um tempo expressivo de respostas, de encontros e de metanoia, pois o silêncio nos transforma, capacitando-nos para a Verdade, o Bem e a vida plena. O silêncio nunca é um vazio interior. Ao contrário, o silêncio é a plenitude da fé que orienta as nossas ações e pensamentos.

O silêncio é o elemento que nos ajuda a reconhecer a nossa identidade e vocação. As perguntas que acompanharam a mocidade do jovem Angelo Giuseppe Roncalli, que se tornou o Papa João XXIII, e também acompanham a nossa existência: “quem eu sou, de onde vim e para onde vou? ”, somente no silêncio podem ser corretamente respondidas. Deste modo, todo o nosso agir e as nossas orações devem estar repletas de momentos constantes de silêncio. Na Santa Missa, diante do Sacrário e no cotidiano da fé, somente por meio do silêncio nós estaremos capacitados para dobrar os nossos joelhos diante de Deus, que é suave, doce e silencioso.

O silêncio é mais valioso que centenas ou milhares de palavras. O silêncio, quando é realizado, com maestria e perfeição, define os nossos gestos, conduta, postura e testemunhos e, por isso, devemos sempre mais criar espaços de silêncio em nossas vidas, pois, na aprendizagem do silêncio, nós descobrimos que o silêncio não é um vazio, nem um tempo assustador. Unidos ao Cristo, à Virgem Santa Maria e a São José, nós teremos acesso à revelação de que o silêncio é o meio que Deus disponibilizou para que possamos encontrá-Lo, encontrar a nós mesmos e o nosso próximo. Somente no aprendizado do silêncio nós iremos notar que “quem realmente possui a palavra de Jesus pode ouvir também o Seu silêncio, de modo a ser perfeito, de modo a agir por Sua Palavra e ser conhecido por sua permanência no silêncio”. (Santo Ignácio de Antioquia, Carta aos Efésios 15, 1s). Fica conosco, Senhor, e por meio do silêncio, ensinai-nos a perceber a Sua presença em nosso meio, escutando os Seus suaves e decisivos passos em nossa história.

Aloísio Parreiras

2020-04-11T18:38:41-03:0011/04/2020|